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Sagas Marvel | Rei das Trevas (King in Black)

por Ritter Fan
1009 views (a partir de agosto de 2020)

Já disse algumas vezes, mas não custa repetir: eu adoro as megalomanias de Donny Cates na Marvel Comics. Em comparativamente pouco tempo, o roteirista basicamente tomou conta da linha editorial da empresa ao pegar a mitologia de Venom, outrora um mero vilão do Homem-Aranha, e expandi-la a níveis cósmicos tão exagerados que chega a ser ridículo, mas no sentido bom da palavra, se é que me entendem. E o melhor é que dá para sentir que, em quase tudo que ele faz, há um plano maior por trás, com um cuidado com a escrita maior do que a média, o que volta e meia resulta em obras realmente espetaculares, como é o caso de Surfista Prateado: Escuridão.

Rei das Trevas é a culminação de tudo o que Cates fez com Venom desde meados de 2018, quando embarcou em seu ambicioso projeto com o arco Rex. Desde, então, o roteirista trabalhou o já mencionado Surfista, tomou de assalto a nova fase do Thor, escreveu o evento Carnificina Absoluta e continuou expandindo os horizontes da história do simbionte que o ingênuo Homem-Aranha achou que era um uniforme bacana lá atrás na longínqua e fraquíssima Guerras Secretas de 1984. Isso quer dizer que, na prática, se um leitor quiser ler apenas a nova saga, encontrará problemas de cara, pois ela foi mesmo construída para ser um clímax de uma revolução na vida de Eddie Brock, em que ele descobre a verdadeira origem do simbionte que se fundiu com ele, que tem um filho chamado Dylan e que o jovem herdou alguns poderes em razão dessa fusão. E a origem dos simbiontes é razoavelmente complexa, envolvendo uma entidade chamada Knull que, trocando em miúdos, representa o abismo de escuridão entre o universo anterior e o atual e que tem sede de destruição total para variar.

Por outro lado, a boa notícia é que, se o leitor conhecer pelo menos em pinceladas amplas o “Catesverso do Venom”, chamemos assim por um momento, não precisará verdadeiramente ler os infinitos tie-ins que cercam as cinco edições centrais de Rei das Trevas, pois o roteirista escreve uma história substancialmente autocontida que, para a compreensão exata da linha mestra, não exige qualquer leitura paralela. A grande verdade é que Cates preparou tão bem o terreno para a chegada de Knull à Terra – que é toda a premissa da saga – que ele conseguiu lidar com toda a história em apenas cinco edições, todas elas com um número bastante civilizado de páginas, resultando em uma aventura de proporções gigantescas, mas que não parece enrolar em momento algum, entregando algo mais eficiente que seu Carnificina Absoluta, ainda que seguindo o mesmo padrão narrativo.

Ou seja, em termos de progressão da história, não há surpresa alguma ou nada diferente do padrão atual de sagas e eventos mainstream do tipo. Há uma morte besta no início para “chocar” e chamar atenção dos leitores e deixar os sites dedicados a quadrinhos excitados (se é que alguém consegue ainda excitar-se com mortes em quadrinhos) seguido de todos os super-heróis devidamente venomizados (ou seria knullificados?), como é de praxe em HQs que lidam com variações de “infestações” e uma sucessão até engraçada de “entradas triunfais” dos mais diversos super-heróis sempre com aquele discurso na linha de “sigam-me, que eu sei o que fazer”, somente para ele ou ela se ferrar poucas páginas depois.

No entanto, no meio do padrão, no meio de toda a fórmula básica, há Donny Cates. E Donny Cates é um cara diferenciado em sua maluquice completa e em seus exageros insanos. Há um sentido, uma lógica em tudo o que ele faz e, melhor ainda do que isso, ele escreve bem mesmo quando basicamente faz seus personagens soltarem uma frase de efeito atrás da outra. É um escritor que, muito claramente, relê o que escreve incessantemente e parece realmente disposto a refazer o texto quantas vezes for necessário para ele ficar no ponto. Rei das Trevas pode não ser uma obra prima da Nona Arte – está bem longe de ser, na verdade -, mas é perceptível que quem guia a narrativa é um autor que se preocupa verdadeiramente com ela, sempre pensando diversas jogadas a frente e sempre trabalhando a história de maneira a manter o foco no que é realmente importante. E o que importa em Rei das Trevas é Eddie Brock, seu simbionte e seu legado e sã eles que, mesmo afastados pelas três edições do miolo, ganham o devido destaque, sem que a saga se perca em linhas narrativa paralelas que não levam a lugar nenhum.

