Crítica | Julieta dos Espíritos

estrelas 4

Julieta dos Espíritos é o primeiro longa metragem de Fellini a cores. E o resultado foi algo extremamente colorido e alegórico, talvez o mais “felliniesco” dos filmes do diretor italiano. Não é, porém, uma obra que agradará a todos, assim como não agradou quando foi lançada, já que foi o primeiro grande filme do diretor a ser recusado pelos festivais, estreando diretamente em circuito comercial normal.

Trazendo de volta sua esposa Giulietta Masina no papel principal que, não por coincidência, tem primeiro nome idêntico de sua personagem, a fita narra a história de uma mulher reprimida pelas circunstâncias de seu casamento lutando para encontrar uma saída para tudo. Mas essas “circunstâncias do casamento” não são as que mais facilmente nos vêm à cabeça. Julieta Boldrini é da classe média alta italiana e vive em uma casa de bonecas, cercada de empregados e com todo luxo possível. Ela é dona de casa e vive literalmente à disposição do marido, querendo sempre agradá-lo. Em determinado momento, em conversa com sua vizinha Suzy (Sandra Milo, que também faz a voz incorpórea de Iris – mais sobre isso depois), Julieta deixa claro que não só Giorgio (Mario Pisu) foi seu primeiro homem como ela sente que nasceu para ficar com ele o resto da vida.

Mas o que acontece quando ela desconfia que Giorgio a trai? É envolta nessa dúvida – que depois vira certeza – que Giulietta começa uma jornada de auto-conhecimento que a levará à emancipação, à independência e, provavelmente (é uma possibilidade interpretativa), à solidão.

Nesse trajeto, vemos Julieta “sem vê-la” em uma saborosa sequência inicial em que Fellini trabalha as câmeras de forma que não vejamos o rosto da atriz. É um jogo de cortes e de espelhos sensacional que consegue prender o espectador à tela enquanto a personagem troca de roupa e de peruca esperando o marido para comemorar o aniversário de casamento dos dois que, claro, ele esquecera. Quando vemos finalmente o rosto dela, é um misto de surpresa e tristeza e também conformidade que acompanhará Giulietta quase até o final.

Crédula, Julieta recorre à espiritualidade fazendo, com convidados, uma sessão espírita que lembra a de A Doce Vida. É nessa sessão que ela passa a ouvir a voz de Íris, um espírito que a provoca a tomar atitude com sua vida pacata e submissa. É também, o “Grilo Falante” de Pinóquio, sua consciência levando-a tomar decisões estranhas à sua personalidade. É é interessante que a voz desencarnada de Íris seja a voz de Suzy, sua fogosa e voluptuosa vizinha cujas roupas, atitudes e casa (com cama redonda, lençóis de cetim e tobogã para uma piscina no quarto!) que claramente nos levam a crer que é uma prostituta ou, ao menos, alguém que, na mente recatada de Julieta, seria uma prostituta idealizada.

E a mente de Julieta é um componente essencial ao filme, pois é a partir do que ela vê – ou acha que vê – que nós assistimos, também, o festival de bizarrices que Fellini coloca na tela, trabalhando muito bem cores fortes (especialmente as cores da bandeira da Itália, vermelho, verde e branco) e efeitos especiais óticos e práticos. O design da casa de Suzy é especialmente intrigante, lembrando muito Calígula, de 1979 (na verdade, claro, Calígula é que talvez lembre Julieta dos Espíritos, mas isso não importa).

O contraste de Julieta com sua mãe (Caterina Borato) e irmã também é muito interessante. As duas são bonitas, deslumbrantes mesmo, enquanto que Julieta é Giulietta Masina, aquela mulher baixinha, simpática, com olhos tristes e inocentes, que é longe de ser bela fisicamente. As sobrinhas de Julieta são angelicais, dois verdadeiros querubins que funcionam também fortemente para trabalhar o contraste com a casa-bordel que vemos em seguida.

No entanto, apesar de visualmente arrebatador, com outra excelente atuação de Masina, Julieta dos Espíritos, ao longo de seus 137 minutos, é um filme longo demais e que repete seu tema central – e único – à exaustão. Em comparação, por exemplo, A Doce Vida, que é aproximadamente 40 minutos mais longo, transcorre muito mais fluidamente ao abordar de forma episódica diversas situações costuradas pela presença de Marcello Rubini (Marcello Mastroiani). Em Julieta dos Espíritos, o mundo multi-colorido da protagonista esbarra na barreira monocromática de sua busca pela emancipação e isso acaba freando o desenvolvimento da obra.

Em determinado momento, Fellini, ao tentar montar uma história com começo, meio e fim, coloca Julieta perante detetives particulares para investigar seu marido. Toda essa sequência e as sequências que seguem sobre esse aspecto são, em última análise, desnecessárias. Não precisamos – e Julieta certamente também não – ter provas cabais dessa infidelidade. Aliás, nem mesmo a infidelidade em si é importante no filme, pois o que importa é a relação de dominação do marido sobre a esposa que Julieta tem que vencer, se desvencilhar.

E esse marido é interessante, pois, dizem, o filme foi feito por Fellini em homenagem à sua esposa, mas o que fica evidente durante a projeção é que Giorgio é, de certa forma e mais uma vez, o próprio Fellini. Dessa vez, porém, é um Fellini caricato, cheio de si e embebido no sucesso, exatamente como Fellini devia se sentir à época da produção. Se é um auto-retrato e um pedido de “desculpas” à sua esposa, então o diretor merece aplausos de pé pela coragem em inserir-se na película dessa forma.

Apesar dos exageros, Julieta dos Espíritos é um ótimo filme que, pelo seu esoterismo e tamanho, provavelmente fará com que muitos torçam o nariz. Mas que ele demonstra – mais uma vez – que Fellini tinha o domínio de sua arte, ah isso demonstra!

Julieta dos Espíritos (Giulietta degli Spiriti, Itália/França, 1965)
Direção: Federico Fellini
Roteiro: Federico Fellini, Tullio, Pinelli, Ennio Flaiano, Brunello Rondi
Elenco: Giulietta Masina, Sandra Milo, Mario Pisu, Valentina Cortese, Valeska Gert, José Luis de Viallonga, Friedrich von Ledebur, Caterina Boratto, Lou Gilbert, Luisa Della Noce, Silvana Jachino, Milena Vukotic, Fred Williams
Duração: 137 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.