Crítica | Sem Limites

limitless

Neil Burger não é um cineasta que agrada muita gente, especialmente a críticos e espectadores que tem aversão aos chamados “filmes pipoca”. Suas obras anteriores, Entrevista com o Assassino (2002), O Ilusionista (2006) e Gente de Sorte (2008) são bons filmes, recebidos com críticas mistas e até notáveis, mas conseguiram arrebatar uma multidão de desafetos. As justificativas são muitas: virtuosismo barato, falta de melhor trabalho com o roteiro, opaca direção de atores e péssimo uso de trilha sonora. Embora não sejam afirmativas de todo mentirosas, esses elementos negativos não conseguem derrubar a força de um produto dirigido por Burger, que acaba emergindo de um mar tremendamente familiar para brilhar ao sol, como é o caso de Sem Limites (2011), obra ágil, cheia de chavões, mas um fino produto de entretenimento, talvez o melhor de seu país de origem até o momento.

O filme é baseado na obra de Alan Glynn, The Dark Fields (2001), e conta a história de um escritor em crise de produção (Bradley Cooper, em uma “atuação” que não exige dele nada além do que ele pode dar: carisma) que descobre através de seu ex-cunhado uma droga, a NZT-48, ainda em fase de testes, mas que pode fazer com que o consumir tenha acesso a 100% de sua capacidade cerebral, ou seja, torne-se, em 30 segundos, um ser humano superdotado. A partir desse novo mundo que se abre à sua frente, Eddie Morra passa a galgar os degraus da hierarquia social de Nova York, chegando, sem competição alguma, ao topo de um dos maiores conglomerados econômicos do mundo. A partir daí, violência gratuita, agilidade, suspense e boas guinadas no roteiro falho compõem o filme.

Ao contrário do que muitos tem dito, não se trata de uma apologia às drogas. Moralistas de plantão que guardem sua neutra e retrógrada acidez cristã para outro filme, talvez Anjos de Cara Suja (1938) do Michael Curtiz, onde o bandido morre no final e lições de moral seguidas de versículos bíblicos e conclamações à Luz são pregadas em quase cinco minutos de roteiro. Se há uma vitória, no filme, ela é parcial, e o tom de insatisfação interna da personagem é visível, não é preciso consumir NZT-48 para perceber isso.

A longa sequência de abertura me conquistou totalmente, a despeito de todos os seus clichês cênicos. Não senti minha inteligência subestimada, nem nada disso. Se a história começa daquele modo já muito batido, com a trama saída de um ponto clímax, e sob o guia narrador / protagonista volta para o início, o seu desenvolvimento é comercialmente muito bom, e por isso mesmo, capaz de encobrir tais deslizes. O roteiro, por sua vez, é outro elemento crítico do filme. E devo dizer que alguns enquadramentos são absurdamente vergonhosos, como vocês podem ver na fotografia abaixo. Ou seja, Sem Limites não é um filme tecnicamente perfeito, aliás, está longe da perfeição. Mas o filme considerado em sua totalidade ultrapassa essa barreira e ganha o patamar de ótimo entretenimento, parando por aí.

Os deslizes infinitos de câmera nos lapsos de memória do protagonistas são muito bons, dão um efeito interessante ao filme. A mudança fotográfica, de tons monocromáticos escuros e opacos para um brilhante e amarelado mundo após o consumo da droga não é lá algo muito original, mas funciona bem dentro da trama. As atuação são regulares, e definitivamente esse Robert De Niro que aparece em Sem Limites não é o Robert De Niro do qual sou fã absoluto. Aqui, como podem ver, se confirma a sentença de que Burger é um péssimo diretor de atores.

Sem Limites é um bom filme. Ponto. Não é apologético, é clichê, e tem um uso do som bem ruim, além de copiar descaradamente algumas coisas de Pi (1998), mas diverte, cumpre o seu papel de pipoca + entretenimento, e creiam, essa era a única coisa a que ele se propunha. O final em um corte abrupto deixa o filme com cara de Sem Limites 2. E isso é ruim? Bem, sem predileções charlatãs, deixo isso para o próximo filme, se vier. Por hora, tenho o orgulho de cotar quatro estrelas para um filme que me divertiu demais, e do qual sempre vou lembrar como a volta, mesmo que momentânea, do meu entusiasmo quase infantil em relação a uma produção blockbuster desse porte.

Sem Limites (Limitless, EUA, 2011)
Direção: Neil Burger
Roteiro: Leslie Dixon (adaptação da obra de Alan Glynn)
Elenco: Bradley Cooper, Abbie Cornish, Robert De Niro, Anna Friel, Andrew Howard, Johnny Whitworth, Tomas Arana, Robert John Burke, Darren Goldstein
Duração: 105min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.