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Veredito Cinéfilo #20.2 | Oscar de Melhor Filme: Os Vencedores Ranqueados – Parte 2

por Luiz Santiago
3.812 (a partir de agosto de 2020)

Essa postagem é uma espécie de filhote tardio do Plano Crítico. Eu e Ritter temos esse projeto desde há muito tempo e, agora, depois de muito suor sulfúrico ritteriano, conseguimos realizá-lo. O propósito aqui é ranquear todos os vencedores do Oscar de Melhor Filme, desde a vitória dupla de 1929 até a vitória chocante de 2020. Isso significa que, em breve, essa versão da lista estará “desatualizada“, mas este é o tipo de datação que acomete a maioria dos rankings. No futuro, é claro que podemos fazer uma outra colocação, talvez quando chegarmos ao 100º vencedor. Cruzaremos esta ponte quando chegarmos lá. Por enquanto, ranquearemos apenas os 93 longas que receberam o prêmio máximo da Academia até o momento em que pensamos nessa classificação, ou seja, em março de 2021.

E como sempre, fica aqui a nossa advertência de praxe: se você ficou muito triste porque o seu vencedor favorito do Oscar não está na posição que você adoraria, peço que use e abuse do espaço de comentários nessa postagem para criar o seu próprio ranking! Não adianta chorar, espernear e xingar a gente porque a nossa lista não espelha a sua. Entre também na brincadeira, crie a sua versão da lista nos comentários e aí vamos falar sobre nossas escolhas, sobre concordâncias e discordâncias diante delas e sobre os filmes dessa premiação como um todo.

As poucas linhas que acompanham cada indicação são trechos das críticas do site, que podem ser lidas na íntegra, basta você clicar nos links. Vale também reafirmar aos desatentos que a presente lista foi feita sob um acordo de opiniões entre eu e Ritter Fan, e que as críticas para todos esses filmes não necessariamente foram escritas por nós dois.

Lembre-se: toda lista é opinião. E como em qualquer concordância ou discordância de opinião, você precisa apresentar algo em troca, respeitosamente, para que haja um debate. Apenas chorar pitangas e lamentar supostos absurdos não vai adiantar em absolutamente nada. Liste também, seja educado, proponha uma conversa! E vamos falar de cinema!

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75º Lugar: Entre Dois Amores

Out of Africa — 1987 / Direção: Sydney Pollack

O que resta, ao final, é um exercício técnico do mais alto gabarito que carece de verdadeira substância. É sempre um prazer ver Streep e Redford nas telas, mas não quando mesmo potentes atuações passam a ser detalhes em um filme que não consegue sair de sua superfície, mesmo quanto tem tanto para contar. Entre Dois Amores, ao entregar apenas o que o título brega em português deixa entrever, perde a oportunidade de ser um verdadeiro épico em todos os sentidos.

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74º Lugar: Quem Quer Ser Um Milionário

Slumdog Millionaire — 2008 / Direção: Danny Boyle, Loveleen Tandan

Quem Quer Ser um Milionário? é um jogo muito bem jogado por seus diretores, roteirista e elenco, além de toda a equipe técnica, resultando em um longa que descaradamente passa um belo e brilhante verniz nos problemas reais que aborda, mas sem que o espectador seja completamente poupado deles. É, para todos os efeitos, uma fábula que, como as melhores por aí, exige que tenha sua moral extraída com um nível de observação maior do que a mera contemplação de sua superfície.

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73º Lugar: A Forma da Água

The Shape of Water — 2017 / Direção: Guillermo del Toro

Outrora, A Forma da Água poderia ter sido um clássico da Velha Hollywood. Hoje, já é um clássico contemporâneo, que definitivamente não sairá da mente das pessoas, continuando a ser atemporalmente uma homenagem apaixonante ao cinema, aos monstros e ao amor, capaz de unir os diferentes da forma mais inacreditável possível.

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72º Lugar: Guerra ao Terror

The Hurt Locker — 2008 / Direção: Kathryn Bigelow

E mesmo quando volta para casa, para sua mulher e filho, o sargento William James ainda vê o sangue escorrer pelo seu corpo, ainda se sente impelido a comentar com a esposa sobre os momentos em que esteve entre a vida e a morte no Iraque, porém ela o interrompe. Mas aquela é a natureza de James, e de tantos outros soldados que enfrentam o mesmo tipo de situação todos os dias: é aquilo que o define, que o faz se sentir completo, que o coloca em algum lugar no mundo. É mais uma vez aquele horror que, inevitavelmente, define um ser humano. E uma vez que você suja suas mãos com sangue alguma vez, torna-se difícil livrar-se dessa sujeira novamente. E o trabalho de Bigelow é exatamente sobre isto. No fim das contas, somos todos viciados.

