Crítica | Era Uma Vez Um Deadpool

“Eu amo o trabalho da Marvel.

Nós somos Marvel.

Sim, você sabe, vocês são Marvel licenciada pela Fox.”

  • Confira a crítica de Deadpool 2 clicando aqui.

Uma das maiores sacadas cômicas envolvendo o “cinema natalino”, presente em inúmeros ranqueamentos por aí, reside no quase consenso de que algumas melhores obras envolvendo essa temática, com as cores, os cenários e a atmosfera própria da época, se opõem essencialmente aos clichês recorrentes desse sub-gênero imensamente classicista, nostálgico e até mesmo pueril, como, por exemplo, o erótico De Olhos Bem Fechados, o romance Carol e o clássico de ação Duro de Matar. A surpreendente “reimaginação” de Deadpool 2, anunciada sem qualquer pretensão, senão a arrecadação para uma campanha contra o câncer, segue o mesmo pretexto dos já citados clássicos natalinos a par de uma subversão das anuais festividades, em mais uma paródia metalinguística, como qualquer coisa que a franquia já aprontou anteriormente.

Com o lançamento do longa-metragem ocorrendo justamente “durante” o Natal, a intenção dos responsáveis por essa reprodução pontualmente modificada em comparação ao original aproxima-se absurdamente a da jocosidade acerca da conhecida atmosfera, no entanto, o verdadeiro motor dessa retomada do mesmíssimo filme encontra-se na referência imediata ao clássico A Princesa Prometida, comédia comandada por Rob Reiner. Aqui, Fred Savage, a criança que ouvia a história contada pelo seu avô no icônico filme de 1987, é sequestrado por Deadpool (Ryan Reynolds), sendo obrigado a passar pela mesma experiência passada, agora ouvindo uma narração da obra que o público já assistiu em meados desse ano, mas, agora, entrecortada pelas interações entre os personagens, que “somam” vinte minutos ao produto base, retirando, porém, o “encanto” de antes.

Deadpool nunca foi um personagem adulto, mas um personagem adolescente, para adolescentes, com piadas de adolescente. Era Uma Vez Um Deadpool remove qualquer violência explícita, linguagem obscena e conteúdo mais sexual do antecessor, porque a classificação indicativa é substancialmente diminuída. As piadas nem mais tão corajosas assim, sobre o universo de super-heróis, continuam divertidinhas, mas não seguram a barra necessária para justificar essa mudança de tom, que não se torna uma paródia natalina suficiente por si só. O que acontece com essa obra é que qualquer intenção do original em ser piegas enfim recorre a pieguice em seu estado mais sentimentalista, porque o contraste gráfico é retirado por propósitos outros que não preenchem o vazio com algo verdadeiramente inédito. Para as crianças, uma versão mutilada e frankenstein.

Os miúdos podem esperar, em contrapartida a uma experiência como essa, terem a idade suficiente para assistirem a Deadpool 2, ou não, porque os supostos impedimentos do longa-metragem, como o sangue gratuito – e não necessariamente errado por causa disso -, são justamente os atrativos do longa-metragem para essa idade em específico, extremamente interessada por uma rebeldia tão despropositada quanto a existente no cerne do coração do Mercenário Tagarela, um pouco ingênua até. Jovens Titãs Em Ação! Nos Cinemas termina sendo uma versão muito mais competente de Deadpool 2, agora para menores de idade, do que essa colcha de retalhos, que nem está com más intenções na verdade. As paródias de paródias não costumam dar muito certo – Era Uma Vez Um Deadpool é mais um exemplo dessa constante.

  • O filme contém uma cena pós-créditos muito tocante, que fala de uma inesquecível personalidade muito querida que nos deixou esse ano, Stan Lee.

Era Uma Vez Um Deadpool (Once Upon a Deadpool) – EUA, 2018
Direção: David Leitch
Roteiro: Rhett Reese, Pail Wernick, Ryan Reynolds
Elenco: Ryan Reynolds, Fred Savage, Josh Brolin, Morena Baccarin, Julian Dennison, Zazie Beetz, Shioli Kutsuna
Duração: 116 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.