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Crítica | Amor em Tempo de Histeria

O amor em tempos de AIDS.

por Iann Jeliel
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Amor em Tempo de Histeria

Amor em Tempo de Histeria é o primeiro longa-metragem de Alfonso Cuarón e, por incrível que pareça, talvez seja a obra menos expressiva de sua identidade. Curioso, porque normalmente grandes diretores apresentam suas principais características, temáticas e estilo já no princípio da carreira. Observando retroativamente a filmografia de Cuarón, notamos  pouca influência do que ele se tornaria. Por mais que exista uma forte presença de sexualidade aplicada nessa fase inicial de Grandes Esperanças e E Sua Mãe Também, o tom aqui é voltado para uma comédia de humor ácido com pouquíssima ou nenhuma força dramática.

A premissa acompanha o jovem Tomás (Daniel Giménez Cacho) em desventuras sexuais diversificadas que lhe criam um problema com a enfermeira Silvia (Dobrina Liubomirova) de seu médico e vizinho Mateo (Luis de Icaza). Silvia se sente traída por Tomás e para descontar o sentimento, forja um falso exame positivo de HIV que passa a atormentar o jovem justamente quando ele quer deixar a vida de solteirice ao se apaixonar pela sua outra vizinha, Clarisa (Claudia Ramírez). De longe, é uma sinopse que chama a atenção pela bizarrice, mas de perto, definitivamente não sabe utilizá-la para trazer leveza à temática da doença que assolava o mundo nos anos oitenta e noventa, especialmente nos países da América Latina. O humor dificilmente cria situações genuinamente engraçadas, tampouco as utiliza criativamente para fazer uma denúncia à desinformação e ao tratamento de não seriedade às  pessoas portadoras da DST.

A impressão é justamente a oposta. O filme, ao brincar com o caráter exagerado de idealização de um adolescente em um  coming-off age, cai num melodrama um tanto irresponsável no tratamento temático, problematizando  que o grande defeito vindo dela é a não-possibilidade de transar mais. Essa é a grande piada. As situações narrativas vão girando entorno do fazer graça aos impeditivos do protagonista em não fazer sexo e isso nem vai desconstruindo sua incontrolável libido. Engraçado que esse parece ser o destino crítico de Cuarón e seu irmão Carlos (que ajudou na escrita do roteiro) para a jornada de amadurecimento, mas acaba entrando em contradição com a imagem que gasta vários minutos em cenas eróticas exaltadoras da capacidade masculina do personagem em conseguir sempre, corporalmente, conquistar suas ficantes.

Sem entrar em detalhes, mas o final basicamente confirma essa teoria de que o diretor está exaltando a libertinagem à frente do cuidado, quando alia a proximidade da morte (suicídio e consequências da doença) como desculpa para abrir o sexo desenfreado, afinal “só se vive uma vez mesmo”. Não que não se possa brincar com a mortalidade, sexo e outros tabus, mas é preciso ter uma sensibilidade particular a depender do tipo de brincadeira com temáticas delicadas para que ela funcione num contexto isolado de quebra de expectativa. Formalmente até existem esses momentos, pela mão firme do cineasta na construção dos planos tecnicamente bem cuidados, com Emmanuel Lubezki arrasando desde cedo (esse é seu segundo filme) na fotografia.

No fundo, dá para enxergar que a intenção de Amor em Tempos de Histeria não é ser ofensivo gratuitamente com suas piadas juvenis e sem escrúpulos. Há um fundo satírico que ri da própria provocação, num cinema meio Pedro Almodóvar, meio Woody Allen, mas que infelizmente pela pouca dosagem no tom chega mais perto de um pastelão do Adam Sandler, tamanho humor antiquado apresentado. Felizmente Cuarón nunca mais tocou plenamente na comédia, em especial a desse tipo que finge ser espertinha, mas que é apenas chata e boboca.

Amor em Tempo de Histeria (Sólo Con Tu Pareja | México, 1991)
Direção: Alfonso Cuarón
Roteiro: Alfonso Cuarón, Carlos Cuarón
Elenco: Daniel Giménez Cacho, Claudia Ramírez, Luis de Icaza, Astrid Hadad, Dobrina Cristeva, Isabel Benet, Toshirô Hisaki, Carlos Nakasone, Ricardo Dalmacci, Claudia Fernández, Luz María Jerez, Nevil Wilton, John Keys, Raúl Valerio, Monserrat Ontiveros, Regina Orozco
Duração: 94 minutos

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