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Crítica | Apanhador de Pesadelos

por Leonardo Campos
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Meu primeiro contato com Apanhador de Pesadelos foi bem no momento em que desenvolvia algumas leituras sobre o universo de Freddy Krueger e terminava o livro Never Sleep Again, de Thommy Huston. O que isso significa? Simples: estava impregnado do legado de Wes Craven, dos bastidores do clássico A Hora do Pesadelo, de 1984, em especial, a realização de cenas antológicas, tais como o assassinato de Tina e a famosa descida do maníaco dos pesadelos pela parede do quarto de Nancy, algo que já tinha sido retomado na primeira temporada de Stranger Things. Aqui, o cartaz original do filme em questão também resgata a mesma cena, numa cópia que nem se preocupa com a realização de alterações. Assim, a preguiça se estabeleceu e o desinteresse em conferir a narrativa foi maior que a curiosidade em conferi-la, afinal, neste mesmo período, tinha também me dedicado a rever o remake questionável do filme de 2010, um equívoco da Platinum Dunes de Michael Bay, um desserviço cinematográfico.

Vamos, no entanto, ao que interessa. A análise do razoável Apanhador de Pesadelos, retirado do final da lista de pendências cinéfilas. Primeiro, o filme de fato não tem conexão alguma com os padrões de Freddy Krueger. Não é uma narrativa slasher, não há uma vingança nebulosa, oriunda de um passado sombrio, tampouco se expõe como um retrato sobre os impactos dos pesadelos na vida de um ser humano aterrorizado por algo impossível de ser fisicamente controlado. Em termos de campanha de marketing, o filme emula o legado imagético de uma franquia para tentar atrair os espectadores para o seu universo que flerta sobre outra obviedade: a vida de uma família que busca de reconstrução, com a entrada da madrasta boazinha e gentil, substituta da falecida matriarca morta em circunstancias misteriosas. Nesta brincadeira de casinha, Luke (Henry Thomas) é o pai, Gail (Radha Mitchell) é a madrasta, Josh (Finlay Wojtak-Hissong) é o filho e Becky (Jules Willcox) é o espírito que não tem nada de santo. É o tipo de história magnética, já conhecida, mas que cativa e prende quando bem contada.

O filme ainda abre espaço para a vizinha misteriosa, Ruth, interpretada pela musa do terror Lin Shaye, num elo com A Hora do Pesadelo que teve as minhas desconfianças alteradas quando conferi a ficha técnica antes de começar a empreitada. Mas foi puro engano. Não há nada de Krueger neste filme a não ser os pesadelos que acometem o pequeno Josh, garoto que dentro dos clichês do cinema de terror há eras, comporta-se mal na frente da “nova mãe” e com o pai, é um doce de criança que nas madrugadas, sofre com terríveis pesadelos envolvendo a imagem da mãe que aparentemente não morreu de forma tão simples como inicialmente imaginamos. Diante do exposto, sustos, poucos gritos, o menino de torna possuído pela presença maligna, o casal briga, o apanhador de pesadelos do bazar de Ruth, uma peça assimétrica com barbante e penas, objeto tido como protetor de más imagens no sono, perde a sua função e não consegue dar conta do horror, conduzido musicalmente pelo mestre Joseph Bishara.

Logo em sua abertura, Apanhador de Pesadelos se oferta como um produto esteticamente cuidadoso. A direção de fotografia assinada por George Wieser investe em drones e enquadramentos favoráveis ao espaço cênico, dando-lhe uma ampla dimensão nas passagem em que apresenta a floresta em torno da casa , um lugar que nos faz compreender que há poucos sinais de civilização, o que também pode ser lido como poucas chances de escapar da atmosfera macabra que será instalada assim que os conflitos dramáticos avançam. O design de produção de Alexandra Kaucher gerencia uma direção de arte imersiva, consciente da necessidade de nos apresentar uma família de classe média-alta, bem equilibrada, situada num cenário arquitetado para o conforto, mesmo que o local seja apenas a zona de diletantismo do grupo para um final de semana. Na supervisão de som, Brian Berger traça um design padrão para o terror no contemporâneo, repleto de jumpscares para nos fazer saltar com os ferrões a cada momento de aparição fantasmagórica ou falsa sensação sobrenatural promovida por humanos insensatos.

Sob a direção de Kerry Harris, cineasta que assina o roteiro ao lado de Dan V. Shea, dono do argumento, Apanhador de Pesadelos é um filme que podia até ganhar projeção se não tivesse sucumbido junto aos demais filmes da era de isolamento social de 2020. A produção não é horripilante em termos dramáticos, apenas nos conta, da mesma maneira, histórias que já estamos exaustos em conferir noutros filmes bem melhores. É aquela ideia de você pegar um tema debatido, mas capitalizar em torno de novos elementos ou contar de uma maneira que seja tão surpreendente quanto alguns de seus predecessores, oxigenação necessária para comprarmos a ideia. Infelizmente, não é o que acontece e a narrativa ainda tem a pretensão de encerrar com um desfecho ambíguo, sem amarrar adequadamente algumas pontas que uma produção deste quilate não tem moral suficiente para deixar o espectador no interesse em interpretar seu desfecho morno e quase anticlimático. Depois de 90 minutos, sonhos dentro de outros sonhos e falsas expectativas, o filme encerra sem conseguir alcançar o potencial promovido por seu argumento comprovadamente magnético. Um pesadelo dramático, não é mesmo? Daqueles de fazer Freddy Krueger se gabar de seus espetáculos oníricos de horror.

Apanhador de Pesadelos (Dreamkatcher, EUA – 2020)
Direção: Kerry Harrus
Roteiro: Kerry Harris, Dan V. Shea
Elenco: Radha Mitchell, Thommy Huston, Lin Shaye, Jules Willcox, Finlay Wojtak-Hissong
Duração: 90 min.

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