Crítica | Fora de Controle (2002)

Em nosso cotidiano familiar, no ambiente de trabalho, nas relações sentimentais e em tantas outras esferas, os conflitos de interesse geram disputas de duas ordens: as saudáveis, mediadas pelo diálogo, recurso que permite aos diversos lados de uma história, a chegada numa conclusão satisfatória para todos, e os conflitos tóxicos, marcados pela busca de pontos de vista impostos de maneira que nem sempre deixam os demais envolvidos em posições confortáveis. Nessa dinâmica toda, há o abuso de poder como uma realidade que permite a alguns se tornaram os vencedores e a outros, a dolorosa e indesejada sensação de derrota. É nesta linha de pensamento que se desdobram os conflitos em Fora de Controle, dirigido por Roger Michell, cineasta guiado pelo roteiro escrito pela dupla formada por Michael Tolkin e Chap Taylor.

A trama se oferta como um drama sobre as celeumas entre duas pessoas diante de um supostamente banal incidente de trânsito, mas os problemas vão além. Acompanhamos, nesta jornada, o advogado Gavin Banck (Ben Affleck), em ritmo frenético para dar conta da resolução de um caso que envolve o seu emprego em Wall Street, um cargo na empresa de seu sogro, algo que lhe exige atenção redobrada e muito jogo de cintura. Em paralelo ao dia agitado do advogado temos Doyle Gipson (Samuel L. Jackson), um homem que pisa em ovos para evitar qualquer postura que o leve a ser reprovado pela ex-esposa e seus dois filhos, haja vista seu passado recente de alcoolismo em atual processo de abstinência.

Agitados pelas missões que regem o presente, em prováveis garantias para um futuro já bem próximo, os dois homens trafegam pela mesma via e seguem para o mesmo lugar. Enquanto um resolverá o caso judicial da empresa, o outro prestará esclarecimentos para conseguir a guarda dos filhos. Ambos estão com os ânimos exaltados e tudo fica ainda mais intenso quando colidem numa via movimentada. Gavin, o advogado bem-sucedido, é o principal responsável e para diminuir o impacto de sua ação, destaca um cheque em branco e entrega para Doyle. Este, por sua vez, no momento não se interessa por dinheiro, pois o foco é dar conta de vencer uma luta muito pessoal que tem se arrastado ao longo dos últimos meses de sua vida, algo que para o personagem, dinheiro nenhum será capaz de bancar.

Guiados pela música de David Arnold, delineadora das tensões expostas e subentendidas, a dupla não se entende bem, mas não chega ao embate físico. O advogado segue com sua pressa e sequer consegue escutar o pedido de carona de atendente Doyle. O resultado disso é a fabricação de uma bomba dramática prestes a explodir e transformar a vida de todos os envolvidos nesta história tensa, visualmente cuidadosa, haja vista o bom trabalho de Salvatore Totino na direção de fotografia, eficiente em sua captação de pânico, desespero e irritabilidade dos personagens que adentram numa verdadeira zona de guerra urbana. A edição didática de Christopher Tellefsen permite que sigamos com firmeza e coesão o trajeto da dupla protagonista desta quase-tragédia realista, numa exposição de detalhes rica e bem situacionista.

De volta ao pós-acidente, Gavin segue apressadamente para o tribunal e deixa Doyle para trás, ciente de que o cheque resolveu a sua vida. O amargurado pai em busca de solução para a história agoniante com a família perde o horário e vê as chances de reconquistar o seu lar desmoronarem. Mas, ironicamente, o destino prega algo para os dois homens acossados pelas questões impostas pelo sistema. Gavin perde o principal documento a ser apresentado no tribunal e Doyle descobrirá que era quem estava com o material do outro. Agora, Doyle pode ter perdido as suas vantagens, mas possui algo para alimentar a sua sede de justiça/retribuição pelo mal que lhe foi imposto pelo advogado que acreditava ser a sua causa, algo mais urgente que a do outro.

Diante do exposto, ambos serão testados constantemente. Fora de Controle revela as posturas de pessoas mergulhadas num clima de selvageria e barbárie. Ao longo de seus 98 minutos, a batalha envolve o pagamento a um hacker para destruir a vida do “concorrente” e a destruição dos mecanismos do carro do “antagonista” para deixa-lo ainda mais derrocado. Despidos de humanidade e em profunda ação destrutiva, eles vão trafegar por uma via infernal que mudará para sempre a história de todos os envolvidos, numa jornada que, adianto, não estabelece a dor para a eternidade. Os nós ganham desenlace no desfecho e as coisas ganham certo ajuste para que tais indivíduos possam continuar as suas respectivas caminhadas com algum aprendizado diante de tudo que lhe aconteceu neste verdadeiro “dia de cão”.

Mergulhados nas considerações que na legislação brasileira, envolveria o artigo 305 do Código de Trânsito, trecho que versa sobre a fuga do local de acidente, tendo em vista se isentar das responsabilidades penais e civis, os personagens ferem diversos tópicos sobre ética nas relações humanas, além de, salvaguardas as devidas proporções, se apresentarem como figuras mergulhadas num esquema hobbesiano de vida que media as relações dos indivíduos em sociedade de acordo com suas relevâncias mercadológicas. Gavin, em especial, é basicamente um ser retroalimentado por este sistema em sua dinâmica de trabalho com o sogro Stephen (Sidney Pollack), catalisador das suas ações que precisam ter atenção e manipulação calculada em cada passo a ser dado nesta escalada social agressiva, o que o impede, momentaneamente, de considerar quem atravessa o seu caminho, neste caso, Doyle e todas as suas psicossociais necessidades dramáticas.

Fora de Controle (Changing Lanes) — EUA, 2002
Direção: Roger Michell
Roteiro: Chap Taylor, Michael Tolkin
Elenco: Amanda Peet, Ben Affleck, Bradley Cooper, Deen Badarou, Jennifer Dundas, Myriam Blanckaert, Samuel L. Jackson, Toni Collette, William Hurt
Duração: 99 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.