Fora de Plano #44 | Filmes de Tubarões Ainda Funcionam?

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Tubarão é um filme intenso. É clássico, visceral e bem realizado. O seu legado na indústria cinematográfica e na cultura pop é extenso, o que permitiu o surgimento de um amplo subgênero que possui vasta catalogação, isto é, os filmes do jawsploitation. Há casos bem interessantes, tais como Águas Rasas, Medo Profundo e Do Fundo do Mar, no entanto, o numeroso painel de produções desnorteantes com o maior predador dos mares consegue ir além do selo de boa qualidade, algo que por sinal, será debatido antes de adentrarmos na breve análise dos filmes que fazem parte do que podemos chamar de “cultura do excesso”, produções que exageram por meio de roteiros mirabolantes, personagens caricatos e mal formulados e tubarões deformados por efeitos especiais pífios.

Durante muito tempo houve os filmes que se levaram á sério e logo mais as produções começaram a se comportar tranquilamente como encomendas dos consumidores de cultura trash. Mas, afinal, o que é cultura trash? Há um mercado específico para isso? Sabe aquele artefato cultural que não atende aos padrões morais ou as normas estabelecidas no que diz respeito à qualidade técnica e artística dominante em nossa sociedade? Então, isso é cultura trash. Se esse tipo de material é bom ou ruim, não nos interessa, afinal, o foco aqui não é entrar no mérito qualitativo, mas radiografar e entender os desdobramentos dos filmes de tubarões na indústria cinematográfica. Tal atividade, no entanto, torna-se embasada e completa quando adentramos por este campo de produção e consumo, tendo em vista entendê-lo.

O conceito de paracinema nos ajuda a compreender. Desenvolvido por J. Sconce em Trashing the academy: Taste, Excess and an Emerging Politics of Cinematic Style, o conceito reflete as práticas de consumo audiovisual numa espécie de sensibilidade estética subcultural que valoriza todo tipo de “lixo cultural”, isto é, as produções que não fazem parte de determinados eixos que ditam as normas do que é “bom” e “ruim”, elementos que como já sabemos, faz parte de muitos dos segmentos de nossa sociedade, “inventados” pela humanidade ao longo de sua história. Importante salientar que tal consumo de produtos com qualidade artística baixa está associado à consciência dos espectadores no que diz respeito a dita “má qualidade”.

Consumir ciente da desaprovação do público mainstream é parte do processo de condução deste culto, algo que se aproxima do conceito de camp, isto é, sensibilidade estética que segundo Susan Sontag, em Contra a Interpretação, busca dar conta de sensação de que algo pode ser bom justamente por ser muito ruim. Há uma legião de cinéfilos que considera o consumo de produtos trash algo meritório, pois tal postura se configura como subversiva e contestadora diante dos valores difundidos pela cultura de massa.

Com o estabelecimento do camp como uma possibilidade, tornou-se possível contemplar os produtos que a indústria cultural tem a nos oferecer, sem necessariamente nos contaminarmos com o senso comum e as elites intelectuais tratam como “lixo tóxico”. É como assistir e se divertir com Sharknado logo após uma sessão de algum filme de cineastas do quilate de Lars Von Trier, Pedro Almodóvar, Woody Allen, François Truffaut, Alfred Hitchcock, dentre tantos outros do mainstream. A discussão, inclusive, nos remete ao que Umberto Eco reflete na introdução de Os Movimentos Pop, publicado em 1979, ao alegar que “o surgimento da sensibilidade camp caiu como uma luva entre a intelectualidade que sempre teve vontade de se entregar aos prazeres da cultura de massa e de seus símbolos sedutores”, afinal, tais indivíduos não faziam “por constrangimento e medo dos julgamentos a que seriam submetidos”.

