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Lista | Os Melhores Filmes de 2020

por Luiz Santiago
4423 views (a partir de agosto de 2020)

Como é de praxe, aqui estamos fazendo a nossa listinha de melhores filmes do ano! A diferença dessa lista de 2020 para as dos anos anteriores é que dessa vez estamos expondo um TOP 10 para cada um dos participantes, dessa forma, o leitor poderá ter acesso às mais diferentes opiniões e composições de listas para as produções lançadas neste ano pandêmico.

Agora vamos falar das regras. Foram elegíveis para as listas, apenas: o que foi oficialmente lançado nos cinemas brasileiros em 2020 + o que foi lançado nos streamings e VODs OFICIALMENTE acessíveis no Brasil em 2020 (ou seja, HBO Max, Hulu e iTunes com conta americana estiveram fora) + o que saiu em Festivais de 2020 que foram OFICIALMENTE feitos no Brasil ou OFICIALMENTE acessíveis a partir do Brasil.

E aí, o que acharam das nossas listas? Com qual ou quais listas você se identificou mais? Pegaram algumas dicas de filmes para assistir? Não deixem de comentar e deixar também o seu TOP 10 do ano! Bons filmes a todos!


RITTER FAN

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O ano de 2020 foi muito estranho para filmes e, potencialmente, um marco que alterará para sempre o panorama da experiência cinematográfica. Mesmo eu sendo ainda um defensor resoluto da apreciação de filmes da melhor forma possível e não em telas mixurucas com as distrações do lar (ou outros lugares ainda mais barulhentos) ao redor, tenho que reconhecer que o streaming, em razão da pandemia, acabou tornando-se a alternativa viável para o lançamento de diversas obras e minha lista basicamente reflete isso. Por um lado, os diversos serviços proporcionam algo que os estúdios nunca realmente conseguiram: variedade de conteúdo e democratização do acesso. Por outro, a experiência de ir ao cinema, para muitos, tornou-se algo que pode ser moldado aos desejos mais frágeis, como é o hábito de mexer em celular enquanto o filme passa na TV (e ainda tem gente que reclama que ler legendas “atrapalha” a experiência…). É o sinal do futuro, claro, e veremos o que ele reserva ao Cinema!
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10º – Festival Eurovision da Canção: A Saga de Sigrit e Lars

David Dobkin – EUA, 2020

Mas Festival Eurovision da Canção: A Saga de Sigrit e Lars (ô título longo!!!), no final das contas, consegue encantar e envolver o espectador que gostar desse tipo de comédia que caracteriza muito claramente a carreira de Ferrell. Com Rachel McAdamas brilhando e Dan Stevens correndo atrás com muito magnetismo, além de contar com números musicais muito bons, o filme entrega diversão e humor em boas doses que até nos fazem relevar um pouco os momentos parados e a duração avantajada. Dá até para um certo crítico que nunca tinha ouvido falar em Eurovision entender a fascinação que algo assim possa ter…

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9º – Entre Mortes

Hilal Baydarov – Azerbaijão, México, EUA, 2020

Entre Mortes consegue combinar de forma inusitada o clássico road movie de auto-descoberta e de amadurecimento com uma jornada contemplativa sobre o amor e o quanto ele pode estar bem à nossa frente sem que tenhamos capacidade de enxergá-lo ou de identificá-lo como tal. O caminho trilhado pelo jovem Davud impressiona e emociona e, no processo, a ainda iniciante, mas já marcante arte de Hilal Baydarov torna-se algo a ser observado com atenção no Cinema mundial.

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8º – Os 7 de Chicago

Aaron Sorkin – EUA, 2020

Com atuações impressionantes dos veteranos Frank Langella e Mark Rylance, mas também contando com um afiadíssimo elenco restante, Aaron Sorkin dramatiza o julgamento dos Sete de Chicago em um “filme de tribunal” exemplar que finca raízes na estrutura tradicional do sub-gênero, mas que as usa não para relaxar ou burocratizar o storytelling, mas sim para fazer brotar uma obra que tem como objetivo educar, cutucar, incomodar e trazer à luz discussões relevantes ao nosso tão conturbado presente. O mundo inteiro viu esse julgamento, mas a lição não foi absorvida até hoje.

