Entenda Melhor | O Som dos Pesadelos: A Música de Freddy Krueger

No bojo de produção das narrativas slashers concebidas nas décadas de 1970 e 1980, a trilha sonora marcante sempre foi uma preocupação dos realizadores, sempre em associação com os ferrões do design de som, dois mecanismos importantes para reforçar a violência, seja física ou psicológica, no desenvolvimento das histórias. Numa observação panorâmica e hierárquica, a intensidade de John Carpenter na trajetória de Michael Myers é o que me motiva a manter a trilha de Halloween – A Noite do Terror em primeiro lugar neste segmento, seguida de A Hora do Pesadelo, de Charles Bernstein. Apesar de Harry Manfredini ter mudado alguma coisa ao longo das trilhas seguintes da franquia Sexta-Feira 13, a presença de Bernard Hermann e os traços sonoros de Psicose são extremamente gritantes. Isso não faz da trilha algo descartável, mas menor diante da criatividade de seus dois colegas de subgênero. Hoje atuante na área acadêmica, em especial, na Sociedade Americana de Compositores, Editores e Autores, Charles Bernstein, o responsável pela inesquecível música tema dos pesadelos de Elm Street, não trouxe novidades em seu trabalho regido pelas pressões de um orçamento limitado, mas criou algo que se tornou parte intrínseca da presença de Freddy Krueger em nosso imaginário.

Para A Hora do Pesadelo, ele trouxe a música eletrônica com alguns vocais gravados num microfone e manipulados posteriormente, numa trilha cheia de sussurros e tons baixos contrapostos por rompantes que elevam a atmosfera da textura vertiginosamente. Com suas 10 notas, o tema principal é “a cara de seu filme”. Um marco, produzido por alguém que não era exatamente um iniciante no terror, haja vista a sua textura para O Enigma do Mal, um dos clássicos de possessão dos anos 1980. Depois de Freddy, Bernstein assumiu o “falso slasher” A Noite das Brincadeiras Mortais. Para o filme de Wes Craven, ele associa as notas do tema com a sonoridade de uma caixa de música, algo que nos remete ao clima de inocência, abandonado diante de uma história perversa sobre um pedófilo sádico e inescrupuloso, monstro que faz parte do passado dos jovens que começam a ser atacados em seus pesadelos. Do “Main Title” ao clima de fliperama de algumas faixas mais agitadas, a trilha se encaixa na temática abordada pelo roteiro e foi bem recebida pelo público na época, envolvido com a oxigenação que Craven, produzido por Robert Shaye, deu na seara do terror que caminhava para uma trajetória de desgaste em 1984. O próprio diretor lançou a equivocada sequência de Quadrilha de Sádicos num período próximo, uma narrativa que em nada se compara ao antecessor da década de 1970, uma obra-prima do horror, no mesmo patamar que Leatherface e seu clã macabro.

Charles Bernstein, o criador da música tema icônica com Wes Craven e noutros momentos de reflexão

No desenvolvimento da trilha de A Hora do Pesadelo 2 – A Vingança de Freddy, Christopher Young aproveita alguns pontos da composição anterior para trazer algo com vida mais própria, numa intensidade que parece não dialogar com a qualidade da narrativa, afinal, não fosse o legado sociológico da continuação do sucesso de 1984, isto é, a entrada na polêmica lista “dos filmes mais gays da história do cinema”. A flauta é um dos instrumentos mais proeminentes logo na abertura, mantendo-se firme até o desfecho. Os teclados empolgam em “Kissing Freddy on the Catwalk”, “Jump Rope” resgata o tema de Bernstein, destaques que se juntam ao clima soturno de “Dream Heat”, outro ponto peculiar da trilha sonora. Um remix badalado é o que abre a trilha de A Hora do Pesadelo 3 – O Guerreiro dos Sonhos, composta por Angelo Badalamenti, trilha que vai encontrar tons similares nas produções musicais sucessoras dentro da franquia. “Puppet Walk” traça um paralelo com a música tema que já conhecemos e “Taryn’s Deepest Fear” apresenta conexões com Bernard Hermann e a impactante trilha de Psicose e alguns elementos de Harry Manfredini em Sexta-Feira 13.

