Crítica | O Cinema de Quentin Tarantino, de Mauro Baptista

Tarantino é o cineasta da “pulsão de cinema compartilhada”. O termo, descrito pelo professor e pesquisador Mauro Baptista é mais que adequado. Em O Cinema de Tarantino, reescrita de sua tese de doutorado, ele expõe porque o cineasta é um dos nomes mais interessantes da contemporaneidade. A expressão, bastante significativa, delineia a estratégia do realizador em esparramar cinefilia a cada canto dos seus enquadramentos, num festival de êxtase e emoção, oriundo de um gosto sem preconceito pelo cinema, com referências aos filmes que a crítica geralmente relega ao limbo do bom gosto.

Veiculado pela Editora Papirus, O Cinema de Tarantino é um livro bem “a cara” do artista analisado. Cabe ressaltar, desde já, o caráter informativo e analítico da publicação, longe das estratégias do texto essencialmente biográfico. Indo de 1992 ao que ele considera a obra-prima do cineasta, Bastardos Inglórios, de 2009, Mauro Baptista apresenta ao público um livro de breves, mas elucidativas 143 páginas. Doutor em Cinema pela USP, inseriu a sua obra na Coleção Campo Imagético, espaço de prestígio na seara da reflexão e produção cinematográfica brasileira. Dividido em cinco capítulos, antecedidos pelo prefácio de Fernão Ramos, é uma abordagem que vai além da análise conteudista e estética, num trabalho que dialoga com o campo da recepção.

Seu prefaciador, desde as primeiras linhas, reforça isso, alegando que a inserção da teoria política dos autores e a condução teórica não atrapalham, em sua visão, neste caso, com todo respeito, questionável, a interação com todos os públicos. Não é. O Cinema de Tarantino é a porta de entrada, com classe e pompa, do cineasta no mundo acadêmico que adora idealizações e ressalvas. É um livro para ser lido e contemplado por quem tem paciência e gás para a linguagem acadêmica, cheia de seus maneirismos e estruturas fixadas por regras para citações, etc. Como direi mais adiante, não atrapalham ou sequer desmerecem o excelente conteúdo, neste caso, apenas um pouco restrito para determinado nicho de consumidores de cultura.

No que tange aos aspectos históricos do cinema, Mauro Baptista passeia por diversos períodos, sem deixar de contemplar tópicos basilares para a compreensão de Tarantino: o cinema clássico estadunidense, em especial, os anos 1940 e 1950, com recorte cativo para Howard Hawks, além da análise comparativa com a fase inicial de Jean-Luc Godard, com o western de Sergio Leone, com os filmes de artes marciais e exploitations dos anos 1970. A abordagem tenta escapar do tecnicismo e deixar o texto fluir para públicos que não circulam os feudos do território acadêmico, tarefa cumprida parcialmente, pois a escrita do autor exala ABNT e outras padronizações que poderiam ser relativizadas e transformadas, mas não é nada, no entanto, que venha a estragar a leitura cheia de informações e interpretações valiosas.

Com projeto editorial da DPG Editora e capa bem ao estilo Cães de Aluguel, assinada por Fernando Cornacchia, O Cinema de Tarantino é traz os seguintes capítulos: O Cinema Pós-Moderno de Quentin Tarantino: Cenas do Cotidiano, Atrações e Jogo; Narrativa e Palavra em Cães de Aluguel; Pulp Fiction: O Acaso e Inversão das Convenções de Gênero; Maturidade e Tempo em Jackie BrownKill Bill Vol.1 e 2, À Prova de Morte e Bastardos Inglórios: A Consolidação de Um Mestre do Cinema. Há a introdução e a conclusão, textos importantes no cumprimento dos requisitos estruturais da publicação, oportunidade para inserção de coisas que não transbordaram nas análises dos capítulos.

Assim, ao longo do livro, Mauro Baptista percorre a carreira do cineasta, dos roteiros aos filmes, para apontar, no desfecho, que Tarantino é dono de um projeto de “cinema pós-moderno para o futuro do século XXI”. Interessante aguardar uma nova edição, afinal, o material de 2010 não contemplou o polêmico e esteticamente primoroso Django Livre, tampouco a aberração chamada Os Oito Odiados, aquele tipo de filme que parece ter sido realizado para cumprir uma obrigação de contrato, algo ainda mais irritante quando sabemos que não se trata disso, mas de uma mancada de alguém que trabalha certo desde sempre. Erra é humano, não dizem por ai?

O Cinema de Tarantino (Brasil, 2010)
Autor: Mauro Baptista
Editora: Papirus
Páginas: 145

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.