Diante do exposto, voltemos aos filmes sobre tubarões. As produções bizarras podem até recorrer ao discurso científico para justificar as suas histórias, haja vista algumas espécies de tubarões que são forte inspiração para filmes de terror. Shark Exorcist é um dos exemplos mais berrantes. Escrito e dirigido por Donald Farmer, o filme retrata a história risível de tubarões possuídos por entidades demoníacas, numa sátira que mescla os clássicos Tubarão e O Exorcista. Dentro da mesma linha fantasmagórica temos Ghost Shark, de Griff Furst, profissional que assinou o roteiro em parceria com Eric Forsberg para contar a história de um pescador muito competitivo que perde um peixe para um tubarão branco durante uma pesca e irritado, posteriormente, ceifa a vida do animal numa emboscada vingativa. O que ele não esperava era que o fantasma do tubarão retorna para assombrar e pode se fazer presente em qualquer recipiente que contenha água, isto é, vaso sanitário, piscinas, copos com água, etc.

Consegue imaginar? Não se espante ao saber que há Ghost Shark 2, sequência sem nenhuma ligação com o filme anterior. Com o subtítulo “Mandíbulas Urbanas”, o filme retrata a árdua candidatura de um prefeito da Nova Zelândia que precisa contratar um caçador profissional de tubarões depois que algumas mortes misteriosas assombram a cidade. Dirigido pela dupla formada por Johnny Hall e Andrew Todd, a produção teve o roteiro assinado por Abby Walker, material tão absurdo quanto Tubarão Zumbi, mescla de horror e comédia sobre um grupo de pessoas que precisam sobreviver ao ameaçador tubarão fruto de um experimento que saiu do planejado. Misty Talley assumiu a direção, tendo como base o roteiro de Greg Mitchell.

Se você acha que já viu o suficiente sobre tubarões e cultura do excesso, talvez seja porque desconheça Dick Shark, monstruosidade dirigida e escrita por Bill Zebub. O argumento é simples: um casal romântico consegue algo além do esperado depois que o parceiro experimenta um creme que promete alongamento peniano. As coisas são do controle quando o creme na verdade faz nascer no rapaz o Tubarão-Pau. O cartaz ilustrativo já explica o suficiente, concorda?

Na seara da “fantasia”, dois filmes de tubarões tentam emular o estilo de outro filme de Spielberg, desta vez, Jurassic Park. Em Dinoshark, de Kevin O’ Neill, aventura escrita por quatro roteiristas, um tubarão pré-histórico é liberado das geleiras por conta do aquecimento global. Já em Jurassic Shark, Brett Kelly comanda o elenco “pouco talentoso”, tendo como base o roteiro de David A. Loyld, material dramatúrgico que trata de dois grupos de náufragos que se encontram numa ilha que é patrulhada por um tubarão gigante, criatura libertada das profundezas após uma empresa realizar algumas ações para perfuração ilegal de petróleo.

Na linha dos filmes que usam impactos ambientais como desculpa para roteiros mais “sustentáveis” diante de histórias com pouco equilíbrio dramático, podemos sinalizar Planeta dos Tubarões e Águas Escuras. O primeiro é assumidamente trash, com direção de Mark Atkins e roteiro de Marc Gottlieb, aventura filmada na África do Sul que retrata o planeta Terra num futuro próximo, diante do derretimento de 98% do gelo. Os tubarões são as criaturas dominantes e os homens vivem numa eterna odisseia oceânica. O segundo (dirigido e escrito pela dupla formada por Phillip J. Roth e Brett Orr) é um filme que tenta se levar à sério e aborda a trajetória de um biólogo marinho que vive de golpes e fraudes, até que um dia aceita uma oferta de supervisão numa plataforma de petróleo e precisa lidar com o inesperado: tenebrosos tubarões.