Craig Safan assinou a trilha de A Hora do Pesadelo 4 – O Mestre dos Sonhos, compositor que traz para um terreno musical já pavimentado, sonoridades que rufam como tambores, numa espécie de anúncio para os horrores planejados por Freddy Krueger em sua quarta e equivocada incursão. De todas as trilhas da franquia, este é o álbum que dialoga completamente com o legado de John Carpenter e seus sintetizadores. Há muitos tons de A Bruma Assassina por aqui, mesclados pela desejável e envolvente faixa tema, marco da série. No desenvolvimento de A Hora do Pesadelo 5 – O Maior Horror de Freddy, Jay Ferguson assinou a trilha sonora envolvente, mais interessante que o próprio filme. “Elm Street Kids” e “It´s a Boy” emulam acertadamente o tema clássico do antagonista e permitem que mergulhemos num clima de tensão, curiosamente mais bem-sucedido quando contemplado numa audição, de fora da baderna que se desdobra neste quinto episódio da série de sucesso. Outro destaque do material é “Freddy Delivery”, faixa que mescla coro, piano e outros tons amplamente góticos. A análise em questão parte da edição de colecionador que trouxe oito mídias com uma média de oito horas de textura percussiva, encaixotadas numa embalagem que tem como extra, um suéter semelhante ao de Freddy Krueger para cobrir a caixa e permitir que o seu dono possa exibi-la na estante, junto aos itens do culto ao monstro dos pesadelos.

De volta aos álbuns, em A Hora do Pesadelo 6 – A Morte de Freddy, o compositor Brian May traz logo na abertura, a música tema de Charles Bernstein com fortes pulsos de sintetizadores, tema que passeia de maneira atmosférica por todo o filme, sempre presente para nos lembrar onde estamos mergulhados narrativamente. A composição segue o padrão das anteriores, isto é, estão além do filme que servem de arranjo. “Video Game Suit” é uma das mais destoantes e nos faz sentir num dos jogos da Sega ou Nintendo, numa tonalidade irônica que se distancia do álbum em geral, composto por faixas repletas de metais pesados embalados pelos sintetizadores. Quem assume a trilha do sétimo filme, O Novo Pesadelo – O Retorno de Freddy Krueger (e Wes Craven para a franquia) é J. Peter Robinson, compositor que nas faixas finais da produção, entrega uma textura que veremos, por coincidência ou referência, na construção sonora de Marco Beltrami na franquia Pânico. O tema principal surge logo na abertura, o som pop toma conta de “TV Show Source”, parte integrante da cena midiática de Englund e Langenkamp no programa televisivo, antecipada pela soturna “Freddy Calls”. O clima de horror ainda se mantém em “Funeral”, composição repleta de cordas estranhas. “Dylan Meets God”, tomada por arroubos produzidos por instrumentos de sopro, junta-se a marcha épica de “Odyssey” e nos dá a impressão do começo de uma batalha, sensação reforçada por “Chasing Dylan/Heather To Rescue”, faixa que suga ao máximo os ostinatos eficientes de Tubarão, de John Williams.

Como sabemos, Wes Craven fecha as portas para a franquia com o sétimo filme. Ciente dos interesses alheios num crossover com Jason Voorhees e mais tarde, numa refilmagem, o cineasta sai de cena, fechando com chave de ouro a sua participação, focado neste ponto em Ghostface e na também gloriosa franquia Pânico. O universo musical de Freddy Krueger ainda se manteve em mais dois momentos. O encontro com o antagonista de Sexta-Feira 13, composição de Graeme Revell, responsável pela textura percussiva que divide espaço com diversas faixas de rock pesado, parte do pacote promocional do encontro de titãs. Como exposto no texto A Música de Sexta-Feira 13, a trilha unifica os dois mundos sonoros, com os temas principais de Harry Manfredini e de Charles Bernstein remixados. No caso da refilmagem de A Hora do Pesadelo, comandada pela Platinum Dunes, Steve Jablonksy foi convidado mais uma vez para assumir a trilha de uma releitura slasher, haja vista seu trabalho em O Massacre da Serra Elétrica e Sexta-Feira 13, ambos de 2003 e 2009, respectivamente. A sua trilha faz algumas remissões ao tema principal da franquia, criado por Bernstein, mas segue por um caminho mais próprio. Os destaques ficam para “Freddy’s Coming For You”, faixa tomada por violoncelos arrastados e em média quatro notas alternadas, além do gótico bem delineado de “Like It Used To Be”, ambas acompanhadas por outras faixas repletas de ferrões, batidas fortes e corais que mixagem a inocência infantil com os temas assombrosos da narrativa.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.