Crítica | Alien 3

alien 3

estrelas 2

Obs: Há spoilers. Clique, aqui, para ler todo nosso material da franquia Alien.

A maré de azar de Ripley (Sigourney Weaver) não acaba com o final de Aliens, o Resgate. Longe disso, aliás. A segunda continuação da visceral obra de Ridley Scott, dessa vez dirigida pelo então principiante David Fincher, revela, logo nos primeiros segundos de projeção, que a Rainha Alien teve tempo de colocar dois ovos a bordo da nave militar Sulaco e que o nascimento dos facehuggers criou problemas nos sistemas, fazendo com que uma cápsula de escape, com os três sobreviventes humanos e os restos de Bishop (Lance Henriksen) fosse ejetada.

Tudo acontece na órbita do planeta prisão Fiorina “Fury” 161 e a cápsula, ao cair, mata a menina Newt, o soldado Hicks e destrói (mais ainda) o androide. Só Ripley sobrevive, juntamente com um novo tipo de alien que nasce do cachorro desavisado mais próximo. O monstro, então, passa a caçar a população da prisão – que é toda masculina, pois é um estabelecimento para portadores de cromossomos “duplo Y” – e Ripley tem que enfrentar mais essa ameaça, além de tentar sobreviver aos próprios prisioneiros e às condições adversas do local.

O roteiro, escrito por Walter Hill, David Giler e Larry Ferguson, tenta combinar elementos do primeiro e do segundo filmes, mas não consegue chegar próximo nem de um nem de outro. É uma espécie de colcha de retalhos de ideias que foram convertidas em uma fita que, infelizmente, deixa às escâncaras essas fragilidades.

Na verdade, a produção de Alien³ (Alien ao cubo?) foi muito conturbada, ao ponto de Fincher – então tendo em seu currículo apenas anúncios de TV, videoclipes e a direção da filmagem do show de Rick Springfield – ter sido contratado com a fotografia principal já iniciada por outros diretores e dele próprio ter sido defenestrado na pós-produção. Tamanhos foram os problemas que é com surpresa que se constata que esse grande diretor não abandonou o sistema de Hollywood, vindo a criar excelentes obras nos anos seguintes.

De toda forma, com a intromissão da Fox, a montagem final do filme não representa exatamente a visão do diretor, ainda que, dificilmente, Fincher pudesse fazer uma obra realmente muito boa com o material que tinha em mãos. Assim, temos que nos contentar com o que foi apresentado.

Não que o filme seja imprestável. Ele até funciona como um divertimento rápido. No entanto, ele exige um grau exagerado da chamada suspensão da descrença, ou seja, daquela ferramenta necessária para que os espectadores efetivamente entrem na história sendo contada, por mais fantasiosa que possa ser. É uma espécie de lógica interna que permite, por exemplo, que, nos primeiros dois filmes, nós acreditemos que há monstros de verdade e que eles gostam de matar humanos. O grande problema da suspensão da descrença é que, quando o termo foi criado (no século XIX), era obrigação do escritor chegar até lá. Agora, parte-se da premissa que é o espectador que tem que se virar para suspender sua descrença, independente da quantidade de absurdos que aparecem na tela.

Vamos aos exemplos. Os roteiristas, em Alien³, nos pedem que acreditemos que a Rainha Alien teve tempo de colocar os ovos na Sulaco, que desses ovos nasceram os facehuggers, sendo um deles um super facehugger (cuja prole é outra rainha), que os bichos fazem bagunça suficiente na nave para fazer com que ela ejete a cápsula de fuga, que os facehuggers vão para dentro da cápsula de fuga (inteligentes, não?), que, no vasto espaço sideral, a nave está coincidentemente passando por um planeta na hora do problema, que a cápsula de fuga mata todos menos Ripley e que ela cai em local próximo de onde outros humanos estão, de forma que ela possa ser resgatada. Tem mais, mas creio que já deu para entender como o roteiro nem tenta criar uma narrativa com um mínimo de coerência. Fica claro que ele foi montado a partir de uma reunião ao redor de uma mesa, provavelmente regada com bastante comida, bebida e charutos, em que os supostos roteiristas ficavam jogando ideias para o ar e um estagiário as capturava em um bloco de papel, costurando ali mesmo a história. Não existe outra conclusão possível.

Mas, ultrapassada – ou não – a questão do roteiro, é forçoso concluir que o filme não é um fracasso total. Fincher consegue imprimir uma atmosfera deprimente e desesperante em sua obra, com cores mudas ou com filtro em sépia, além de sets que tentam emular o interior da nave Nostromo (de certa forma, a atmosfera criada seria repetida, guardadas as devidas proporções, em Seven, seu filme seguinte). Não é de fácil digestão, mas, como era esse seu objetivo, ele o alcança facilmente. Aliás, o pesado tom finalista de Alien³ certamente afastará os que não são fãs da série e deixarão os fãs com um gosto estranho na boca.

Nem mesmo a nova versão do alienígena funciona bem e olha que o próprio H.R. Giger envolveu-se, mesmo que à distância, nessa recriação. Com exceção do momento em que ele perigosamente se aproxima de Ripley, o restante parece corrido, mal acabado. Houve pouco uso de computação gráfica, ainda em seu início, mas usado de forma canhestra e atabalhoada. Mesmo os efeitos práticas, tão sensacionais nos dois filmes anteriores, deixam muito a desejar no terceiro filme, realmente mostrando o descaso da produtora com sua franquia.

