Crítica | Capitão América: Guerra Civil (Com Spoilers)

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estrelas 3

Obs: leia nossa crítica sem spoilers aqui.
Obs 2: só leia se já tiver assistido ao filme.

O anúncio de que a famosa saga de Mark MillarGuerra Civil, seria adaptada para os cinemas veio acompanhada, é claro, de muito hype por parte dos fãs, mas, também, de um certo receio. Afinal, as telonas não contam com nem metade dos heróis dos quadrinhos da Marvel e a grande maioria deles sequer conta com uma identidade secreta propriamente dita. Dito isso, seria preciso mudar um dos fortes motivos para o embate dos “supers” e garantir que o drama da história original não fosse perdido – seria preciso ter, de fato, uma guerra e não apenas um “climão” entre os personagens. Felizmente, essa segunda continuação de Capitão América novamente ficou encarregada dos irmãos Russo, que conseguiram trazer um dos mais sérios longa-metragens do estúdio, através de Soldado Invernal, uma obra preenchida por forte sensação de urgência. Guerra Civil estava, portanto, em boas mãos.

O roteiro, assinado por Stephen McFeely e Christopher Markus faz um ótimo trabalho na construção desse conflito, procurando garantir que ambos os lados estejam com suas motivações bem definidas desde o início. O foco, obviamente, permanece em Rogers (Chris Evans) e Stark (Robert Downey Jr.) e o texto sabiamente se livra do maniqueísmo, ao menos se tratando dos dois. Enquanto que, nos quadrinhos, nos identificávamos mais com o Capitão, aqui a trama toda se envolve em uma área cinzenta, exceto no trecho final, que representa um dos deslizes da obra, mas chegaremos nisso mais tarde.

Da perseguição ao Ossos Cruzados (Frank Grillo) no início do longa ao conflito no aeroporto, McFeely e Markus vão inserindo cada vez mais a urgência na narrativa. O que começou como uma briga quase casual se torna uma luta entre irmãos no clímax do filme. Infelizmente, toda essa construção acarreta em algumas sequências que são desnecessariamente longas. Toda a batalha no aeroporto é um bom exemplo disso. Claro que era preciso justificar o “guerra” no título, mas, nesse ponto, não há qualquer drama na briga dos heróis, algo que somente escala após a queda de Rhodes e a descoberta de que fora Bucky o assassino dos pais de Tony. Dito isso, muitos dos embates que presenciamos no longa são apenas divertidos, não chegam a nos envolver da maneira como deveriam.

Dito isso, Guerra Civil, no quesito “pipoca” mais do que cumpre seu papel. Através de um excelente trabalho de direção dos irmãos Russo, somos presenteados com sequências de ação que conseguem oferecer muito mais que a pura troca de socos repetitiva. Com constantes movimentos de câmera e um controle maior dos cortes entendemos, de fato o que ocorre, ao mesmo tempo que os diretores conseguem mascarar o uso constante da computação gráfica. Cada briga é bem diferenciada uma da outra e mesmo dentro delas, temos diferentes estágios, como no já mencionado conflito do aeroporto ou a perseguição de Bucky (Sebastian Stan) por parte do Pantera Negra.

Um dos aspectos que constantemente é deixado de lado no filme é o seu vilão, Zemo (Daniel Brühl). Diferente dos outros todos que vimos no Universo Cinematográfico Marvel, ele atua em segundo plano, aos poucos representando uma ameaça maior. A inserção de suas cenas, no início, soa um tanto quanto desconexa do restante do filme, mas elas desempenham a importante função de nos acostumar com o antagonista. Essa montagem paralela é um dos pontos que acaba prejudicando o ritmo da obra, criando uma narrativa fragmentada que, no fim, divide o filme em três atos bastante distintos.

O mesmo ocorre com o recrutamento do Homem-Formiga (Paul Rudd) e Peter Parker (Tom Holland)para a batalha do aeroporto. Ainda que ambas as sequências sejam um ótimo alívio cômico por si só, elas prejudicam o tom da obra como um todo – Guerra Civil jamais atinge a atmosfera mais séria de Soldado Invernal, por exemplo, uma escolha um tanto duvidosa do roteiro, visto que essa cisão dos heróis pede um clima menos virado para a comédia. Mesmo durante a maior luta dos “supers” piadinhas são soltadas aos ventos, fazendo parecer como se estivessem em uma brincadeira entre amigos (uma brincadeira violenta, mas ainda assim). E aqui permitam-me abrir um adendo: não acredito que o tom necessário seria o de Batman vs. Superman, por exemplo, são dois longas completamente distintos, com propostas diferentes, mas a Marvel já provou mais de uma vez que sabe ser mais séria, sem necessariamente ser sombria, quando quer.

Felizmente, esse aspecto negativo da obra é contra-balanceado pelo excelente trabalho de atuação de Robert Downey Jr. Ouso dizer que aqui temos sua melhor interpretação do Homem de Ferro desde o primeiro filme do Universo Cinematográfico Marvel. Sentimos em suas palavras, seu olhar, o peso dos anos que atuou como o herói. Enxergamos nele o quanto as palavras da mãe que perdera o filho o atingiram e, é claro, conseguimos entender toda a sua fúria em relação ao Soldado Invernal quando ele descobre que esse assassinou seus pais. Das veias pulsantes nas têmporas, até seu olhar de ira, Tony Stark consegue roubar todas as cenas que aparece, fazendo-nos quase torcer por ele.

