Crítica | Antônia

O cinema brasileiro sempre teve interesse pelos “excluídos”. Cidade de Deus, Carandiru, Última Parada 174 exemplificam, além da análise social de Nelson Pereira dos Santos em Rio, 40 Graus e Rio, Zona Norte, dentre tantas produções documentais e ficcionais sobre existências que trafegam pela vida em luta constante com a relação assimétrica entre a elite privilegiada e os silenciados ao longo da história da nação brasileira, “comunidade imaginada” que se ergueu com base na colonização errônea dos portugueses.

São muitas as narrativas que ilustram as mazelas da população pobre das favelas e da periferia dos quatro cantos do Brasil. Antônia, lançado em 2006, é uma das histórias edificantes que exploram esse universo. O resultado é aceitável, apesar de alguns pormenores narrativos que prejudicam o filme. Ao longo de seus 90 minutos, o filme é didático ao delinear questões de gênero em espaços que geralmente são apresentados numa perspectiva masculina no que tange ao protagonismo, a história emociona e demonstra como a questão do preconceito e da exclusão é ainda muito contemporânea, uma celeuma brasileira longe de ser regularizada.

Dirigido por Tata Amaral, cineasta constantemente preocupada com questões de gênero, também responsável pelo roteiro, em parceria com o escritor Roberto Moreira, Antônia expõe estilhaços dos universos de quatro jovens em busca de uma vida digna. Por dignidade, leia-se: ser respeitada ao fazer música na favela, atuar com hip-hop, gênero musical geralmente vinculado ao “masculino” como agente autoral. Na história, conferimos a união de Preta (Negra Li), Lena (Cindy Mendes), Barbarah (Leilah Moreno) e Maya (Quelyna), jovens negras de Brasilândia, zona periférica de São Paulo.

Com uma lista de problemas enorme para refletir, tais como gravidez, maridos infiéis e autoritários, violência e preconceito social, fome e habitação, dentre outras questões que acometem o quarteto protagonista, a cineasta precisa ser muito ágil ao abordar cada elemento que surge dos conflitos do roteiro, o que torna a sua tarefa hercúlea e em alguns momentos, relativamente bem sucedida, caso não enumeremos os problemas narrativos que não chegam a atrapalhar o desenvolvimento da história.

Narrado em off em alguns trechos, o filme revela o cotidiano sofrido, mas esperançoso das personagens. Como sabemos pela divulgação na época, a narrativa funciona como uma espécie de piloto, pois conflitos e situações passageiras, tal como a mãe de uma das garotas, interpretada por Sandra de Sá, desenvolve-se depois na versão televisiva, numa demonstração do constante consórcio entre TV e Cinema no Brasil, independente do ponto de partida e da chegada, pois ambos estão imbricados na produção mainstream contemporânea.

Tecnicamente, a narrativa é conectada ao estilo documental. A direção de fotografia de Jacob Solitrenick faz seus milagres ao atravessar becos, vielas e escadarias íngremes trafegadas pelas personagens em suas jornadas diárias. A direção de arte de Rafael Ronconi é outro ponto forte, pois consegue emular as necessidades dramáticas das personagens e seus perfis por meio de objetos e cores bem selecionados. A trilha, assinada por Beto Villares, como não podia deixar de ser num filme com essa premissa, é bem conduzida, adorno para a edição cuidadosa e dinâmica Idê Lacreta.

Salvas as devidas proporções, Antônia é como Sex And The City, um quarteto de mulheres em busca de alcance das metas estabelecidas em seus sonhos. No entanto, diferente das necessidades das personagens brancas estadunidenses, isto é, mulheres bem sucedidas financeiramente, consumistas e constantemente questionadoras, privilegiadas dentro de um determinado ponto de vista, as jovens negras da narrativa brasileira lutam para ter acesso, direito e manutenção do básico, ou seja, comer, beber e viver, além do exercício de suas respectivas cidadanias, numa trajetória cheia de obstáculos.

Antônia — Brasil, 2006.
Direção: Tata Amaral
Roteiro: Tata Amaral, Roberto Moreira
Elenco:  Leila Moreno, Nathalye Cris, Negra Li, Sandra de Sá, Thaíde, Thobias da Vai-Vai, Negro Rico, Camau, Adielson Bonam,
Duração: 90 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.