Crítica | Django Livre (Trilha Sonora Original)

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Django Livre foi a oitava grande incursão industrial de Quentin Tarantino no cinema. O filme, situado nas bases da suja e sangrenta história americana, nos leva ao território sulista para nos apresentar a saga de Django, um escravo recém-liberto que atravessa longos territórios, acompanhado de Dr. King Schultz, um caçador de recompensas, tendo como meta resgatar a esposa das mãos do fazendeiro asqueroso e cruel, interpretado por Leonardo DiCaprio. Neste processo, Tarantino oferta ao espectador as câmeras contemplativas típicas do western, em contraste com os zooms constantes, numa produção que mistura mitologia grega, nórdica, gêneros cinematográficos e outras referências que só funcionam com um cineasta de seu quilate, alguém que domina as técnicas narrativas, bem como os ingredientes de sua receita metalinguística.

Em depoimentos sobre a produção da trilha sonora, Tarantino alegou que “não gosta de dar tanto poder para alguém dentro de seu processo de filmagem”. A afirmação veio após um questionamento sobre o uso de músicas já conhecidas pelo público, ao invés do “padrão por encomenda”. Desta vez, no entanto, ele incorporou canções já estabelecidas no imaginário, mas também acrescentou material feito especificamente para Django Livre. Na trilha sonora encontramos elementos da old school, isto é, nomes pomposos do passado, precursores de muita gente que brilhou em gerações posteriores, além do pop-rock, gênero dominante, acompanhado dos ritmos oriundos do jazz, funk, textura percussiva, trip hop, do rock indie, etc.

As seguintes faixas compõem o álbum: Winged; Django, de Luis Bacalov e Rocky Roberts; The Braying Mule, de Ennio Morricone; In That Case, Django, After You; Lo Chiamavano King (His Name is King), conduzida por Edda Dell’Orso; Freedom, de Anthony Hamilton e Elayna Boyton; Five – Thousand Dollar Nigga’s; La Corsa (Segunda Versão) demarca outra busca por Bacalov; Sneaky Schultz and Gunny Mouth Bitches; I Got a Name, de Jim Croce; I Giorni Dell’ra, de Riz Ortolani; 100 Black Coffins, de Rick Ross; Nicarágua, de Jerry Goldsmith, traz participação de Pat Metheny; Hild’s Hot Box; Sister Sara’s Theme e Ancora Qui, outra inclusão de Morricone, sendo a segunda acompanhada pela italiana Elisa Toffoli; Morricone, mais uma vez, em Un Monumento; Who Did That To You?, de John Legend; Too Old To Die Young, de Brother Dege; Stephen The Poker Player; Six Shots Two Guns e outros diálogos.

Em Django, a poderosa voz de Luis Bacalov, juntamente com Rocky Roberts, resgata a essência da música western, tomada por seus “tubos” pan-americanos, vocais expressivos, faixa do filme dos anos 1960 que de tão popular, teve gravações em japonês, grego, etc. No desenvolvimento de 100 Black Coffins, de Rick Ross, temos a mescla de western com rap, contribuição de Jamie Foxx nos vocais, acompanhados por “assobios western”. Morricone é acompanhado pela voz melodramática de Elisa Toffoli, cantora italiana que trabalha com gravações em inglês, distinta de seu cenário, colabora com toques de trip hop e rock indie. Anthony Hamilton e Elayna Boyton trazem a força do jazz para Freedom, outra faixa pontual e importante na trilha.

Ademais, a presença de Rick Ross, artista conhecido por suas melodias desalinhadas e onomatopeias, faz a trilha flertar com a brincadeira anacrônica do filme de época em diálogo com temas contemporâneos, e vice-versa. Popular por discutir questões inerentes ao tráfico de drogas e criminalidade, Ross é responsável por estabelecer a atmosfera “trap” para a trilha, sonoridade com conteúdo lírico agressivo, uso de sintetizadores e pratos, instrumentos da liga de metais, geralmente trabalhados com baquetas. Outro “rebelde” presente é James Brown, participação que adere valor ao conteúdo música de Django Livre.

A trilha, tal como as incursões anteriores, investe nos diálogos como parte das faixas do álbum, mixa estilos contrastantes e cria uma atmosfera única, desta vez, com algumas partes autorais, breves, mas diferenciais se comparado aos trabalhos anteriores. Mais próxima do filme que em seu processo de dissociação, a trilha sonora da saga do personagem de Jamie Foxx funciona mais dentro de sua história, numa dependência das imagens que não atrapalha a sua “contemplação”, mas não chega a ser memorável como as peças anteriores. A pavimentação do caminho para Os Oito Odiados trouxe uma virada mais leve, diferente da brusca mudança do material posterior, tema da crítica da trilha sonora do filme seguinte.

Django Unchained (Original Motion Picture Soundtrack)
Compositor: Various Artists
Gravadora: Universal Republic/Loma Vista
Ano: 2012
Estilo: Hip/Hop, Soul, Trilha Sonora

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.