E ajuda muito o simples fato de que Ryan Stegman, que vem acompanhando Cates desde o começo, seja o desenhista aqui também. Tenho alguns problemas com a forma como ele desenha rostos em close-up, por vezes deformando demais os personagens, mas ele, ao longo dos anos, mostrou-se um mestre em organizar a bagunça infernal que os roteiros de Cates exigem. Seu trabalho, aqui, consegue ser melhor do que em Carnificina Absoluta, pois, como Cates foi mais cuidadoso, Stegman também pareceu seguir a mesma linha criando belíssimas e poderosas páginas inteiras e páginas duplas que estão lá ostensivamente para agradar os leitores, mas sem que elas sejam apenas isso. Há uma boa integração narrativa e um excelente trabalho imaginativo para lidar com Knull e suas formas maleáveis e para criar boas versões knulifficadas dos super-heróis, valendo especial destaque para o Homem de Ferro, que tem só sua armadura tomada por simbiontes.

Rei das Trevas é mais outra saga do tipo “o mundo está sendo atacado por criatura aparentemente invencível” que acaba revertendo para o estado anterior das coisas, com alterações pontuais apenas (especialmente, lógico, no que diz respeito a Brock), mas essa é a forma de se escrever sagas no momento atual das duas grandes editoras de quadrinhos. Elas são avessas a riscos e a modificações radicais, ainda que permitam brincadeiras em uma caixinha de areia confortável, não comprometedora. O diferencial é mesmo Cates que, em seu escracho total, em sua capacidade de multiplicar exponencialmente um fiapo narrativo e em sua capacidade de escrever bem, acaba entregando algo de verdadeira qualidade que, se não vai mudar a vida de ninguém – seja a dos personagens, seja a do leitor – pelo menos não deixará aquela impressão de tempo perdido.

Rei das Trevas (King in Black – EUA, 2020/21)
Contendo: King in Black #1 a 5
Roteiro: Donny Cates
Arte: Ryan Stegman
Arte-final: JP Mayer
Cores: Frank Martin
Letras: Clayton Cowles
Capas principais: Ryan Stegman, JP Mayer, Frank Martin
Editoria: Danny Khazem, Devin Lewis, Nick Lowe, C.B. Cebulski
Editora: Marvel Comics
Datas originais de publicação: 02 e 23 de dezembro de 2020, 20 de janeiro, 17 de fevereiro e 07 de abril de 2021
Páginas: 161

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33 comentários

GENIO PLAYBOY E SAFADÃO VOLTOU 29 de abril de 2021 - 11:20

Eu só odeio o fato de ser mega saga, a marvel tá publicando 2 pra 3 megassagas por mês atualmente, da raiva.

Responder
planocritico 29 de abril de 2021 - 14:24

É, também não gosto disso não. Cansa. Mas é algo tão embrenhado na máquina de HQs da Marvel, que não tem mais jeito.

Abs,
Ritter.

Responder
Chinchila Cósmica 19 de abril de 2021 - 22:28

Ótima crítica.

Acho que a luta final, entre os dois personagens (Venom e Knull) deveria ter sido mais longa, e ele (Knull) parecia muito fraco contra o Venom como Capitão Universo. Eles deveriam ser de níveis iguais, mas parecia que esse Venom estava muito acima dele, e o Knull acabou não parecendo ser tudo isso.

Mas até que foi uma saga interessante.

Responder
planocritico 21 de abril de 2021 - 19:26

Obrigado!

Não senti falta de uma luta mais longa no final não. Mas entendo seu ponto!

Abs,
Ritter.

Responder
Chinchila Cósmica 19 de abril de 2021 - 18:28

Ótima crítica.

Acho que a luta final, entre os dois personagens (Venom e Knull) deveria ter sido mais longa, e ele (Knull) parecia muito fraco contra o Venom como Capitão Universo. Eles deveriam ser de níveis iguais, mas parecia que esse Venom estava muito acima dele, e o Knull acabou não parecendo ser tudo isso.

Mas até que foi uma saga interessante.

Responder
Pedro, o Homem Sem Medo 19 de abril de 2021 - 00:58

Ótima crítica, Ritter.
Gosto muito das suas análises, já que você não é daqueles saudosistas que dizem que todas HQs da atualidade são uma porcaria. A verdade é que eu acho que a Marvel está passando por uma ótima fase, desde a péssima All New All Different Marvel.