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71º Lugar: Do Mundo Nada se Leva

You Can’t Take It With You — 1938 / Direção: Frank Capra

O contraste entre a realidade do momento e a necessidade de conquistar o sucesso através dos negócios e o mundo dos sonhos, dos desejos, que dispensa os valores essenciais tão importantes para a primeira situação se evidencia nas personalidades do banqueiro e do dono da comunidade e a união das situações, resultado do choque entre os valores antagônicos, no romance de Tony e Alice. Como as adversidades do amor são, muitas vezes, a raiz das tramas de diversas narrativas, junto com elas, surge a dialética de situações, que se evidencia no que separa os mundo opostos e Capra, ao dirigir Do Mundo Nada Se Leva, trouxe seu acréscimo moral ao unir os mundos opostos de Tony e Alice.

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70º Lugar: Patton, Rebelde ou Herói?

Patton — 1970 / Direção: Franklin J. Schaffner

Se a fidelidade da retratação de Patton no filme é uma questão interpretativa e biográfica que foge ao objeto da fita, o trabalho de George C. Scott é realmente memorável, com uma abertura genial em sua originalidade e capacidade de síntese. Mesmo que o roteiro não consiga manter a necessária coesão narrativa, pecando por trazer quase que esquetes sobre o personagem-título, Patton, Rebelde ou Herói? acaba deixando uma impressão duradoura em quem o assiste, mesmo que o que fique de verdade com o espectador seja Scott literalmente mastigando o cenário.

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69º Lugar: O Paciente Inglês

The English Patient — 1996 / Direção: Anthony Minghella

A força das imagens de O Paciente Inglês é inegável e Minghella tira o máximo proveito disso. No entanto, o filme carece de um romance que realmente permita a realização de seu potencial. Ainda é uma obra monumental, com muito mais acertos técnicos do que erros, mas o lado humano acaba deixando a desejar quando o foco sai do monastério italiano e nos transporta para as areias do deserto egípcio.

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68º Lugar: Coração Valente

Braveheart — 1995 / Direção: Mel Gibson

Mesmo assim, Coração Valente é um belíssimo e raro representante de épicos modernos de guerras antigas, algo muito mais presente na Hollywood clássica e que foi deixado de lado já há muitas décadas. Mel Gibson mostra de vez que sabe manejar a câmera para extrair fortes emoções, sem se acanhar com a violência explícita nas telonas, algo que repetiria mais algumas vezes em sua carreira nessa cadeira.

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67º Lugar: Marty

Marty — 1955 / Direção: Delbert Mann

À guisa de curiosidade, Marty foi o primeiro filme em algumas categorias: exibido em Moscou em 1959, foi a primeira produção estadunidense a ser exibida na União Soviética após a Segunda Guerra Mundial, dentro da programação do Programa de Trocas. Ganhador da Palma de Ouro de Cannes, foi a primeira realização cinematográfica estadunidense a ganhar o prêmio. Na cerimônia do Oscar, levou os prêmios de Melhor Filme, Melhor Roteiro e Melhor Ator, além de ter concorrido em categorias similares nas cerimônias do Globo de Ouro e do BAFTA.

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66º Lugar: Carruagens de Fogo

Chariots of Fire — 1981 / Direção: Hugh Hudson

Carruagens de Fogo é, talvez, menos do que a soma de suas partes, mas o resultado final, mesmo assim, é uma bela história de superação em diversos níveis que torna a produção um daqueles marcos cinematográficos inesquecíveis. Sem dúvida, um dos mais intrigantes e desafiadores filmes que tem o esporte como temática de fundo.

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65º Lugar: Amadeus

Amadeus  — 1984 / Direção: Milos Forman

Mas se é com veneno que um dos maiores compositores de todos os tempos é assassinado na ficção, ironicamente o trabalho de Forman acaba provando de suas próprias qualidades como um veneno auto-inoculado. Analisar Amadeus é um trabalho complexo e a reflexão que resta ao final da projeção é mesmo pensar se, no todo, a beleza do longa-metragem fez mais bem ou mais mal à imagem de Wolfgang Amadeus Mozart. Que o púbico decida sobre isso ao longo de uma fita de três horas de duração absolutamente prazerosa e com cinema da mais alta qualidade.

