Crítica | The Walking Dead – 5X12: Remember

estrelas 4

Obs: Há spoilers do episódio e da série. 

Remember tem todos os elementos de um recomeço. Casa nova, roupa nova, banho tomado, barba feita, comida na barriga e novos rostos. E, de certa forma é, pelo menos para nós, espectadores, que ganhamos mais material para trabalhar nosso imaginário.

Mas, lá no fundo, não é. Rick deixa isso muito claro com sua última frase, em conversa noturna com Daryl e Carol. Rick, novamente com sua aparência original lá da primeira temporada (rosto barbeado, cabelo cortado), diz aos dois que, se as coisas não derem certo, eles simples vão “tomar” a aparentemente pacífica comunidade de Alexandria. Simples. Objetivo. Sem deixar margem à dúvidas.

E Rick e seu grupo definitivamente têm esse poder. Eles sabem que os habitantes são fracos, pouquíssimo treinados e que, em sua maioria, nunca tiveram que sobreviver muito tempo do lado de fora da fortaleza autossuficiente repleta de confortáveis mansões onde vivem. Em outras palavras, são pessoas “normais” ainda. Se isso não tivesse ficado evidente pela conversa – ou melhor, entrevista filmada – de Rick com a líder local, Deanna Monroe (Tovah Feldshuh), o roteiro de Channing Powell faz ficar abundantemente claro na breve expedição ao lado de fora liderada pelo arrogante Aiden Monroe (Daniel Bonjour), tendo Glenn, Tara e Noah como “novatos em teste”. O desastre é evitado somente para mostrar que Aiden, em tese o mais bem preparado de Alexandria, não passa de um bobalhão mimado que Glenn derruba com um soco.

Mas o final com Rick e sua frase sinistra de certa forma era esperado (e não só pelos leitores dos quadrinhos, vale dizer). Afinal, a estrutura do roteiro é toda positiva, com a demonstração do quão idílica parece ser a pequena cidade. Tudo é perfeito. Todos se ajudam. Um verdadeiro paraíso na terra dos zumbis e canibais. Nós sabemos que aquilo não é a realidade, mas sim uma estrutura precária que está fadada ao fracasso. E não, não estou contando spoiler algum. É uma simples questão de lógica: a série não tem como continuar mostrando Rick e seu grupo reconstruindo a humanidade sem que alguma desgraça se abata mais cedo ou mais tarde no local. Pode não ser agora ou mesmo nessa temporada (mas aposto que será), mas o furacão inclemente virá e, junto com ele, muito sangue será derramado.

Enquanto, porém, o lobo mau não assopra a casa de tijolos do porquinho Heitor, podemos ver um semblante de civilização, algo que não vislumbrávamos desde tempos imemoriais na série, se é que algum dia houve (bem, houve, na fazenda de Hershel, se estou bem lembrado). O grupo está ressabiado, dorme junto, apesar de duas casas terem sido oferecidas, mas, aos poucos, eles vão amolecendo. O episódio, claro, por precisar introduzir novos personagens – Deanna e Aiden, mas também as crianças Ron e Enid e Jessie, mãe de Ron – não tem tempo de trabalhar todo o grupo de sobreviventes e foca em Rick e toda sua relutância, Carl e seu amadurecimento rápido demais que o impede de relaxar e viver a vida, preocupando-se, na verdade, com a manutenção da “força” do grupo, Michonne, que deixa sua barreira de frieza ruir um pouco para acalentar o sonho de viver em segurança e Carol e Daryl.

Esses últimos dois ganham tratamentos quase que opostos, mas desconfio que se trata de disfarce de um deles, Carol. Desde o momento em que ela entrega sua gigantesca arma, ela se mostra sorridente, desengonçada e literalmente assimilada, com direito a roupinha cheirosa e passarinhos cantarolando (ok, estou exagerando, não tem os passarinhos). Ela reverteu ao seu status quo quando ainda era casada e tinha uma filha? Tenho para mim, muito sinceramente, que não. Carol parece estar vestindo uma fantasia e vivendo a vida que os habitantes de Alexandria esperam dela (e dos outros). Em meu livro, ela é quase que uma espiã infiltrada nas linhas inimigas. Se estou certo, descobriremos provavelmente em breve.

E então temos Daryl. De um caipiria violento, ele se tornou um dos mais heroicos e equilibrados do grupo de Rick, com ótimo desenvolvimento de personagem ao longo das temporadas. Ele achou o equilíbrio exato entre quem ele realmente é e o que ele gostaria de ser. Ao entrar em Alexandria, Daryl é o proverbial peixe fora d’água. Ele não sabe mais viver em sociedade. Ele se sente incomodado com seus arredores limpos e felizes. Nem banho ele toma e continua eviscerando animais, empunhando sua besta e dormindo na varanda. O animal selvagem está enjaulado, metáfora essa explicitamente usada por Greg Nicotero na sequência em que Daryl ajuda Glenn a derrubar o amigo de Aiden no breve percalço que ocorre na comunidade. Rick o puxa e fica na frente de Daryl, de costas para ele. Daryl, como um tigre enraivecido em sua jaula, anda de um lado para o outro, com Rick sendo literalmente as grades da prisão que o impede de dar o bote assassino.

Esse é um momento brilhante do roteiro, ajudado pela sempre eficiente direção de Nicotero, que volta para dirigir seu segundo episódio nessa última metade da 5ª temporada (o outro foi o sensacional What Happened and What’s Going On). Outra sequência impressionante, novamente um show de fotografia noturna, uma marca definitiva dessa temporada, é o passeio noturno de Rick em que ele conhece Pete (Corey Brill), envolto em sombras, claramente prenunciando algo ruim.

Como disse, Remember é um episódio de reconstrução, de recomeço para nós e “continuidade em outro ambiente” para Rick. As rivalidades intramuros já foram reveladas – potencialmente Aiden e Pete – restando-nos saber como elas se desenrolarão. Mas também pelo menos dois mistérios foram acrescentados: quem pegou a arma que Rick escondera em um copo de liquidificador perto de uma cabana do lado de fora e o que exatamente Enid foi fazer em seu passeio secreto? Ah, claro, como poderia esquecer o maior mistério de todos: onde diabos está Morgan, que nunca mais deu as caras?

Bem, faltam apenas quatro episódios para o encerramento da temporada. Há muito chão para ser percorrido e minha suspeita é que há ainda muita coisa nova a ser colocada no prato do imberbe, mas ainda muito desconfiado Rick.

The Walking Dead – 5X12: Remember (Idem, EUA – 2015)
Showrunner: Scott M. Gimple
Direção: Greg Nicotero
Roteiro: Channing Powell
Elenco: Andrew Lincoln, Norman Reedus, Steven Yeun, Lauren Cohan, Chandler Riggs, Danai Gurira, Melissa McBride, Michael Cudlitz, Sonequa Martin-Green, Josh McDermitt, Christian Serratos, Alanna Masterson, Seth Gilliam, Tyler James Williams, Ross Marquand, Jordan Woods-Robinson, Austin Abrams, Katelyn Naco, Tovah Feldshuh, Alexandra Breckenridge, Corey Brill
Duração: 43 min. (aprox.)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.