Crítica | The Handmaid’s Tale – 3X09: Heroic

handmaids-2019-Heroic PLANO CRITICO

  • Há SPOILERS do episódio e da série. Leia aqui as críticas dos outros episódios.

Unfit não foi apenas o pior episódio desta 3ª Temporada de THT até o momento, como também ganhou um revés preciso aqui em Heroic (apesar da aparência filler de matade deste capítulo), reafirmando as minhas colocações em relação ao injustificável, mal escrito, vilanesco e descaracterizador comportamento de June em relação à bebê morta e principalmente em relação a Natalie, a aia que para lidar com a opressão de Gilead, escolheu entregar-se ao sistema. Uma questão simples de lógica narrativa a ser considerada nessa virada é a seguinte: se um (a) protagonista muda de alinhamento moral, não é em um capítulo/ato/episódio que isso deve ser entregue para o público; e como em qualquer grande mudança de enredo (escolha a mídia que quiser para comprovar isso: livros, roteiros para quadrinhos, TV ou cinema, libretos e peças de teatro), as ações daqueles que seguram o andamento da obra precisam funcionar em duas camadas. A primeira, sendo coerente com o desenvolvimento a longo prazo do tal personagem central e, a segunda, conquistando algo para o avanço da história como um todo. A motivação? Também simples: protagonistas não bastam em si mesmos. Eles são um Sol em torno do qual todos os outros personagens — e quase todo o restante da história — orbitam. Se este protagonista é construído de uma forma, só existe um caminho, em qualquer tipo de linguagem ou teoria literária que vocês conseguirem encontrar (novamente, proponho um desafio para a prova do contrário) que pode fazer com que ele mude radicalmente de alinhamento. E este caminho é: fazendo-o mudar com o tempo, jamais abruptamente.

A prova de que June em Unfit foi apenas um choque raso para “abalar” temporariamente alguns espectadores (o que não só corrobora a ideia de que o bloco dela foi mal escrito e era injustificável, como também inutiliza o seu arco com Natalie) é que Heroic coloca tudo aquilo à prova e destrói, ato por ato, aquela versão descaracterizada de June. Primeiro, fazendo algo que deveria ter sido feito ainda em Unfit, para validar a ação da personagem (e se isso fosse feito, a simples discussão do primeiro parágrafo jamais existiria, porque haveria coerência): um ato completamente estranho à personagem que é explicado e contextualizado, psicologicamente, pelo próprio roteiro, inclusive para não correr o risco de cair em armadilhas que pioram ainda mais o texto: tentar justificar uma crise frente à repetição de um problema (June desesperançada em relação à filha), dando munição para a pergunta mais óbvia diante desse tipo de “resolução de roteiro”… ué, se é assim tão importante, por que não adicionar tal comportamento ainda na 1ª Temporada, onde havia um número muito maior de horrores em torno da protagonista e o exato (ou até pior) desalento em relação à garota?. A boa lição que se tem disso — porque os roteiristas dessa série são maravilhosos, a despeito de alguns tropeços — é que Heroic faz o serviço certo: coloca em tela, sem ser didático, chato, repetitivo ou inútil, a PERCEPÇÃO ATUAL de June em relação aos seus problemas.

Porque o incômodo anterior não estava na mudança moral da personagem em si. Claro que eu e você podemos gostar ou não de mudanças em uma série (eu, por exemplo, odiaria uma June vilã), mas se essa mudança é bem construída, realmente não temos nada para reclamar em termos de qualidade. Gostar ou não de mudanças em uma série é algo apenas pessoal, não técnico. O que vai fazer isso ser bom ou ruim é a forma como a personagem muda ou como suas ações são justificadas narrativamente. A conversa de June com o médico aqui é reveladora em tantos sentidos, que chegou um momento que nem precisava de cereja para o bolo, mas Lynn Renee Maxcy fez questão de colocar: o Doutor fala da condição de isolamento de June e mostra como isso afeta o seu comportamento na presente conjuntura. Tudo nessa cena é preciso, dolorido, justificável: o jogo de palavras perfeitamente trabalhado entre homicídio e suicídio; o impulso de June ao tentar matar Natalie; sua constante mudança de percepção da realidade por conta dos meses que passou ali, ajoelhada, eventualmente “fugindo” ao cantarolar versos de Heaven Is a Place on Earth usando os monitores vitais da parceira como metrônomo; e a colocação das coisas em perspectiva pela própria June diante desse horroroso “processo de terapia“.

