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Crítica | O Escândalo (2019)

por Michel Gutwilen
650 views (a partir de agosto de 2020)

Entendo que, à primeira vista, o simples fato de um filme ter alguma mensagem negativa contra algum tipo de discriminação já seja o suficiente para muitos. Todavia, um crítico jamais pode esquecer que no cinema, juntamente com o conteúdo, a forma na qual uma história é contada é essencial. Infelizmente, O Escândalo (Bombshell) possui um problema incurável de forma.

O filme dirigido por Jay Roach (franquia Austin Powers) dramatiza os acontecimentos reais que levaram à demissão de Roger Ailes (John Lithgow, Pet Sematary), CEO da Fox News, após a denúncia de abuso sexual por diversas funcionárias. Assim, O Escândalo é contado a partir de 3 pontos de vista: o de Megyn Kelly (Charlize Theron, Mad Max – Estrada da Fúria) e Gretchen Carlson (Nicole Kidman, Aquaman), jornalistas reais; e o de Kayla Pospisil (Margot Robbie, Esquadrão Suicida), personagem inventada para a história.

O primeiro (e grande) problema do filme é que ele opta por seguir a cartilha de direção Adam McKay — que fez sucesso com A Grande Aposta e Vice além de pegar elementos de O Lobo de Wall Street, de Martin Scorsese. Com quebras de quarta parede, narrações em off didáticas, uma montagem frenética e zooms aleatórios, percebe-se esta tentativa de aproximar a abordagem de um caráter documental descontraído. 

Todavia, fico com a impressão que as pessoas envolvidas no processo criativo de O Escândalo simplesmente olharam um método que estava fazendo sucesso e resolveram fazer uma emulação automática, sem ao menos se questionar como isso se encaixaria dentro da história que eles queriam contar. 

Afinal, nos filmes anteriores vemos a ascensão de figuras polêmicas (Dick Cheney e Jordan Belfort) e o surgimento de um fenômeno como o crash da Bolsa, a partir de um humor absurdista. Todavia, o que aconteceu com Megyn Kelly, Gretchen Carlson e outras dezenas de mulheres não é uma comédia. Tampouco, Roger Ailes é apenas um homem “polêmico”.

Não só estamos falando de uma abordagem equivocada, como ela é mais do que isso. Ela é desrespeitosa e anula qualquer potencial dramático que o filme busca ter. Com aquelas aproximações da câmera enquanto as personagens discursavam, um efeito cômico-visual é gerado e parecia que eu estava assistindo a um episódio de The Office. Logo, não há menor harmonia entre o conteúdo sendo exposto e aquele formato de paródia, gerando uma grande contradição.

O Escândalo possui sérios problemas desde o momento em que foi concebido. Ao longo do filme, o fato de que o roteiro foi escrito (Charles Randolph) e dirigido (Jay Roach) por homens vai ficando claro. Existe uma certa satirização no modo como Roger Alies é retratado que faz com que ele pareça uma figura extremamente caricata. Existem até momentos cômicos no qual o personagem é extremamente paranoico com conspirações e também está sempre comendo. Essa simplificação do personagem acaba dando a entender que suas atitudes sexualmente abusivas são apenas mais uma maluquice sua, tratamento que é extremamente perigoso e problemático.

De mesma maneira, em uma cena crucial para o longa, a personagem de Margot é coagida por Alies para que mostre sua calcinha. Este momento acaba sendo muito revelador da enorme contradição que é esse filme. A própria figura da atriz no meio de Hollywood sempre foi vista, infelizmente, com muita sexualização, e Roach continua este estigma. Suas lentes nos colocam no ponto-de-vista do abusador e vemos aquele assédio de uma maneira quase voyeurística.

Aliás, não sou de comentar experiências que ocorrem dentro de uma sessão de cinema, como a crítica Pauline Kael tinha costume. No entanto, é muito curioso que, em uma cena que deveria ser a mais tocante do longa, toda a sua condução é sugerida inadequadamente como uma comédia. Assim, o público, que se vê envolvido e manipulado pela comédia de O Escândalo, dá uma enorme gargalhada quando duas personagens estão conversando sobre o abuso sexual.

De todos os personagens, os de Margot Robbie e John Lithgow são os mais prejudicados pelo tom do filme, indo muitas vezes para o tom caricatural e unidimensional. Por outro lado, até que a dupla se sai muito bem dentro desta dinâmica antagônica entre a inocência e a perversão, algo que fica contrastado muito bem na cena do assédio. Já Charlize Theron e Nicole Kidman estão muito mais sóbrias e parecem ser as únicas abordadas de um jeito mais sério. Uma sororidade invisível muito forte é sentida em suas personagens.

No fim, não deixa de ser irônico que enquanto O Escândalo fala sobre mulheres que são reféns do silêncio com o receio de perderem seu emprego, acaba sendo um filme que é um próprio refém de um sub-gênero de sucesso hollywoodiano.