Aqui entramos no aspecto que mencionei lá atrás no texto. O trecho final da obra praticamente força o Ferroso como o antagonista do longa, justificando as ações de Bucky através de seu controle mental. Por mais que a morte dos Stark funcione como o ponto sem retorno desse conflito, ele cria um maniqueísmo distinto, que poderia ser facilmente substituído por outro elemento. O Homem de Ferro passa a brigar por vingança aqui e não para impedir que o Capitão passe a atuar por conta própria – ele não mais deseja ver os Vingadores juntos e sim acabar com Barnes. Isso vai de encontro com um dos melhores pontos da saga original dos quadrinhos, que nada mais é que uma guerra ideológica, da qual tomamos partidos, mas jamais coloca em questão um lado certo e o outro errado.

Naturalmente, defendo e sempre defenderei que uma adaptação precisa se desvencilhar do seu material base, caso contrário o roteiro será nada mais que uma pura transcrição. É preciso entender que estamos falando de mídias diferentes e o que funciona em uma, não necessariamente irá ser bem sucedida na outra. O maior problema de Guerra Civil, portanto, acaba sendo justamente essa comparação, a necessidade de trazer pontos semelhantes a seu material base, quando poderia atingir uma independência maior se o único ponto semelhante fosse a briga entre Stark e Rogers. O título sequer precisaria trazer “guerra”, algo que, de fato, não chegamos a ver no filme. Mas, é claro, que o marketing fala mais alto e muito mais ingressos são vendidos com um nome desse nos cartazes.

Um maior distanciamento do material base permitira que o drama da divisão da equipe fosse abordada com mais profundidade. Um bom exemplo de como muito acaba sendo extremamente superficial é a Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen): por que ela se alia ao Capitão? É simplesmente uma revolta por Tony tê-la prendido em sua própria casa? Isso jamais fica claro no filme. O mesmo ocorre com o Gavião Arqueiro (Jeremy Renner), cujo conflito com a Viúva Negra (Scarlett Johansson) é tratado de forma descontraída, não trazendo o drama de amigos de longa data tendo de brigar entre si. No fim, qual a urgência que é criada? Temos claramente uma sequência inteira desperdiçada somente para trazer um espetáculo visual.

Algo similar ocorre em relação ao Pantera Negra (Chadwick Boseman) e a morte de seu pai. Percebam como a morte do rei de Wakanda é inserida com muita importância dentro do roteiro, mas cujo impacto é diluído com o passar do tempo. Evidente que essa é a morte de Francisco Ferdinando do conflito, mas a transformação de T’Challa da figura tomada pela ira naquele homem que deixa Zemo viver jamais é explorada verdadeiramente, soando como uma mudança da água para o vinho.

Chegamos a um ponto, então, que passamos a enxergar com maior clareza o maior problema da obra: Barão Zemo. Mas você não o defendeu lá atrás? Sim, como um vilão ele é interessante, diferente do que vimos antes e Brühl mais que cumpre seu papel. Mas ele é realmente necessário? Não bastava somente o Acordo de Sokovia para dividir os heróis? Dessa forma, a ira de Tony não necessitaria da morte de seus pais pelas mãos do Soldado Invernal, apenas o acidente com Rhodes. Isso acabaria com o maniqueísmo do final e colocaria os dois lados como certos e errados ao mesmo tempo, além de permitir uma maior exploração dos arcos dramáticos de cada personagem (e não só de Tony e Steve), além de diminuir o tempo de projeção, tornando toda a experiência consideravelmente mais fluida, garantindo a necessária urgência que falta durante maior parte do filme.

Capitão América: Guerra Civil, no fim, é mais um filme pipoca que diverte, mas que jamais atinge o grau de qualidade da saga na qual é baseada. É uma oportunidade perdida, a morte de um sonho de muitos leitores da Marvel, que ansiavam por ter algo tão grandioso nas telonas. Não se enganem, porém, ainda assim ele consegue nos entreter e nos fazer sair com uma percepção positiva, mas apenas marginalmente. Temos aqui um amontoado de boas escolhas, intercaladas com péssimas decisões, que reduzem consideravelmente o escopo desse conflito que chamam de guerra, mas que não passa de uma “treta” super-heroística.

Capitão América: Guerra Civil (Captain America: Civil War) – EUA, 2016
Direção: Anthony e Joe Russo
Roteiro: Christopher Markus e Steven McFeely
Elenco: Chris Evans, Robert Downey Jr., Scarlett Johansson, Sebastian Stan, Don Cheadle, Anthony Mackie, Jeremy Renner, Chadwick Boseman, Paul Bettany, Elizabeth Olsen, Paul Rudd, Emily VanCamp, Tom Holland, Daniel Bruhl, Martin Freeman, William Hurt, Frank Grillo, Marisa Tomei, John Kani, John Slaterry
Duração: 147 minutos.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.