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Sagas Marvel | Rei das Trevas (King in Black)

por Ritter Fan
4.007 (a partir de agosto de 2020)

Já disse algumas vezes, mas não custa repetir: eu adoro as megalomanias de Donny Cates na Marvel Comics. Em comparativamente pouco tempo, o roteirista basicamente tomou conta da linha editorial da empresa ao pegar a mitologia de Venom, outrora um mero vilão do Homem-Aranha, e expandi-la a níveis cósmicos tão exagerados que chega a ser ridículo, mas no sentido bom da palavra, se é que me entendem. E o melhor é que dá para sentir que, em quase tudo que ele faz, há um plano maior por trás, com um cuidado com a escrita maior do que a média, o que volta e meia resulta em obras realmente espetaculares, como é o caso de Surfista Prateado: Escuridão.

Rei das Trevas é a culminação de tudo o que Cates fez com Venom desde meados de 2018, quando embarcou em seu ambicioso projeto com o arco Rex. Desde, então, o roteirista trabalhou o já mencionado Surfista, tomou de assalto a nova fase do Thor, escreveu o evento Carnificina Absoluta e continuou expandindo os horizontes da história do simbionte que o ingênuo Homem-Aranha achou que era um uniforme bacana lá atrás na longínqua e fraquíssima Guerras Secretas de 1984. Isso quer dizer que, na prática, se um leitor quiser ler apenas a nova saga, encontrará problemas de cara, pois ela foi mesmo construída para ser um clímax de uma revolução na vida de Eddie Brock, em que ele descobre a verdadeira origem do simbionte que se fundiu com ele, que tem um filho chamado Dylan e que o jovem herdou alguns poderes em razão dessa fusão. E a origem dos simbiontes é razoavelmente complexa, envolvendo uma entidade chamada Knull que, trocando em miúdos, representa o abismo de escuridão entre o universo anterior e o atual e que tem sede de destruição total para variar.

Por outro lado, a boa notícia é que, se o leitor conhecer pelo menos em pinceladas amplas o “Catesverso do Venom”, chamemos assim por um momento, não precisará verdadeiramente ler os infinitos tie-ins que cercam as cinco edições centrais de Rei das Trevas, pois o roteirista escreve uma história substancialmente autocontida que, para a compreensão exata da linha mestra, não exige qualquer leitura paralela. A grande verdade é que Cates preparou tão bem o terreno para a chegada de Knull à Terra – que é toda a premissa da saga – que ele conseguiu lidar com toda a história em apenas cinco edições, todas elas com um número bastante civilizado de páginas, resultando em uma aventura de proporções gigantescas, mas que não parece enrolar em momento algum, entregando algo mais eficiente que seu Carnificina Absoluta, ainda que seguindo o mesmo padrão narrativo.

Ou seja, em termos de progressão da história, não há surpresa alguma ou nada diferente do padrão atual de sagas e eventos mainstream do tipo. Há uma morte besta no início para “chocar” e chamar atenção dos leitores e deixar os sites dedicados a quadrinhos excitados (se é que alguém consegue ainda excitar-se com mortes em quadrinhos) seguido de todos os super-heróis devidamente venomizados (ou seria knullificados?), como é de praxe em HQs que lidam com variações de “infestações” e uma sucessão até engraçada de “entradas triunfais” dos mais diversos super-heróis sempre com aquele discurso na linha de “sigam-me, que eu sei o que fazer”, somente para ele ou ela se ferrar poucas páginas depois.

No entanto, no meio do padrão, no meio de toda a fórmula básica, há Donny Cates. E Donny Cates é um cara diferenciado em sua maluquice completa e em seus exageros insanos. Há um sentido, uma lógica em tudo o que ele faz e, melhor ainda do que isso, ele escreve bem mesmo quando basicamente faz seus personagens soltarem uma frase de efeito atrás da outra. É um escritor que, muito claramente, relê o que escreve incessantemente e parece realmente disposto a refazer o texto quantas vezes for necessário para ele ficar no ponto. Rei das Trevas pode não ser uma obra prima da Nona Arte – está bem longe de ser, na verdade -, mas é perceptível que quem guia a narrativa é um autor que se preocupa verdadeiramente com ela, sempre pensando diversas jogadas a frente e sempre trabalhando a história de maneira a manter o foco no que é realmente importante. E o que importa em Rei das Trevas é Eddie Brock, seu simbionte e seu legado e sã eles que, mesmo afastados pelas três edições do miolo, ganham o devido destaque, sem que a saga se perca em linhas narrativa paralelas que não levam a lugar nenhum.

E ajuda muito o simples fato de que Ryan Stegman, que vem acompanhando Cates desde o começo, seja o desenhista aqui também. Tenho alguns problemas com a forma como ele desenha rostos em close-up, por vezes deformando demais os personagens, mas ele, ao longo dos anos, mostrou-se um mestre em organizar a bagunça infernal que os roteiros de Cates exigem. Seu trabalho, aqui, consegue ser melhor do que em Carnificina Absoluta, pois, como Cates foi mais cuidadoso, Stegman também pareceu seguir a mesma linha criando belíssimas e poderosas páginas inteiras e páginas duplas que estão lá ostensivamente para agradar os leitores, mas sem que elas sejam apenas isso. Há uma boa integração narrativa e um excelente trabalho imaginativo para lidar com Knull e suas formas maleáveis e para criar boas versões knulifficadas dos super-heróis, valendo especial destaque para o Homem de Ferro, que tem só sua armadura tomada por simbiontes.

Rei das Trevas é mais outra saga do tipo “o mundo está sendo atacado por criatura aparentemente invencível” que acaba revertendo para o estado anterior das coisas, com alterações pontuais apenas (especialmente, lógico, no que diz respeito a Brock), mas essa é a forma de se escrever sagas no momento atual das duas grandes editoras de quadrinhos. Elas são avessas a riscos e a modificações radicais, ainda que permitam brincadeiras em uma caixinha de areia confortável, não comprometedora. O diferencial é mesmo Cates que, em seu escracho total, em sua capacidade de multiplicar exponencialmente um fiapo narrativo e em sua capacidade de escrever bem, acaba entregando algo de verdadeira qualidade que, se não vai mudar a vida de ninguém – seja a dos personagens, seja a do leitor – pelo menos não deixará aquela impressão de tempo perdido.

Rei das Trevas (King in Black – EUA, 2020/21)
Contendo: King in Black #1 a 5
Roteiro: Donny Cates
Arte: Ryan Stegman
Arte-final: JP Mayer
Cores: Frank Martin
Letras: Clayton Cowles
Capas principais: Ryan Stegman, JP Mayer, Frank Martin
Editoria: Danny Khazem, Devin Lewis, Nick Lowe, C.B. Cebulski
Editora: Marvel Comics
Datas originais de publicação: 02 e 23 de dezembro de 2020, 20 de janeiro, 17 de fevereiro e 07 de abril de 2021
Páginas: 161

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