A ironia do roteiro é enraivecedora — no sentido positivo da palavra –, mas o contexto nos faz entender o processo diante do qual June tenta matar Serena e vira uma mó ético-moral no pescoço da protagonista, tanto pela fala de Serena (“você supostamente deveria ser uma das mais fortes aqui“), quanto pela soberba conversa com Janine, desconstruído o horror feito com a personagem no capítulo passado. E isso é tanto uma motivação acertada que, na segunda parte do episódio, vemos June voltar ao escopo de enfrentamento do sistema pelo que ele é, voltando à visão que vimos se desenvolver para ela desde o meio da 1ª Temporada: sua presença ali não é apenas pelo salvamento da filha, mas a derrubada ou o enfraquecimento do sistema, algo que esta 3ª Temporada ensaiou mas, até agora… nada. Elisabeth Moss segue monstruosa no papel, e não será nada espantoso se ela receber novas indicações às premiações da temporada. Veja que ela é a melhor coisa de toda a primeira parte do capítulo, que, convenhamos, é medíocre. A montagem desse início parece não decidir a marcação rítmica que quer e a duração dos planos também não ajuda em nada, o que nos faz questionar a insistência nesse longo processo de vigília de June, uma vez que a série está mais lenta do que o necessário (já vamos no 9º episódio de uma temporada de 13!) e este episódio tão forte poderia ser utilizado como uma boa mola para o que provavelmente deve ser o tom daqui em diante: pedras no sapato de Gilead, para dizer o mínimo. June realmente está de volta e enfim percebeu contra quem ela deve lutar: não contra “uma delas“, como sabiamente lembra Janine. As aias são vítimas. O inimigo é o sistema, que se resume a homens, fanatismo religioso e, em segundo grau, esposas e tias.

A planificação desse episódio é algo tão bem pensado, que mais uma vez me trouxe lembranças do glorioso Household, até aqui, o melhor capítulo da temporada e um dos melhores de toda a série. Mesmo com uma primeira metade filler, não dá para ignorar a excelente direção de Daina Reid (que também assinou um dos melhores do ano passado, Holly). A cada intervalo de mais ou menos 5 minutos a diretora muda o ângulo de enquadramento para June, partindo de um olhar opressivo, distanciado, indiferente, para um caloroso close-up com direito ao retorno da personagem à sua própria essência — se alguém, por algum motivo obscuro, havia ignorado a fala de Janine, de Serena e do médico, ouvir da boca da própria protagonista o que ela diz na cena final certamente fechou a questão. Isso e o fato de coroar a segunda metade desse episódio, que diferente da primeira, é maravilhosa.

Quatro semanas nos separam do Finale dessa temporada e o que me preocupa mais na série é o ritmo daqui para frente. Desde o trailer da temporada a gente tinha uma noção da temática central deste terceiro ano, e os três primeiros capítulos fincaram pé nessa construção revolucionária por dentro. Aparentemente nada imenso, mas forte o bastante para começar a enfraquecer o poder em blocos, possibilitando o fortalecimento das aias, principalmente. Com o péssimo arco envolvendo Natalie, o show perdeu tempo com algo que não levou a nada: June está do mesmo jeito que estava desde Household e as coisas em torno da personagem não se alteraram na base com esse arco (nem a condição dela com Hannah, que continua tão inalcançável quanto em outros momentos da série). Mas passou, ainda bem. Espero que a gente veja ação nesses quatro episódios que faltam. Se for ágil sem ser atropelado, penso que ainda há tempo de manter a temporada em avaliação bem alta, numa visão geral. #oremos

The Handmaid’s Tale – 3X09: Unfit (17 de julho de 2019)
Direção: Daina Reid
Roteiro: Lynn Renee Maxcy
Elenco: Elisabeth Moss, Yvonne Strahovski, Madeline Brewer, Ann Dowd, Gil Bellows, Ashleigh LaThrop, Nina Kiri, Bahia Watson, Jonathan Watton, Sadie Munroe, Vanessa Burns, Jake Mossop, Ian MacPherson, Catherine Tait, Brianne Tucker
Duração: 48 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.