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Crítica | Nadando Até o Mar se Tornar Azul

por Luiz Santiago
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Há um ramo no estudo da História chamado Micro-história, que dedica-se a estudar os pormenores de um grande contexto (a ideia mais clara que se popularizou sobre ela é o famoso “grande zoom numa parte de uma fotografia“), normalmente atendo-se a fontes particulares, a indivíduos que, se não fosse esse olhar, passariam anônimos pelo tempo e a eventos que se inter-relacionam, constantemente emprestando conhecimentos e esforços de outras áreas das humanidades. Como gênero, o documentário é, em muitos casos, um exemplo de exercício Micro-histórico, e o diretor Jia Zhangke não é estranho a esse exercício, basta lembrarmos do caráter de obras como Dong (2006), Inútil (2007) e Memórias de Xangai (2010) para ter certeza disso.

Em Nadando Até o Mar se Tornar Azul o diretor escolhe a literatura para montar um quadro de memórias e vivências da China entre 1949 e 2019, tendo como impulso um evento literário que ocorreu na província de Shanxi, onde nasceu o escritor Ma Feng (1922 – 2004), em cujas memórias o diretor também se baseia para costurar a narrativa. A câmera que dá vida aos relatos faz uma curiosa mudança no foco de atenção do espectador através de planos abertos (com belos enquadramentos) e fechados para cada entrevistado, aproximando-se e distanciando-se em pontos específicos dos relatos, criando uma dinâmica simples, mas muito eficiente em cada bloco, algo que é ressaltado pela divisão do filme em capítulos.

Como se trata de uma obra que olha para a literatura, essa divisão é muitíssimo adequada e nos indica temas abordados pelos escritores Jia Pingwa (1952), Yu Hua (1960) e Liang Hong (1973), primeiro a partir de palavras-chave e depois com trechos de poemas e prosa lidos especialmente para aquele momento. Palavras como amor, comida, jornadas, doença, som, viver, mãe, pai, irmã, filho e colheita marcam diferentes fases dos depoimentos, assim como os termos “voltando para casa” e “o velho e o novo“. O que o diretor faz é usar essas vivências de cada escritor como uma semente para algo maravilhoso no fim, algo envolvendo cor, movimento e poética da esperança, do seguir em frente.

O longa nos traz uma boa dose de nostalgia e nos convida a pensar sobre o melhor e o pior da vida. Cada escritor assume o arquétipo de uma personalidade humana, uma geração que viveu uma diferente transformação social, que teve um diferente impacto familiar em suas vidas, que foi privada ou provida de algo específico daquela década. A história social pincela as histórias individuais e esse grande corpo recebe uma terceira e quarta representações, uma por parte de cada artista entrevistado e outra a partir do recorte que Jia Zhangke faz na tela. No fim, esse ato de nadar em busca do azul do mar é o destino de todas as gerações, de todos nós. Uma constante busca por algo que não sabemos se conseguiremos. E é justamente essa incerteza que nos faz ver a vida com outros olhos. O processo continua sendo a parte mais importante de tudo. Não o fim.

Nadando Até o Mar se Tornar Azul (Yi zhi you dao hai shui bian lan / Swimming Out Till the Sea Turns Blue) — China, 2020
Direção: Jia Zhangke
Roteiro: Jia Zhangke, Jiahuan Wan
Elenco: Huifang Duan, Liang Hong, Yu Hua, Pingwa Jia
Duração: 102 min.

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