Crítica | John Wick: Um Novo Dia Para Matar

john-wick-2-plano-critico

estrelas 4,5

Os últimos anos não foram muito bons para o cinema de ação. Ainda que tenhamos ótimos exemplares, como Mad Max: Estrada da Fúria, o gênero se tornou refém de diretores que insistem em trazer sequências picotadas ao máximo, preenchidas por câmeras tremidas que não nos permitem entender qualquer coisa do que ocorre em tela. Para piorar, os roteiros procuram desenvolver toda a história ao redor de feitos inimagináveis e impossíveis, do tipo “e se eles fossem perseguidos por um submarino?”, sem se preocupar nem um pouco com o desenvolvimento de seus personagens – e antes que alguém venha falar que filmes de ação sempre foram assim, recomendo que assistam os dois primeiros filmes de O Exterminador do Futuro ou Cassino Royale, uma das exceções da contemporaneidade. Felizmente, uma vez ou outra somos positivamente surpreendidos e esse é o caso de John Wick: Um Novo Dia Para Matar, que apenas melhora a fórmula de seu antecessor.

Retornam Chad Stahelski e Derek Kolstad, que assinam, respectivamente, a direção e o roteiro da obra, em uma trama que sabe expandir a mitologia criada em De Volta ao Jogo. A projeção tem início com um prólogo que funciona, também, como epílogo do filme anterior. John Wick (Keanu Reeves) vai atrás de seu carro roubado e, no processo, acaba com todos os capangas do tio do rapaz nada sensato que ousara roubar do bicho-papão. Mal sabia ele, contudo, que sua aposentadoria seria novamente revogada graças a uma missão que fora forçado a executar por Santino D’Antonio (Riccardo Scamarcio), que fora até a casa do ex-assassino profissional para cobrar uma promessa.

Durante os primeiros minutos do filme, realmente acreditamos que ele não será mais nada mais que uma repetição do anterior. Ainda que todo o trecho de abertura já demonstre o que diferencia John Wick dos outros filmes de ação da atualidade, o puro copiar e colar” dificilmente é bem vindo. Felizmente, o roteiro de Kolstad mostra ao que veio logo cedo, utiliza a forçada saída da aposentadoria de Wick apenas como estopim para todos os eventos seguintes. Enquanto De Volta ao Jogo fora uma obra de vingança, sua continuação vai além disso, se transforma em uma frenética luta por sobrevivência.

Essa luta permanece como uma noção constante para nós, espectadores. Logo nos primeiros minutos já vemos o protagonista sendo golpeado, atropelado, jogado de um lado para o outro, esfaqueado, dentre outras coisas. Wick não conta com aquela invulnerabilidade típica de James Bond, que, depois de tudo, só precisa ajeitar a gravata – ele realmente se machuca (para dizer o mínimo) em um filme que sentimos cada morte ou ferimento. O que torna o personagem quase imortal é o simples fato dele ser o melhor no que faz, algo construído desde o primeiro filme através não só do que vemos em tela, como das histórias contadas por outros sobre ele.

O texto de Kolstad ainda brinca com essa questão inúmeras vezes, insere a potencial dúvida de tais histórias serem apenas lendas sem fundamento, até vermos em tela ele fazendo exatamente as mesmas coisas, como matar dois sujeitos usando apenas um lápis. Aqui entramos em outro diferencial de Um Novo Dia Para Matar: ao contrário da grande maioria dos filmes de ação, que apenas jogam balas para cá, tiros para lá e explosões a torto e direita, a obra diferencia cada sequência uma da outra, cada “porradaria”, tiroteio e morte é única, tornando a violência um verdadeiro espetáculo, no qual nos pegamos realmente torcendo para que o protagonista saia por cima.

Evidente que de nada adiantaria tudo isso se caíssemos no velho problema das sequências picotadas e câmera tremida. Felizmente, Chad Stahelski segue pelo caminho oposto, nos entregando cenas verdadeiramente deliciosas de se assistir, com planos mais longos, que fazem uso de movimentos cuidadosos, que não pecam por ser rápidos demais. Ao manter o foco quase que única e exclusivamente em Wick, o diretor consegue inserir uma grande dose de imprevisibilidade no longa – em momento algum sabemos quando o próximo ataque irá ocorrer, o que mantém a tensão como uma constante durante toda a projeção, algo que é atrapalhado brevemente pelo final prolongado, mas nada que prejudique muito nossa percepção da obra como um todo.

Mas não é só de ação pura que o filme é formado. Temos aqui um nítido aprofundamento da mitologia introduzida no seu antecessor, explorando mais essa sociedade de assassinos profissionais. O mais interessante é como cada um dos personagens trata as diferentes questões desse universo ficcional como se fossem a coisa mais normal do mundo, o que apenas torna o personagem de John Wick mais interessante. Podemos contar nos dedos quantas falas Reeves tem no filme, mas o que nos chama a atenção de imediato é o quanto seu personagem soa desconfortável em ter de voltar para aquela vida. Claro que cada assassinato é realizado de maneira quase cirúrgica, mas quando ele está no meio de ambientes comuns dessa organização sentimos claramente que ele não gostaria de estar ali – pontos para a linguagem corporal do ator.

Com tantos acertos, fica difícil não gostar de John Wick: Um Novo Dia Para Matar. Temos aqui um filme que nada na corrente contrária à grande maioria dos outros exemplares mais recentes do gênero. Uma obra que não tem medo de trabalhar sua mitologia própria, intercalando os poucos momentos de tranquilidade com sequências de ação magistralmente conduzidas, que tornam esse um longa-metragem sobre como se fazer um filme de ação.

John Wick: Um Novo Dia Para Matar (John Wick: Chapter 2) — EUA, 2017
Direção:
 Chad Stahelski
Roteiro: Derek Kolstad
Elenco: Keanu Reeves, Riccardo Scamarcio, Ian McShane, Ruby Rose, Common, Claudia Gerini, Lance Reddick, Laurence Fishburne, Tobias Segal, John Leguizamo
Duração: 122 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.