Alien³ desaponta e definitivamente não é uma continuação digna do legado deixado por Ridley Scott e James Cameron. Teria sido melhor aposentar a franquia.

Assembly Cut (2003)

estrelas 2,5

Tão famosa é a confusão de bastidores que impediu que Alien³ tivesse alguma chance de repetir o sucesso crítico dos filmes anteriores que ela é objeto de um documentário que a própria Fox produziu e inseriu como extra em caixas de DVDs e Blu-Rays contendo os quatro filmes. David Fincher, como mencionei mais acima, entrou no projeto literalmente com o trem em andamento, com a fotografia principal já iniciada. Mas não é para menos, pois, desde o sucesso de Aliens, O Resgate, a Brandywine Productions começou a intensamente trabalhar em uma nova continuação, primeiro com a elaboração de um tratamento por Walter Hill, David Giler e Gordon Carroll, tendo Hicks (o personagem de Michael Biehn) promovido a protagonista. O próprio Ridley Scott foi procurado para dirigir, mas ele tinha uma agenda cheia na época e teve que negar.

A partir daí, esse tratamento foi levado para William Gibson que trabalhou para entregar um roteiro feito à toque de caixa, por causa da vindoura greve dos roteiristas. O resultado foi um roteiro que até hoje é considerado bom. Mas as circunstâncias – especialmente o envolvimento da Fox – acabaram levando à saída de Gibson e à entrada de Eric Red, com uma história completamente diferente da que teria Hicks como protagonista. David Twohy foi o roteirista seguinte a dar suas ideias, até que o presidente da Fox bateu o martelo, dizendo que queria Ripley de volta. Tudo, então, foi para a estaca zero.

Entra Vincent Ward que, apesar de nunca ter demonstrado efetivo interesse em dirigir uma continuação, trabalhou fortemente no conceito que acabaria resultando em Alien³ se o filme fosse bom. É que o roteiro é festejado como sendo um dos “grandes filmes sci-fi nunca feitos”. Mas todo o conceito – o planeta monastério de Ward transformou-se em planeta prisão e por aí vai – continua lá. Mas, então, Hill e Giler mexeram novamente no roteiro, às vésperas da produção começar e alteraram aspectos cruciais, notadamente no conceito visual de Ward, o que levou o filme a ter seu início filmado sem roteiro pronto e com Ward, que seria o diretor, fora do projeto.

Fincher caiu de paraquedas em sua primeira grande produção e, por isso, sem que sua voz fosse ouvida. O resultado foi Alien³, mas a controvérsia, vista em documentário, também gerou interesse pela chamada “visão de Fincher” pelo filme, isso, claro, depois de Fincher ter se estabelecido como o grande diretor que é. Assim, o chamado Assembly Cut foi produzido e divulgado, além de inserido na caixa de DVD e Blu-Ray chamada Quadrilogia Alien, lançada originalmente em 2003. Mas David Fincher se recusou a voltar ao projeto, deixando essa montagem inteiramente nas mãos da Fox.

O resultado é um filme com 155 minutos de duração (contra 114 da versão do cinema), montado por David Crowther baseado na famosa Versão Workprint de David Fincher que fora rejeitada pela Fox. São 25 minutos de cenas inéditas reinseridas na narrativa que, em linhas gerais, aprofundam a caracterização de diversos personagens, além de apresentar um começo diferente e a gestação do monstro se dar em uma vaca (ou boi ou touro, sei lá).

No lugar de falar das diversas pequenas diferenças, o que é importante frisar é que essa versão faz com que a sequência em que os prisioneiros e Ripley tentam capturar o alien funcione. Ele é efetivamente preso e só é libertado mais tarde, em vista da loucura de Golic. Isso permite que aspectos religiosos sejam mais bem trabalhados, que discussões mais inteligentes sejam exploradas, abordando assuntos como fé e esperança. Além disso, na famosa sequência final, não vemos o alien sair do peito de Ripley, que cai de forma muito mais elegante e significativa na fornalha.

Apesar da Assembly Cut claramente não ser pior que a versão do cinema, considero difícil afirmar, como alguns fazem de maneira bastante entusiástica, que ela é muito melhor do que o que foi lançado. As duas versões sofrem do mesmo problema: o descaso e a confusão da produção, além das várias mãos mexendo, no último segundo, em absolutamente tudo. Os efeitos de ambas são fracos. No entanto, talvez a maior vantagem da Assembly Cut seja algo duplamente filosófico: em primeiro lugar, queiramos ou não, gostemos ou não, é a visão mais próxima da de David Fincher que teremos; em segundo lugar, ela permite a literal abordagem de assuntos interessantes que aprofundam nosso interesse pelos personagens, com um final ainda mais definitivo do que o que vemos na versão de cinema (esqueçamos, por um momento, claro, Alien – A Ressurreição).

*Crítica originalmente publicada em 13 de junho de 2012 (atualizada e corrigida).

Alien³ (Idem, Estados Unidos, 1992/2003)
Direção: David Fincher
Roteiro: Walter Hill, David Giler e Larry Ferguson
Elenco: Sigourney Weaver, Charles S. Dutton, Charles Dance, Paul McGann, Brian Glover, Ralph Brown, Danny Webb, Christopher John Fields, Holt McCallany, Lance Henriksen
Duração:  114 min. (versão de cinema), 155 minutos (Assembly Cut)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.