O Escândalo (Bombshell) – Estados Unidos, 2019
Direção: Jay Roach
Roteiro: Charles Randolph
Elenco: Charlize Theron, Nicole Kidman, Margot Robbie, John Lithgow, Allison Janney, Malcolm McDowell, Kate McKinnon, Connie Britton, Liv Hewson, Brigette Lundy-Paine, Rob Delaney, Mark Duplass, Stephen Root, Robin Weigert, Amy Landecker, D’Arcy Carden
Duração: 108 min.

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15 comentários

Alexandre Marcello de Figueire 14 de outubro de 2020 - 20:45

Não é “horrível” como diz a crítica. É bem melhor do que isso.

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Cleibsom Carlos 28 de agosto de 2020 - 11:38

O mal que um filme como este faz é imenso!!Feito com base em um roteiro “edificante” para mostrar que “as coisas mudaram”, basta ler os letreiros ao seu final para ver que a situação não é bem essa, afinal o assediador recebeu bem mais de rescisão da FOX ao ser demitido da empresa do que tudo o que todas as suas vítimas receberam de indenização somadas e continua livre, leve e solto…Não vou nem falar da caretice formal de ESCÂNDALO, porque o conservadorismo é tanto que chega a irritar. Quanto ao trio de atrizes principal, de tão afetado e de peruagem de imensas plumas, sem contar a aparência alienígena devido ao exagero de botox e intervenções estéticas, causa constrangimento! Resumindo: passe longe!!!!!!!

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Hugo Andrade 23 de janeiro de 2020 - 12:01

Não é um filme péssimo como a nota sugere de maneira alguma. Não é obra prima, nem excelente, pra Oscar essas coisas e tal, mas é bem assistível e as atrizes estão bem. Essa 1 estrela ai faz a pessoa pensar que o filme é uma hecatombe, e não é! Tem bem piores sendo melhor qualificado!

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Michel Gutwilen 24 de janeiro de 2020 - 13:41

Bem, aí eu não posso responder pelas notas que os outros críticos dão, Hugo. E jamais use uma crítica como “guia de cinema” para você decidir o que deve ou não assistir. Crie sua própria opinião, como você fez, e sinta-se livre para gostar mais do filme do que eu — o que é ótimo. O objetivo da crítica é gerar uma reflexão e um debate, prolongando a existência do filme mesmo quando ele já foi assistido. Aliás, para mim, notas são sempre o de menos. Já teve filme que eu dei 1.5, mas leitores me falaram que ficaram curiosos para assistir por conta do que eu escrevi. Sobre o filme em si, considero ele raso, desrespeitoso (algo que deixo claro na minha crítica quando falo sobre a cena do assédio da Margot Robbie, pois, na minha visão, parece ocorrer um fetichismo por parte do Jay Roach), e com umas escolhas estéticas aleatórias (o formato à la MacKay). Um abraço!

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Diário de Rorschach 17 de janeiro de 2020 - 11:10

Não vi o filme, mas se usaram do artifício de “O Lobo de Wall Street” e “Vice”, é ridículo pela história.

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WW3 Cartman 17 de janeiro de 2020 - 01:02

a série do Showtime sobre esse mesmo caso é muito boa.

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Juliana 17 de janeiro de 2020 - 15:25

Sim, “The Loudest Voice” consegue mostrar um panorama muito mais amplo da história e desenvolver melhor os personagens do que esse filme.

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Michel Gutwilen 17 de janeiro de 2020 - 17:08

Ainda não vi, mas escutei de pessoas que viram as duas obras que a série seria melhor mesmo.

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Thiago Pereira 9 de janeiro de 2020 - 00:32

Que bosta de crítica

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Michel Gutwilen 9 de janeiro de 2020 - 11:09

Que pena não ter gostado. Mas e o filme, gostou? O que achou sobre?

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Gabriel Carvalho 9 de janeiro de 2020 - 12:24

Por que você acha isso? Eu gostei.

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francisca vieira 18 de janeiro de 2020 - 00:36

Realmente a critica deste idiota é ridicula, ele fala de kubrick, mas certamente nunca viu e se viu nao aprendeu nada, alias o que ele escreve sobre ele é exatamente o que ele é como critico, um nada

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Michel Gutwilen 18 de janeiro de 2020 - 11:51

Eu reli meu texto três vezes e até agora estou procurando em que parte falei de Kubrick, hahaha. Ele sequer é mencionado. Poxa, eu gosto bastante do mestre. Já vi todos, até o fraquinho filme inicial dele, Fear and Desire. Me preferidos são Paths of Glory e Eyes Wide Shut.

Mas o que em minha crítica te deixou tão chateada, a ponto de criar tanto ódio no coração? Quem sabe com você me ajudando e orientando, ao apontar o que não gosta, eu consigo sair deste nada!

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Mozart Neto 18 de dezembro de 2019 - 23:28

E essa maquiagem pesada da Charlize Theron? Sei que fizeram com o intuito de deixa-la parecida com a jornalista, mas ficou muito carregado, não?

Não tinha visto o trailer, e o proprio trailer parece dar pistas do tom do filme como foi exposto na crítica.

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Michel Gutwilen 9 de janeiro de 2020 - 11:09

É um pouco como o CGI do Irlandês, no início há um estranhamento, mas depois os olhos se acostumam.

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