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64º Lugar: Crash: No Limite

Crash — 2005 / Direção: Paul Haggis

Um dos pontos críticos do filme é mostrar que estamos sempre ocultando os nossos preconceitos, mas com o caminhar da vida na contemporaneidade, “furioso e em alta velocidade”, nos faz esquecer, e ao invés de guardá-los adequadamente, deixamos escapar em situações corriqueiras. Isso parte desde o avistar de um homem negro se aproximando do ponto de ônibus numa rua deserta (fato comumente citado em rodas de conversa e debates acadêmicos) ao básico “que negra linda” (quando alguém vê um outdoor com uma modelo negra dentro dos padrões de beleza da sociedade). Tais exemplos não estão no filme, mas são apenas adaptações para situações corriqueiras em nosso cotidiano. Você, caro leitor, já deve ter presenciado situação semelhante, concorda?

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63º Lugar: Asas

Wings — 1927 / Direção: William A. Wellman

O que fica no término de Asas é o sentimento de companheirismo, superação e amadurecimento, elementos colocados de maneira instigante na trama e que entretém muito em seu conjunto. Esse é o charme e o motivo da longevidade bem aceita que a película teve ao longo dos anos. Estamos diante de um épico com altíssimo apuro técnico e estético (a construção do povoado francês, a sensacional sequência no Folies Bergeres e a notável reprodução da Batalha de Saint-Mihiel são claros exemplos desse conjunto), uma trilha sonora explosiva, três minutos de um desconhecido Gary Cooper que fariam dele uma estrela e muita ousadia na direção, ingredientes que fizeram de Asas uma obra obrigatória para quem estuda e quer conhecer bem o cinema, uma obra diante da qual é impossível ficar indiferente.

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62º Lugar: Gladiador

Gladiator — 2000 / Direção: Ridley Scott

O maior problema de Gladiador, enfim, resume-se em transformar eventos históricos em pano de fundo para a criação de um produto de plenas intenções comerciais, dessa grandiosidade exacerbada. A direção de Ridley Scott não é extraordinária, porém, por outro lado, sua condução contribui para a exaltação de um elenco propositado. O roteiro não se equivoca tanto, dando margem a uma história redonda e nenhum pouco esquecível – a amálgama desejada. Gladiador pode ter poucos cuidados baseados nos livros de história, mas funciona na medida certa como impressão ficcional de um tempo que nunca existiu – pelo menos não dessa maneira.

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61º Lugar: O Bom Pastor

Going My Way — 1944 / Direção: Leo McCarey

O final do filme, reticente demais, talvez seja a maior reclamação para O Bom Pastor. As resoluções haviam sido apresentadas bem mais cedo e pouco sobrou de conteúdo dramático para a construção das cenas finais, que apesar de bem dirigidas, com acertado uso da trilha sonora e bela fotografia, são diminuídas pelo roteiro. Mesmo assim, não dá para negar o caráter emotivo do encontro e as conquistas obtidas até aquele momento. Como era para ser, a mensagem de otimismo se mantém, apesar da tristeza da despedida. E é entre lágrimas e com uma atmosfera amigável que O Bom Pastor termina, quase com uma mensagem de “não julgue o livro pela capa” e só por este aspecto já entendemos o tipo de impacto que ele causou em sua época e a compressível reação que teve para a Academia no Oscar de 1945.

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60º Lugar: Se Meu Apartamento Falasse

The Apartment — 1960 / Direção: Billy Wilder

Com Apartamento, Wilder se tornou a primeira pessoa a receber os três prêmio principais da Academia (um de Melhor Filme, e os outros dois para Direção e Roteiro), e não me impressiona como o filme continua tão engraçado e envolvente. Com uma história tão divertida e elenco impecável, só um louco para não se apaixonar por essa comédia.

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59º Lugar: Grande Hotel

Grand Hotel — 1932 / Direção: Edmund Goulding

O grande triunfo de Grande Hotel, no final das contas, é fundir personagens e cenários em um conjunto tão harmônico que uns complementam os outros com uma naturalidade até hoje rara de se ver por aí, resultando em uma obra fácil e agradável de se assistir mesmo tantas décadas depois. Sem dúvida uma daquelas obras que, merecidamente, se tornaram um dos pilares da Sétima Arte.

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58º Lugar: O Discurso do Rei

The King’s Speech — 2010 / Direção: Tom Hooper

Se a intenção de Hooper é prover uma virada à condição do personagem, por que os planos incitam em rebaixá-lo em câmera subjetiva até mesmo nas cenas comuns? O ordinário, que teoricamente busca ser valorizado por equidade, na prática com o uso desses planos sentimentalistas vira uma anomalia, onde a intenção é mal-executada e o duplo sentido da piada é tão inconsequente que não consegue se tornar uma real personalidade do filme, apesar de ser uma boa desculpa para defender o filme. Mas é aquilo, defender até um certo ponto, porque mesmo com algum esforço e um envolvimento total ao exercício empático, não dá para não dizer que seu realizador estava muito mais preocupado em corresponder a convenções de uma premiação do que articular a sua visão sobre uma determinada história que merecia ser melhor contada.

