Crítica | Você Nem Imagina

Acredito que não existam muitas pessoas que, ao menos alguma vez na vida, não se viram em uma ciranda de amores onde as cartas de “quem ama quem” estão mais embaralhadas do que deveriam. E isso toma uma proporção ainda maior quando a diferença de sexualidade também é parte do jogo. Segundo filme escrito e dirigido por Alice Wu (o anterior foi Livrando a Cara, em 2004), Você Nem Imagina coloca mais uma vez as estripulias do coração em cena e lança mão de ingredientes de comédias românticas clássicas para ajustar os clichês desse tema, trabalhando-os com um elenco jovem.

Ellie Chu (Leah Lewis) é uma garota inteligente e uma excelente escritora. Ellie cobra para fazer os trabalhos de pelo menos metade da classe e é por essa habilidade que Paul Munsky (Daniel Diemer) vai procurá-la: ele está apaixonado por Aster Flores (Alexxis Lemire) mas não é nada bom com as palavras, nem na oratória, nem na escrita. É sob esse tablado que a cineasta constrói a sua desencontrada história de amor, que como na maioria dos bons romances, também é uma história de amadurecimento, de tentativa e erro, de descoberta de si e sobre viver a vida mais ousadamente e aprender a ler e a olhar o outro para além do próprio desejo… ou conveniência.

A partir de determinado momento da projeção, eu me senti profundamente dividido em termos de “escolha do casal”, e aí está um grande triunfo do roteiro: engajar o público a tal ponto que ele possa aproveitar cada uma das pontas do triângulo e ansiosamente esperar pela resolução do caso. A mesma escolha difícil que eu tive vendo Atypical aparece aqui, com todo mundo tendo um histórico, uma personalidade, uma educação e um desejo na vida, mas amando quem talvez não deveria amar. Esse dilema moral/sentimental é explorado de forma comedida pela diretora, dando espaço para que cada um cresça e mostre um pouco de si. O traço de novidade aqui é que a grande simpatia que o enredo nos faz criar por esses personagens não vem porque eles são pintados como heróis ou reizinhos e fadas sensatas, sem erros. Ao contrário. E é na alternância entre os erros e os acertos que valorizamos cada um deles, ao passo que acompanhamos suas transformações.

A ligação com filmes clássicos (Casablanca, Jejum de Amor, Asas do Desejo, etc.) e uma bem escolhida trilha sonora são responsáveis por cimentar melhor as emoções, ao passo que o bom elenco transmite o que é necessário para cada fase de pequenas, mas importantes mudanças em seus personagens. A fratura no meio disso tudo está na forma episódica como a diretora e roteirista resolveu organizar sua história. Ela começa o filme através de uma narração filosófica/mitológica e daí consegue chegar ao colégio do trio protagonista. Daí em diante, a cada mudança de bloco, passagem maior de tempo ou deslocamento temático muito grande que o roteiro dá, vemos um intertítulo com alguma frase que se liga àquele momento ou ao momento que está por vir. As quebras são tantas que atrapalham a fluidez da película e tornam momentos muito interessantes em cenas precocemente abreviadas que sequer tem a oportunidade de passar suavemente para outro momento narrativo.

A inexperiência, o medo, a felicidade e as dores causadas pelo primeiro amor se juntam aqui em Você Nem Imagina para nos dar um cenário de aprendizado e passagem de uma fase a outra da vida. O momento em que o coração é tocado, os sentidos são confundidos e um bom número de lições aprendidas em um recorde de tempo. Mesmo com uma organização que constantemente quebra a fluidez da obra, Alice Wu consegue transmitir uma mensagem calorosa e que além do já complicado sentimento romântico, tempera a questão com a presença de duas garotas lésbicas em fase de descoberta pessoal no meio de uma pequena cidade conservadora. Uma prova de fogo dentro e fora do coração dessas meninas e do “homem de suas vidas”.

Você Nem Imagina (The Half of It) — EUA, 2020
Direção: Alice Wu
Roteiro: Alice Wu
Elenco: Leah Lewis, Enrique Murciano, Becky Ann Baker, Alexxis Lemire, Daniel Diemer, Catherine Curtin, Collin Chou, Wolfgang Novogratz, Haley Murphy, Alex D. Jennings, Billy Thomas Myott, Logan Riley Bruner, Veronica Wood, Joe Lanza, Alexandre Bagot
Duração: 104 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.