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Crítica | O Aniversário de Asterix e Obelix – O Livro de Ouro

por Ritter Fan
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Deveria ser muito fácil criar um álbum comemorativo dos 50 anos de Asterix e Obelix. A homenagem poderia vir na forma de tesouros escondidos e não publicados que certamente se acumularam ao longo das décadas, incluindo esboços, rascunhos e ideias de histórias ou por meio de artistas variados de todo o mundo criando curtas histórias com os personagens, dando voz variada a a eles. Até mesmo uma nova história completa comemorativa por Albert Uderzo seria jogo e provavelmente muito bem-vinda depois do mal recebido O Dia em que o Céu Caiu, de 2007. Diria que até um livro inteiramente em prosa funcionaria…

Mas não. Uderzo decidiu agarrar-se a um conceito fluido que acabou resultando em um álbum Frankenstein que não é nem composto de contos separados como foi o excelente Asterix e a Volta às Aulas, nem de uma história só. O que ele fez foi um apanhado de ideias regurgitadas e reaproveitadas de álbuns passados, além de menções aos filmes e ao Parc Asterix (a Disneyland temática perto de Paris), em uma sucessão cansativa de personagens falando sobre como presenteariam Asterix e Obelix em seu aniversário, com direito a repetitivas artes que colocam os mais variados personagens como se tivessem sido pintados por artistas famosos em uma história desconexa que, muito longe de marcar a importante data, consegue é torturar o leitor.

E não se enganem aqueles que lerem, na capa, que os textos são de autoria tanto de René Goscinny e Albert Uderzo como realmente foi o caso do já citado Asterix e a Volta às Aulas. Isso é balela para enganar trouxas, o que torna ainda mais enfurecedora a experiência de ler O Aniversário de Asterix e Obelix – O Livro de Ouro. Para justificar essa descrição enganosa, Uderzo usa citações à páginas de álbuns escritas originalmente por seu colega Goscinny antes de falecer, quase que como notas de rodapé para ilustrar esse seu passeio canhestro e enganador sobre a “carreira” dos ilustres personagens que ele mesmo co-criou em 1959. Portanto, considerem o 34º álbum da série (confesso que desgosto profundamente de esse álbum ser oficialmente considerado como parte da série original) como criação exclusiva de Albert Uderzo, apoiado por Anne Goscinny, filha de René, que escreve um dos prefácios, e em meio a uma feia briga familiar com sua própria filha Sylvie sobre o futuro da propriedade.

Para não dizer que nada se aproveita na edição, Uderzo começa com uma ótima ideia ao situar o início da história no ano I d.C., ou seja, 50 anos depois dos eventos das histórias anteriores, com os personagens já velhinhos (e, lógico, Veteranix ainda vivo!), com filhos adultos em alguns casos e netos como no caso de Asterix. Mas Uderzo logo abandona o conceito e reverte para o tempo normal, deixando de aproveitar o incrível potencial que teria sido revisitar esse universo com tamanho avanço no tempo, explorando eventuais esposas de Asterix e Obelix, seus filhos e netos, além do próprio Império Romano, agora realmente império, sem Júlio César e sob o comando do primeiro imperador, Augusto (filho adotivo de César), e em plena Pax Romana.

Infelizmente, porém, no lugar de seguir assim, o que seria original e realmente desafiador, Uderzo retrocede para o caminho mais fácil e, mesmo assim, mete os pés pelas mãos resultando no já citado álbum Frankenstein que só vale mesmo por sua arte e por alguns momentos criativos aqui e ali, como ao imaginar as famílias de Asterix e Obelix e ao usar esboços intercalados com desenhos finais para dar a impressão de uma produção cinematográfica em quadrinhos. No entanto, isso é pouco demais para sustentar a leitura das 56 páginas, tão pouco que li o álbum em duas sentadas espaçadas por dois dias, algo absolutamente inédito para mim no que se refere a qualquer coisa relacionada com Asterix.

O Aniversário de Asterix e Obelix – O Livro de Ouro pode não ser tecnicamente o pior álbum escrito por Uderzo, mas, se inserirmos na equação o potencial que ele tinha com a facilidade em se criar algo comemorativo de real valor para o leitor, ele acaba se tornando o maior desapontamento de todos os 34 capítulos da saga do personagem. Teria sido muito melhor ter deixado os 50 anos desse fantástico universo passar em branco…

O Aniversário de Asterix e Obelix – O Livro de Ouro (L’Anniversaire d’Astérix et Obélix – Le Livre d’or – França, 2009)
Roteiro: Albert Uderzo (baseado em criação de René Goscinny e Albert Uderzo)
Arte: Albert Uderzo
Editora original: Les Éditions Albert René
Editora no Brasil: Editora Record
Páginas: 56

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