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Crítica | Sexo e as Negas – A Série Completa

por Leonardo Campos
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Quatro mulheres. Zulma dos Santos (Karin Hills), Matilde da Silva (Corina Sabbas), Soraia Souza (Maria Bia) e Lia (Lilian Valeska), camareira, desempregada, cozinheira e recepcionista, respectivamente, jovens mulheres que lutam diariamente para viver numa região pobre do Rio de Janeiro e conseguir dar conta da família, dos estudos, dos projetos, etc. Esse é o mote de Sexo e as Negas. Defendida por uns e execrada por outros. O que houve para que a sociedade ficasse tão intrigada com os 13 episódios de Sexo e as Negas? Série polemica criada por Miguel Falabella, exibida em 2014 e alvo de tantos protestos, o material televisivo contava o cotidiano de quatro amigas que moram na Cidade Alta, região suburbana da capital do Rio de Janeiro. Narrada por Jesuína (Claudia Jimenez), a proprietária de um badalado bar local, ponto de encontro de todos os personagens, a série foi dirigida por Hsu Chien, Cininha de Paula e Charles Daves, numa mescla de comédia com elementos musicais, presentes no desfecho de cada um dos episódios. Como entretenimento, não há do que reclamar.

A produção flerta claramente com os padrões da inesquecível estrutura estadunidense de Sex and The City, mas com construção exclusivamente brasileira, focada em dilemas e questões culturais locais. O esforço da produção, no entanto, não foi suficiente para evitar que a série passasse ilesa pela malha fina da militância feminista negra, indignada com a representação da mulher perpetrada pela série. O detector de racismo institucionalizado logo foi acionado e a nossa cultura do cancelamento logo tratou de colocar Sexo e as Negas em julgamento público, nas redes sociais e na mídia jornalística hegemônica. A pergunta, à priori, é a seguinte: há alguma fagulha de coesão e coerência neste movimento contrário ao produto televisivo ou foi tudo apenas excesso de militância com altas doses de interpretação equivocada? Não precisa ser mulher negra pra compreender que no processo de construção do texto, Miguel Falabella pecou em diversos aspectos, em especial, no próprio título da série, um nome que evoca celeumas ainda pulsantes da nossa história de colonização, cultura do estupro, dominação branca e outros problemas de um país que insiste em brindar o falso mito da democracia racial.

Não podemos afirmar intencionalidade na construção de um produto propositadamente racista, mas temos material suficiente ao longo dos 30 minutos de cada episódio, para afirmar que Sexo e as Negas, divertido, versátil e bem-conduzido esteticamente, também é uma perigosa narrativa que utiliza estereótipos facilitadores para sublimar por meio do humor, situações de pura violência contra as mulheres negras, alvo de discriminação dupla na construção das relações sociais tecidas na malha racista da sociedade brasileira. Contudo, temos também que levar em consideração que a cultura do cancelamento às vezes impede que possamos compreender melhor determinados fenômenos. Defendo a não destituição de valores da série em prol de acusações com apenas um ponto de vista. Acredito que todos os lados precisam de leitura, análise e interpretação. Há, também, em meio aos arquétipos claramente colocados para maior identificação do público, alguns debates sobre oportunidades e posições ocupadas por homens e mulheres que sofrem racismo cotidianamente.

Se observado atentamente, há diversas passagens com altas doses de ironia, longe de ser uma ode ao retrato da mulher como produto exclusivo para sexo, mas como já dito, num país com histórico vergonhoso da escravidão e de situações de ódio racial contemporâneas, o jogo de palavras do título e a construção da mulher negra altiva da série impediu que as pessoas assistissem ao material sem fazer vinculações equivocadas e construírem novos discursos perigosos. Diante do exposto, não há outro caminho: Sexo e as Negas é uma série de contextualmente problemática. Na era das redes sociais e da rejeição de produtos na forte cultura do cancelamento, os realizadores deveriam ter sido mais cuidadosos na elaboração do material que possuía um gigantesco potencial para discussões pertinentes sobre o papel da mulher negra na construção cotidiana de sua identidade. Infelizmente não deu certo. Dito isto, farei uma breve análise do material estético e dramático, afinal, a série não é apenas contexto.

Na direção de fotografia, José Roberto Eliezer permite que a iluminação de seu setor reforce o caráter carnavalesco da série, festivo e esfuziante em suas cores fortes, intensas, mesmo nos momentos menos alegres na trajetória deste grupo de personagens que lutam diariamente para conquistar espaços negados por uma sociedade minada pelo racismo cotidianamente. Um assunto que para alguns é chatice e militância exagerada, até mesmo para algumas pessoas negras alienadas e iludidas pelo discurso do colonizador veemente em suas entranhas. Os figurinos assinados por Sonia Soares são eficientes no processo de caracterização de todos os personagens, setor que consegue delinear as três dimensões básicas do drama (física, psicológica e social) por meio dos trajes. Ademais, por meio do riso, o criador da série tentou flertar ironicamente com diversas questões não apenas raciais, mas da busca de uma massa ainda presente que pretende estandardizar o lugar da mulher, supostamente em busca do casamento e de um homem que a salve.

A militância incendiária impediu que a produção se desdobrasse em mais episódios de um provável segundo ano, numa demonstração do potencial alcançado pelos movimentos que numa dinâmica microfísica, consegue destituir discursos institucionalizados, mesmo que isso não garanta a extinção dessas questões que parecem os antagonistas de filmes de terror, isto é, estão sempre de volta. Caos, no Brasil, terra do mito da democracia racial, um caos!

Sexo e as Negas – A Série Completa (Brasil, 2014)
Criador: Miguel Falabella
Direção: Aluízio Augusto
Roteiro: Miguel Falabella
Elenco: Alessandra Maestrini, Claudia Gimenez, Duda Costa, Cosme dos Santos, Corina Sabbas, Izak Dahora, Aline Dias, Frank Borges, Karin Hils, Karolina Albertassi, Marcos Breda, Lilian Valeska, Maria Gladys, Maria Bia, Rafael Machado
Duração: 13 episódios de 30 minutos

 

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