Responder
planocritico 19 de abril de 2021 - 03:15

Obrigado, @disqus_WaElVFHKrn:disqus ! Olha, eu adoro as coisas da “minha época”, mas ficar preso nela para sempre é um erro muito grande.

E eu concordo com você: a fase atual da Marvel (e, por atual, eu entendo que algo como pelo menos nos últimos três anos para cá) tem sido realmente muito boa no geral.

Abs,
Ritter.

Responder
Pedro, o Homem Sem Medo 20 de abril de 2021 - 16:17

Sim, a Marvel tem entregado ótimas histórias nos últimos três anos. É óbvio que também teve péssimas histórias, mas péssimas histórias sempre existiram e sempre existirão.

Responder
planocritico 20 de abril de 2021 - 17:36

Claro, mas faz parte mesmo ter péssimas histórias. O importante é ter boas e excelentes histórias para equilibrar.

Abs,
Ritter.

Responder
Wild Bill Hickup 15 de abril de 2021 - 20:12

Triste que infelizmente tem gente que não lê a história e tá achando ruim só porque os personagens da Marvel viraram simbiontes,tem um usuário chamado Luciano Silva que odiou o que o donny fez com venom,e a desculpa foi “ele estragou o vilão do homem aranha”.

Responder
planocritico 15 de abril de 2021 - 20:45

Uma pena mesmo. Para começar, o Venom já não era “vilão do Homem Aranha” há muito tempo, bem antes do Cates pegar o personagem. Segundo, ele não estragou nada. Ao contrário, ele deu significado ao personagem.

Abs,
Ritter.

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Starr-Lord 15 de abril de 2021 - 17:16

Eu gosto demais do Donny Cates e de como ele equilibra temas como vício e o elo familiar com as ameaças cada vez mais cósmicas, tanto que minhas obras favoritas dele são Surfista Prateado: Escuridão e God Country, mas também gosto do trabalho no Venom, especialmente por ter me feito dar a mínima para o Eddie. O único desses hospedeiros que gostava antes era o Flash Thompson por causa da fase do Rick Remender e felizmente o roteirista mudou isso com essa fase sensacional.

Me diverti demais lendo os vários momentos do Cates feitos para empolgar o leitor, especialmente a cena do Thor e a excelente conclusão. Não costumo ler essas sagas de quadrinhos faz um tempinho, acho que a última que li foi Carnificina Absoluta, mas King in Black foi uma ótima maluquice que nunca pareceu passar tempo demais para aumentar o número de vendas e teve até com um tie-in bem legal no título do Demolidor, porque não impediu tanto as ideias do Zdarsky. Enfim, ótima crítica e fico muito curioso para ver os planos futuros do Donny Cates. Como ele parece gostar de abordar laços familiares, eu adoraria uma contribuição dele para o Quarteto Fantástico.

Responder
planocritico 15 de abril de 2021 - 17:32

Que legal que você gostou! Ele realmente mandou bem aqui.

Já leu a fase do Thor do Cates? Está muitíssimo interessante!

E seria mesmo legal ele abordar o Quarteto Fantástico. Até eu talvez ficasse interessado naqueles quatro picolés de chuchu…

Abs,
Ritter.

Responder
Starr-Lord 15 de abril de 2021 - 22:48

Tenho lido esse arco mais recente envolvendo um personagem do passado e também achei muito bom, fora que a arte combina perfeitamente com essas histórias cósmicas. Cates é um sucessor a altura do Jason Aaron e olha que tenho um carinho enorme pela fase do último.

Não sei se leu esse arco que acabou na edição 14, mas tem um certo personagem que provou de vez que temos um gênio louco em vários dos títulos da Marvel, mas irei me aprofundar sobre isso mais no futuro. Ah, e eu gosto muito do Quarteto por causa da fase do Hickman, mas na maioria das vezes, eles não dão sorte mesmo, infelizmente.

Responder
planocritico 16 de abril de 2021 - 02:04

Sim, ele está continuando bem a fase épica do Aaron, ainda que tenha meio que revertido muita coisa que foi feita com o Thor.

Abs,
Ritter.

Responder
Pedro, o Homem Sem Medo 19 de abril de 2021 - 00:59

Um marvete que não gosta do Quarteto não é um marvete de verdade…kkkkkkkk

Responder
planocritico 19 de abril de 2021 - 03:13

Eu sei!!! Reconheço esse meu defeito e, sempre que posso, tento curá-lo…

Abs,
Ritter.

