Crítica | iZombie – 1ª Temporada

estrelas 3,5

Aos poucos que sabem que iZombie, série de zumbi da The CW, é uma adaptação de uma série já encerrada de quadrinhos da Vertigo Comics, criada por Chris Roberson e Michael Allred (leiam as críticas aqui), fica já um aviso: a série é apenas “inspirada” nos quadrinhos, com muito pouco realmente transposto para a telinha. Assim, todo o tom fortemente sobrenatural que Roberson e Allred imprimiram em sua obra original inexiste aqui.

Dos quadrinhos mesmo, só restaram (1) a aparência da protagonista; (2) sua necessidade de comer cérebros humanos e (3) sua habilidade de absorver as memórias das pessoas cujos cérebros ingere. Nada mais. Os nomes, locais e situações foram completamente alterados. E, ainda que tivesse sido interessante ver, na televisão, a homenagem aos “filmes de monstro” que Roberson e Allred fizeram nos quadrinhos, o resultado final, apesar de muito diferente, diverte da mesma forma.

A série foi adaptada para TV por Rob Thomas e Diane Ruggiero-Wright, a dupla responsável pela adorada série Veronica Mars. E muito do humor que víamos em Veronica Mars foi mesmo transposto para iZombie, com um roteiro cheio de referências pop e com um timing cômico excelente e homogêneo por todos os 13 episódios. A protagonista é Olivia “Liv” Moore (Rose McIver – reparem o trocadilho infame com o nome dela, Liv Moore, que pode ser traduzido como “viva mais”), uma jovem toda certinha, com carreira médica promissora e um noivo dos sonhos que, em uma festa em um barco, é arranhada por um zumbi, transformando-se em uma morta-viva. Claro que o aspecto “monstruoso” dos mortos-vivos não se aplica à Liv; ela apenas passa a ter uma pele muito pálida, olheiras e cabelos brancos, mas mantendo o aspecto jovial e todas as suas faculdades mentais. Mas, sendo o que ela é, Liv abandona a carreira médica para trabalhar no necrotério local (Seatlle) como médica legista e larga seu noivo, Major Lilywhite (Robert Buckley), tornando-se introspectiva e soturna.

Sua vida muda novamente quando, seis meses após sua transformação, seu chefe, o Dr. Ravi Chakrabati (Rahul Kohli), descobre seu segredo e os dois passam, juntos, a tentar descobrir uma cura. Ao mesmo tempo, fingindo ser vidente (temos que aceitar isso, não tem jeito), ela ajuda o detetive Clive Babineaux (Malcolm Goodwin) a resolver casos de assassinato, depois de se deliciar com os cérebros das vítimas.

Essa é a estrutura básica da série, algo que inevitavelmente a leva para o caminho do “caso da semana”. Normalmente, sou avesso a esse tipo de série, justamente por ela só trazer repetições sobre um mesmo tema. No entanto, os roteiros são bem pensados e bem estruturados, começando de forma básica, sem surpresas e, aos poucos, desenvolvendo-se em uma narrativa que engaja o espectador dentro de uma história maior e bem mais interessante que lida com o ressurgimento de Blaine DeBeers (David Anders, vivendo um divertido clichê pálido e ambulante), o zumbi que transformou Liv no que ela é e que cria sua própria demanda por cérebros ao transformar outros incautos em zumbis.

Com isso, os casos da semana vão sendo utilizados – em maior e menor grau – para impulsionar um arco narrativo mais amplo e que envolve literalmente e de forma orgânica todos os personagens da série. Ajuda o fato de a série também ser limitada a 13 episódios (tamanho ideal para qualquer tipo de série, aliás – vide meus comentários sobre isso, aqui), pois não há espaço para se contar histórias sem consequências. Mesmo aquelas que, no começo, parecem somente servir ao propósito de estabelecer a premissa da série revelam-se, mais tarde, como peças de um quebra-cabeças maior e mais intrigante.

E os showrunners fazem tudo isso sem perder a jovialidade da proposta, já que a série é realmente imaginada tendo como foco adolescentes e jovens adultos, o que de forma alguma é um aspecto negativo. Ao contrário até. Fugindo da violência e do aspecto psicológico pesado usualmente ligados a histórias de zumbi, Thomas e Ruggiero-Wright criam uma obra leve, de fácil digestão e com diálogos inteligentes e engraçados salpicados ao longo de toda a narrativa. Outro aspecto que vem ao auxílio dos showrunners é a excelente atuação de Rose McIver no papel principal. Ao comer cérebros, Liv absorve não só as memórias como, também, as personalidades dos falecidos e, com isso, McIver consegue mostrar sua latitude como atriz. Por exemplo, quando ela ingere o cérebro de um artista plástico, ela passa a ver o mundo com outros olhos, empolgando-se com as pequenas coisas. Outra hora, depois de se refestelar com um cérebro de um assassino frio, ela perde suas emoções completamente, passando a analisar tudo com a cabeça de alguém que não tem remorso algum em matar pessoas. Assim, naturalmente, os episódios ganham aspectos cômicos que fluem da atuação de McIver e dos diálogos ágeis da tropa de roteiristas.

Mesmo Major Lilywhite, o ex-noivo de Liv que mais parece o boneco Ken, ganha contornos surpreendentemente complexos, com um arco de crescimento que realmente nos faz sofrer e temer pelo personagem. Robert Buckley vive seu papel de maneira auto-consciente de que ele é ao mesmo tempo uma paródia (dos namorados ideais) e uma peça-chave para o impulsionamento da narrativa. Rahul Kohli, que vive Ravi, chefe de Liv, é também uma simpatia, mas seu papel é mais padrão dentro de séries como essa e não tem verdadeiro destaque além do que precisa ter. Quem, porém, realmente sofre no quesito atuação é Malcolm Goodwin, como o detetive Babineaux. Seu personagem é recortado em cartolina, com nenhuma profundidade e pouca empatia, especialmente porque ele constantemente divide tela com McIver que, assim como faz com os cérebros que tanto gosta, mastiga o cenário.

iZombie não quer ser mais do que é. Seus showrunners sabem exatamente que botões apertar para manter o engajamento do público e entregam uma 1ª temporada muito divertida que literalmente deixa um caminhão de cliffhangers para a 2ª temporada (já aprovada e em produção). Se o ritmo jovial e sobretudo inteligente for mantido, talvez com menos ênfase nos “casos da semana”, é possível até que a série alce voos para além da diversão descompromissada.

Teria sido divertido e ousado ver uma versão mais próxima dos quadrinhos de Chris Roberson e Michael Allred? Provavelmente. Mas a produção da The CW não deixa a desejar e oferece mais do que a embalagem deixa entrever.

iZombie – 1ª Temporada (EUA – 2015)
Showrunners:  Rob Thomas, Diane Ruggiero-Wright
Direção: vários
Roteiro: vários
Elenco: Rose McIver, Malcolm Goodwin, Rahul Kohli, Robert Buckley, David Anders, Aly Michalka, Molly Hagan, Nick Purcha, Bradley James, Hiro Kanagawa, Steven Weber
Duração: 546 min. (13 episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.