Como a criatividade dos realizadores dentro do segmento em questão não possui limites, Mark Atkins se tornou o responsável por Sand Sharks, aventura sobre um terremoto que vai muito além de abalar a superfície terrestre, isto é, libera tubarões pré-históricos que se movem por debaixo da areia da praia. O mar, desta vez, não é o problema, mas continua sendo a dor de cabeça para os personagens de Shark Swarm, uma história bem fraquinha escrita por David Rosiak e Matthew Chernov que trata de um empresário inescrupuloso que pretende tornar Full Moon Bay, um vilarejo de pescadores, num condomínio de luxo. Como ele não contava com os argumentos contrários de um pescador que vive da economia local, decide jogar lixo tóxico no local e eliminar os peixes. O que vai acontecer? Quem advinha? Os tubarões dóceis que vivem na região transformam-se em bizarras feras assassinas.

O divertido Sharkansas Women’s Prison Massacre traz um grupo de presidiárias que após fugir da prisão, percebem que há obstáculos além do esperado na trajetória de fuga. Elas fogem por meio de um canal, mas além de enfrentar a polícia, as moças precisam sobreviver aos tubarões ferozes por conta de um acidente ambiental. Outro exemplar bastante inusitado é Tubarão em Veneza, de Danny Lerner, uma tenebrosa aventura sobre o desaparecimento de um mergulhador que logo é atribuído a presença de um tubarão pelos famosos canais da cidade italiana. O roteiro de Les Weldon incrementa a história com um grupo de mafiosos interessados em roubar um tesouro perdido numa caverna submarina.

A relação entre criminosos e tubarões também está presente em O Lago dos Tubarões, dirigido por Jerry Dugan e escrito por David Anderson, aventura sobre um contrabandista de espécies raras de animais. Antes de ir preso, ele despeja alguns tubarões num lago da região, o que futuramente fará a polícia ter que recorrer aos seus serviços para contenção dos problemas. Férias Sangrentas de Verão, incursão de Misty Talley e Greg Mitchell no mundo dos filmes bizarros de tubarões, traz uma família que decide passar as férias de verão numa cidade chamada Ozark’s, mas sequer são avisados que os festivais de verão foram cancelados por conta da ferocidade dos tubarões-touro que estão atacando o local. Outra família em apuros pode ser vista em Tubarão do Pântano, de Griff Furst. Com roteiro assinado pela dupla Jennifer Iwen e Eric Miller, a aventura trata das ações de um grupo de familiares responsabilizado pela presença de um tubarão despejado na região por alguém com interesses escusos. O plano do grupo é capturar a criatura e sair ileso.

Em 1999, Do Fundo do Mar estreou, fenômeno que oxigenou o subgênero jawsploitation, seara de produção que há tempos não tinha algo divertido para assustar as plateias. Na sua esteira surgiram Pânico no Mar e a trilogia Tubarões, todos infinitamente inferiores ao filme que reabriu as possibilidades para filmes de tubarões mais interessantes. Em Pânico no Mar, de Matt Codd, escrito por Sam Wells e Phillip J. Roth, um tubarão pré-histórico é o grande problema no litoral da Califórnia, o que ocasiona a chegada de um biólogo para o local, tendo em vista estudar o problema. O pior é que na sua chegada ele e sua família são atacados e o que era uma pesquisa agora se tornou uma vingança pessoal.

Na mesma linha da ética com pesquisa animal, Bob Misiorowski comanda Tubarões, filme sobre um acidente num laboratório de pesquisas que acaba com a morte de vários cientistas. Na investigação, descobre-se que uma nova droga testada nos animais ocasionou o comportamento voraz e sanguinário, mote do segundo filme, Tubarões 2, trama sem conexão com o antecessor e focada na mesma linha narrativa: tubarões geneticamente modificados que se tornaram máquinas assassinas. Tubarões 3, desfecho da saga, os realizadores gastaram as suas energias para desenvolver uma história com pesquisadores a enfrentar o lendário Megalodon.