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57º Lugar: Gente Como a Gente

Ordinary People — 1980 / Direção: Robert Redford

Gente como a Gente é quase uma obra única que reúne relevância social por abordar assunto tabu especialmente à época e por fazê-lo de maneira tão completa, sofisticada e sutil, fugindo de obviedades, arquétipos, clichês e textos expositivos e ainda apresentando um elenco de fazer inveja. Não é nem de longe um filme fácil de ver e de digerir, mas sua importância e qualidade são indiscutíveis.

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56º Lugar: A Luz é para Todos

Gentleman’s Agreement — 1947 / Direção: Elia Kazan

A Luz é Para Todos aborda um tema árduo até para os dias de hoje, com todas as nuances vindas dos dois lados da moeda. O espectador adota o papel de juiz, júri e até vítima, incomodando-se aqui e ali no modo como o texto guia determinado ponto da história, mas encontrando elementos positivos na visão geral do problema. O filme consegue então vencer os pontos mais fracos de seu desenvolvimento e sobressair-se pela interessante soma de seu todo.

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55º Lugar: A Grande Ilusão

All The King’s Men — 1949 / Direção: Robert Rossen

Com uma montagem ágil, A Grande Ilusão talvez passe rápido demais pelo processo que transforma seu protagonista. Parte da época de ouro do cinema americano, foi um dos últimos “filmes de mensagem”, dado que estes foram desaparecendo com a guinada conservadora do país, o próprio Rossen fazendo parte de uma lista negra por suas ligações comunistas.

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54º Lugar: Sindicato de Ladrões

On the Waterfront — 1954 / Direção: Elia Kazan

Sindicato de Ladrões é um poderoso exercício de crítica social e um instigante drama sobre o comportamento humano em seu ambiente de vida e trabalho, ambos em adversas situações de criminalidade. O filme recebeu 12 indicações ao Oscar, levando para casa 8 estatuetas, incluindo a de Melhor Diretor, Melhor Filme e Melhor Roteiro. Mesmo depois de tantos anos, as duas leituras gerais que podemos dar à película fazem-na cada vez mais rica e curiosamente mais atual, daí a importância de ser revisitada de tempos em tempos, especialmente por aqueles que se dedicam, de alguma forma, ao engajamento político e se esquecem que por trás de qualquer bandeira, união ou grupo ideológico, existe homens e mulheres falíveis e sujeitos aos mais diversos crimes, paixões, traições e heroísmo.

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53º Lugar: Chicago

Chicago — 2002 / Direção: Rob Marshall

Chicago é um filme de cineasta estreante no circuito cinematográfico, mas experiente no meio da produção artística. Uma mistura de sorte e talento, pois o cineasta assinou uma produção que ganhou como Melhor Filme, Melhor Figurino, Melhor Edição, Melhor Direção de Arte, Melhor Mixagem de Som, Melhor Atriz Coadjuvante e ainda foi ovacionado em outras premiações, tais como o Globo de Ouro e o SAG Awards. Rob Marshall provou que sabe gerenciar muito bem um filme, prova disso é transformar o roteiro mediano em um filme exuberante.

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52º Lugar: Beleza Americana

American Beauty — 1999 / Direção: Sam Mendes

Mesmo com essa temática mais séria, os diálogos são pontuados por muito sarcasmo e ironia. As discussões de Carolyn e Lester, ainda que cheia de ressentimentos, tem um resultado cômico, como as constantes negações de Ricky para o pai que no fundo, são puro deboche. Contudo, a melhor imagem de sucesso projetada é a da Angela. Garota popular, cheerleader, confiante e sedutora, que no final, acaba sendo totalmente o oposto. Doce ilusão.

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51º Lugar: Os Melhores Anos de Nossas Vidas

The Best Years Of Our Lives — 1946 / Direção: William Wyler

Apesar de seus 170 minutos deixarem a obra um tanto arrastada, impressiona a capacidade de Wyler de não cair no épico sentimental. Pelo contrário, seus personagens não são mostrados como extraordinários, mas sim homens comuns tendo que lidar com uma cicatriz deixada por decisões questionáveis daqueles que detém o poder. É exatamente por essa força crítica contra um patriotismo banal, aliada à primazia e eficiência técnica do efeito de profundidade, que Os Melhores Anos de Nossas Vidas sustenta sua relevância atual.

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