Crítica | A Guerra dos Sexos

A igualdade entre os gêneros ainda está, infelizmente, longe de se tornar realidade – estamos em um mundo no qual já foi mais que provado que mulheres recebem salários menores que os homens (variando de 7 a 30% menor aproximadamente, dependendo da área), isso quando não são descartadas por afirmações retrógradas como a de que a mulher tem a produtividade reduzida, seja pela gravidez ou por pura e simples misoginia mesmo. Mesmo com tanto caminho a ser percorrido a fim de chegarmos em um estado realmente evoluído como sociedade, não podemos deixar de reconhecer os esforços de mulheres do passado que lutaram pela tão almejada igualdade – Billie Jean King foi uma dessas, que recebe seu merecido destaque em A Guerra dos Sexos.

A trama nos leva de volta à 1973, quando Billie Jean (Emma Stone) campeã mundial de tênis recusou a participar do próximo torneio caso não a premiação monetária não fosse igual ao torneio masculino. Com a recusa dos organizadores, King e outras tenistas profissionais decidem fundar a Associação de Tênis Feminino, iniciando seu próprio campeonato, patrocinado pelo Virginia Slims. Aproveitando essa ocasião e a própria vitória de King no prévio torneio mundial, Bobby Riggs (Steve Carell), ex-campeão e viciado em apostas, a desafia para uma partida, que ficou conhecida como Battle of the Sexes (batalha dos sexos em tradução livre).

Com muito em jogo, tendo Riggs como o principal adversário de King, é importante observar como ele apenas representa a visão machista dos organizadores do Torneio Mundial, como Jack Kramer (Bill Pullman). Em essência, Riggs apenas está ali para ganhar dinheiro, aproveitando toda a comoção para realizar mais uma de suas muitas apostas, além de sair, mesmo que brevemente, daquela vida de aposentado. O real antagonista é Kramer, cuja linha de raciocínio efetivamente prejudica as tenistas, que não somente recebem menos que os homens, como são menos reconhecidas, tratadas como se fossem de estirpe inferior. Todo esse conflito é organicamente desenvolvido pelo roteiro, ao ponto que, no clímax, estamos vibrando junto com a torcida, ansiando pela vitória de King, por mais que a História já tenha sido escrita.

O que, de imediato, mais nos chama a atenção em A Guerra dos Sexos é como todo o seu visual é capaz de nos transportar com maestria à década de setenta. Os figurinos e penteados realmente transformam os atores, a tal ponto que Emma Stone efetivamente se transforma em Billie Jean, aspecto que, combinado com sua dedicada atuação, nos faz esquecer que há uma atriz por trás daquela personagem. O mesmo vale para Steve Carell, que já se destacara em outros trabalhos mais dramáticos, além de viver a alma de The Office há alguns anos atrás. Somente por essa força do elenco principal, já somos mais do que imersos nessa narrativa.

A fotografia em tons de sépia, de Linus Sandgren (La La LandJoyTrapaça), contribui mais ainda para essa viagem no tempo, como se assistíssemos uma velha transmissão da época (ainda que os televisores tivessem sua imagem em preto e branco). Aliás, é importante notar como a paleta de cores favorece os tons amarelados, muito presentes nos figurinos e locações, ponto que nos remete a um dos trabalhos anteriores dos diretores Jonathan Dayton e Valerie Faris, Pequena Miss Sunshine e que muito contribui para essa composição da imagem, não deixando dúvidas sobre a década na qual a obra se passa.

O único ponto que soa um tanto quanto fora da curva é o romance entre a protagonista e Marilyn (Andrea Riseborough), que soa mais como adendo do que efetivamente parte da trama principal. Evidente que a importância da discussão sobre sexualidade é mais do que bem-vinda e atua como prova de que há muito caminho pela frente em termos de direitos iguais para todos, mas a relação entre as duas poderia ser melhor encaixada – o risco de serem descobertas sempre se faz presente, garantindo uma boa dose de tensão em determinados momentos, mas nada que cause grande impacto na narrativa geral. Por outro lado, tal relacionamento funciona a fim de evidenciar a bela postura de Larry King (Austin Stowell) perante tudo isso.

Dessa forma, mesmo com pontuais deslizes, que não prejudicam muito nosso aproveitamento geral da obra, A Guerra dos Sexos prova ser um longa-metragem extremamente pertinente, utilizando uma “simples” partida de tênis como símbolo de algo muito maior. Com ótimas atuações, tanto de Stone quanto de Carell e com visual consideravelmente imersivo, a obra evidencia a importância da luta pelos direitos iguais e, por mais que ainda tenhamos uma longa jornada de evolução como sociedade pela frente, é gratificante enxergar como a coragem de algumas pessoas foi capaz de colocar todo o mundo em movimento.

A Guerra dos Sexos (Battle of the Sexes) — Reino Unido/ EUA, 2017
Direção:
 Jonathan Dayton, Valerie Faris
Roteiro: Simon Beaufoy
Elenco: Emma Stone, Steve Carell, Andrea Riseborough, Natalie Morales, Sarah Silverman, Bill Pullman, Alan Cumming,  Elisabeth Shue, Eric Christian Olsen, Fred Armisen, Jessica McNamee
Duração: 121 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.