Responder
Pedro, o Homem Sem Medo 20 de abril de 2021 - 16:21

Leia a minissérie Quarteto Fantástico – Família Fundamental, a fase do John Byrne ou a fase do Jonathan Hickman. Duvido você não mudar de ideia. O Quarteto Fantástico é a pedra angular sobre a qual o universo Marvel foi fundamentado.

planocritico 20 de abril de 2021 - 18:08

Passei uns 15 anos da minha vida, entre as décadas de 70 e 80, lendo absolutamente tudo que era publicado da Marvel e DC no Brasil, o que, claro, incluiu muito Quarteto Fantástico dos mais variados autores, inclusive e especialmente Byrne. Continuo sem gostar muito, assim como não gosto muito do Superman. Não tem jeito.

Abs,
Ritter.

Lucas Casagrande 27 de abril de 2021 - 13:29

Quando não gosta não adianta, acho o Quarteto bem água de salsicha, não vejo graça nenhuma neles, até o Venom é mais legal hahahhaahhaa

Lucas Casagrande 27 de abril de 2021 - 17:29

Quando não gosta não adianta, acho o Quarteto bem água de salsicha, não vejo graça nenhuma neles, até o Venom é mais legal hahahhaahhaa

planocritico 27 de abril de 2021 - 18:14

Total água de salsicha…

Abs,
Ritter.

Lucas Casagrande 15 de abril de 2021 - 09:34

Longa vida a Donny Cates

A industria precisa de pessoas como ele, faz um bom massaveio como ninguém

Responder
JC 15 de abril de 2021 - 01:31

Tô acompanhando ele pela Panini, tô achando até agora…divertido.
hehehee

Responder
planocritico 15 de abril de 2021 - 01:44

Só divertido? Não está achando DIVERTIDO?

He, he, he…

Abs,
Ritter.

Responder
JC 23 de abril de 2021 - 20:23

ahahahahaha, divertidaZINHA ainda por cima hahahaahah

Imortal Hulk que estou simplesmente AMANDO. Que porra louca do cacete!!!!!!!!

Responder
planocritico 23 de abril de 2021 - 21:35

Ai, ai…

Mas eu tenho mesmo que voltar à Imortal Hulk!

Abs,
Ritter.

Responder
Luan Sousa 14 de abril de 2021 - 23:49

Sempre digo que o Donny Cates é o Scott Snyder que não se leva a sério.

Acho ele bem 8 ou 80. Não gosto muito do seu Thanos, acho seu Doutor Estranho mais ou menos, mas adoro o Venom e o Surfista Prateado dele. Acho inclusive que a palavra que mais representa o autor é expansivo, ele expande os universos conhecidos dos personagens, mas também é expansivo num nível de roteiro mesmo, não tendo medo de fazer sagas que vão ser “A MAIOR HISTÓRIA DA MARVEL ATÉ QUE A PRÓXIMA MAIOR HISTÓRIA DA MARVEL ACONTEÇA”.

Li recentemente o arco que antecede o Rei das Trevas, Venom Beyond, e achei o fino do fino, amarrando as pontas soltas do Eddie e do filho com a Annie. Infelizmente eu não acho que um raio vá cair duas vezes no mesmo lugar com Venom e acho que qualquer autor que pegar o personagem agora vai sofrer pra fazer algo tão bom quanto suas histórias com o personagem.

Responder
planocritico 15 de abril de 2021 - 00:00

Eu te entendo. Mas até agora só li coisas do Donny Cates mais para o 80 do que para o 8, he, he, he…

Mas ele é bem assim mesmo, um autor expansivo que não tem vergonha alguma de exagerar e esticar os limites da imaginação. Também acho que será bem difícil alguém pegar o Venom agora e fazer algo significativo…

Abs,
Ritter.

Responder
Davi Lima 14 de abril de 2021 - 21:33

Nossa! Me convenceu! Adoro quando a Marvel libera uma ala deles para esses trabalhos “independentes”, ou autorais. Ainda mais kkkk, usando o símbolo do Aranha aí. Mds!

Responder
planocritico 14 de abril de 2021 - 21:34

O Donny Cates é um maluco do bem. O cara só pensa em escala universal e manda ver sem pena. Divertido demais.

Tomara que goste.

Abs,
Ritter.

Responder

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