A lista, caro leitor, é numerosa. A seleção realizada para esta reflexão se deteve nos filmes lançados em DVD e VHS no Brasil, fruto de minhas sessões de entretenimento e curiosidade da adolescência ao momento atual. Para quem ficou curioso, saiba que há Super Shark, um filme sobre um curioso tubarão pré-histórico, bem como Robô Shark (um tubarão branco que engole um óvni e se torna um híbrido), Sangue Negli Abissi (jovens que precisam parar uma maldição nativa estadunidense sob a forma de um tubarão assassino), Tubarões Assassinos (espécies misteriosamente atraídas para o Triângulo das Bermudas), Jaws in Japan (aventura sobre duas jovens que caem numa armadilha de turista e enfrentam a temida criatura), Sharkman (produção bizarra que envolve cura do câncer e células-tronco em meio a um experimento mal sucedido), Avalanche de Tubarões (uma espécie pré-histórica libertada após um descuido numa região com práticas de snowboard), Ice Sharks (produção sobre uma espécie agressiva libertada após uma fissura no Ártico), dentre outros tantos que englobam a imensa lista: O Ataque do Tubarão de Três Cabeças, O Ataque do Tubarão de Cinco Cabeças, 90210 Shark Attack, Sharkenstein, Sky Sharks, Jersey Shores Shark Attack, etc.

O curioso é que o campo da ciência apresenta casos curiosos de espécies de tubarões que dialogam constantemente com o imaginário destes filmes que se entregam aos argumentos absurdos para desenvolvimento de suas histórias. Basta ler as páginas de publicações como as revistas Galileu e Super Interessante para encontrar informações sobre raridades ou “anomalias” catalogadas por cientistas, dentre elas, o tubarão fantasma, espécie filmada por acidente depois que geólogos enviaram uma sonda para investigar a costa da Califórnia e do Havaí. Que fique claro: a espécie não tem nada a ver com o argumento exagerado de Ghost Shark, mas são criaturas que abrem precedentes para a fértil imaginação. Um bom exemplo é o tubarão duende, uma espécie que projeta a mandíbula para capturar a sua presa durante a caça. Juntamente com seus dentes finos e pontiagudos, o animal lembra bastante o monstro da saga Alien. Recentemente, um pescador da Flórida encontrou um tubarão de duas cabeças durante uma pesca e entregou para um centro de estudos da Universidade do Estado de Michigan. A ficção, diante destes casos, fermenta as ideias já anabolizadas de muitos realizadores, o que acaba por culminar em filmes como Sharknado, longa série de sucesso que se tornou um fenômeno que deve ser analisado separadamente, em outra ocasião.

Em busca das considerações provisoriamente finais, destaco o texto da jornalista e pesquisadora Mayka Castellano, um artigo interessante sobre consumo de cultura trash, intitulado Distinção pelo “mau gosto” e estética trash: quando adorar o lixo confere status, publicado em 2011. A reflexão panorâmica discute o fenômeno do consumo de cultura trash como algo de valor dentro de um determinado eixo cultural, algo que nos ajuda a compreender a existência de tantos filmes de tubarões ao estilo do que foi apontado neste especial. Entender tais produções e refletir sobre a existência deste tipo de material é adentrar pelas vísceras da cultura cinematográfica industrial e compreender os seus desdobramentos, o que não significa que isso seja uma experiência interessante ou positiva.

A maioria dos títulos citados não é desinteressante por conta do grau de imaginação excessiva de seus realizadores, tampouco por causa dos efeitos especiais oriundos do baixo orçamento, mas não funcionam como entretenimento em muitos casos. Muitas vezes a história é chata e arrastada, algo que não justifica a paciência do espectador diante de tantos excessos. Quando não é assim, acontece de quase nunca contemplarmos os imaginativos tubarões, criaturas geralmente estampadas em seus cartazes promocionais, mas com quase nenhuma “aparição em cena”, levando-nos ao questionamento do título: os filmes de tubarões ainda funcionam?

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.