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Crítica | Os Profissionais do Sadismo (Femina Ridens)

por Rafael Lima
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A guerra dos sexos parece ser algo inevitável, não só por nossa natureza animal, mas pelos próprios meandros de nossa cultura, que muito provavelmente mais acirram do que aliviam essas tensões. É focando nessa tensão existente entre o masculino e o feminino, nas expectativas que um lado mantém em relação ao outro e na disputa por poder e superioridade moral, que se desenvolve o filme Os Profissionais do Sadismo, de Piero Schivazappa.

Na trama, o Dr. Sayer (Philippe Leroy), é um rico filantropo que secretamente se dedica a jogos sadomasoquistas com prostitutas nos finais de semana. Ao conhecer Maria (Dagmar Lassander), uma jornalista de personalidade forte, Sayer resolve levar as suas fantasias um passo além e sequestra a moça, levando-a para a sua casa de campo onde pretende transformá-la em uma escrava submissa.

Apesar do que o título apelativo e a premissa possam sugerir, Os Profissionais do Sadismo não é um sexplotation gratuito, sendo de fato até bem brando nesse sentido comparado a outras produções deste período. De fato, o roteiro escrito a seis mãos pelo diretor, Paolo Levi e Giuseppe Zaccariello praticamente zomba do sexplotation ao assumir de forma quase farsesca a natureza misógina do subgênero, ao colocar o protagonista justificando o sequestro como uma reação à existência de uma conspiração feminista que visa tornar o homem irrelevante socialmente.

Durante a sua metade inicial, a história acompanha as humilhações físicas e mentais a que Sayer submete a sua prisioneira, como forçá-la a simular sexo com um boneco de borracha, obrigá-la a secá-lo após o banho, derrubá-la com uma mangueira de incêndio, entre outras coisas. Sentimos certo estranhamento pela rapidez com que Maria parece se submeter aos caprichos do protagonista, tendo em vista a forma como ela foi apresentada, mas esse estranhamento é claramente pretendido pelo texto, o que se torna claro a partir da segunda metade da obra, quando os papéis assumidos pelo casal principal começam a se alterar.

A teatralidade é um aspecto muito importante de Os Profissionais do Sadismo, o que se reflete em toda a narrativa. Schivazappa dirige os seus atores e posiciona a sua câmera de forma a reforçar este aspecto teatral, já que os dois personagens principais estão atuando um para o outro. Leroy inicialmente vive Sayer como um homem frio e controlado; combinando com a forma como o diretor retrata o personagem sempre em leve contra-plongée, vide a cena em que o personagem pula da banheira para uma barra, exibindo uma virilidade que é só aparente.

Essa condução da direção torna-se ainda mais clara quando observamos o desempenho de Lassander como Maria. A jornalista nos é apresentada como o clichê da mulher autossuficiente e intelectual; vestindo roupas comportadas e um par de óculos. Quando Maria é sequestrada por Sayer, obviamente o homem quer sexualizá-la, o que é acompanhado pela decupagem, que passa a explorar o corpo da personagem de forma mais erótica (mas nunca vulgar, o que é uma vitória tendo em vista a proposta), mas a própria Maria se coloca rapidamente na posição de submissa, resistindo apenas o necessário, em um trabalho digo de nota de Lassander.

A partir da segunda metade da obra, quando Maria passa a demonstrar interesse em Sayer, o clima do filme muda completamente. A tensão e o desconforto do Sexplotation são substituídos por uma atmosfera de romance açucarado, enquanto Sayer passa a revelar as suas inseguranças para a mulher que sequestrou, em uma desconstrução do personagem carrasco e misógino que estávamos acompanhando. A relação de dominação se inverte de forma sutil, enquanto a idealização da virilidade dominante dá lugar à idealização romântica e Sayer troca o papel do sequestrador assassino pelo do amante apaixonado. A reviravolta que fecha o filme abre espaço para múltiplas interpretações, e embora flerte um pouco com o absurdo, está plenamente colocada dentro da proposta da narrativa.

A estética do filme abraça completamente a teatralidade. A casa de campo onde Maria é mantida prisioneira possui um visual retrofuturista; com cenários angulosos e a predominância do branco. A cenografia de Francesco Cuppini, de fato, é vital, praticamente tornando-se uma extensão dos atores em determinadas cenas, como a passagem onde a personagem de Lassander seduz Sayer com uma dança sensual. O trabalho da montagem também se destaca, através de uma edição que consegue ser criativa, mas sem distrair o espectador. Para quem gosta de simbolismos, Os Profissionais Do Sadismo é um prato cheio, pois Schivazappa enche o filme deles, dos mais sutis aos mais óbvios. Essa escolha gera passagens muito divertidas, como aquela em que um personagem praticamente adentra uma vagina trituradora, mas tantos símbolos na tela começam a cansar a partir de certo ponto.

Os Profissionais Do Sadismo é uma experiência cinematográfica instigante, e um olhar ousado para as tensões entre o masculino e o feminino, que talvez seja perdida se o espectador não conseguir olhar além da embalagem de sexplotation que o filme ostenta. Com atuações fortes do casal principal e uma estética cheia de estilo, o filme de Piero Schivazappa discute a estupidez da masculinidade tóxica e da misoginia, mas também parece temer a emasculação provocada pela idealização na eterna tensão entre o masculino e o feminino, em uma disputa pautada pelo teatral, onde aquele que é completamente absorvido pelo papel que desempenha acaba dominado.

Os Profissionais Do Sadismo (Femina Ridens) – Itália, 1969
Direção: Piero Schivazappa
Roteiro: Paolo Levi, Piero Schivazappa, Giuseppe Zaccariello
Elenco: Philippe Leroy, Dagmar Lassander, Lorenza Guerrieri, Varo Soleri, Maria Cumani Quasimodo, Mirella Pamphilli
Duração: 86 min.

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