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7º – Poderoso Chefão – Desfecho: A Morte de Michael Corleone

Francis Ford Coppola – EUA, 2020

O Poderoso Chefão – Desfecho: A Morte de Michael Corleone não é de forma alguma “outro filme” ou algo que mudará a vida de alguém, mas, se alguém tiver interesse em saber, eu, pessoalmente, tendo a preferir essa nova versão do que a anterior. Mas por muito pouco, tão pouco que minha nota em HALs para as duas versões seria a mesma. Coppola reajusta seu longa, transformando-o no epílogo que ele sempre quis fazer, rearrumando um pouco as peças do tabuleiro e entregando uma obra mais enxuta e ágil, com um final ainda mais doloroso.

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6º – Mank

David Fincher – EUA, 2020

Com tanto o que falar positivamente, o problema sobre o conflito de créditos de Mank acaba não sendo muito mais do que um incômodo na reta de chegada. O longa brilhantemente resgata a história do autodestrutivo roteirista, tomando seu lado incondicionalmente, mas usando-o principalmente como veículo para caracterizar uma era e toda uma indústria, além de tensões políticas que ganham eco em nosso cotidiano quase 100 anos depois. David Fincher sai de seu longo jejum cinematográfico para adicionar mais uma grande obra à sua curtíssima filmografia, deixando-nos sedentos por intervalos menores entre seus filmes.

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5º – A Vastidão da Noite

Andrew Patterson – EUA, 2020

Seja como for, A Vastidão da Noite é uma simpática e muito competente abordagem da temática sci-fi que atiça a curiosidade imediatamente, prende a atenção com sua ótima dupla protagonista e com um mistério old school e termina deixando o espectador tremendamente satisfeito com essa pequena pérola que ainda bem conseguiu ver a luz do dia rapidamente, não ficando perdida em meio a outras tantas obras independentes de baixo orçamento que não têm a mesma sorte. E, de quebra, é possível que tenhamos uma promessa de um novo cineasta cujas obras esperaremos com ansiedade.

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4º – Another Round (Druk)

Thomas Vinterberg – Dinamarca, Suécia, Países Baixos, 2020

Thomas Vinterberg mostra em Another Round (Druk) homens que intelectualmente se entregam a um vício e sofrem as consequências disso. Não há moralismo aqui, mas um trato humano para a aposta em um jogo muito perigoso. Com homens sensíveis, que choram, que conversam com os amigos sobre seus problemas e dores, o diretor também nos mostra esse outro lado da ansiedade, da depressão da busca por agradar e sempre fazer certo. É um filme sobre um vício muito comum, mas com camadas o suficiente para não deixar a abordagem datada ou rasa.

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3º – Os Miseráveis

Ladj Ly – França, 2019

Os Miseráveis é ficção tão real que parece um documentário em meio a uma guerrilha. Quando seu final chega, a vontade que dá, lá no fundo do coração, é assistir um desenho animado bem bobo para simplesmente esquecer o que foi visto, para não ter que enfrentar a dura realidade que – para a maioria dos espectadores de cinema – existe apenas ao longo do tempo de projeção, mas que está ao nosso redor e que deveríamos atentar para além de comentários derrisórios sobre os miseráveis que não têm o mesmo tipo de chance que nós.

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2º – Wolfwalkers

Tomm Moore, Ross Stewart – Irlanda, Luxemburgo, França, EUA, Reino Unido, 2020

Wolfwalkers é a nova obra-prima de Tomm Moore, desta vez ao lado de Ross Stewart na cadeira diretorial. Uma animação hipnotizante e apaixonante que merece ser vista e revista, além de ter cada frame enquadrado como um obra de arte por seu próprio mérito. Não tenho dúvida de que estamos diante de um novo clássico da animação ocidental.

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1º – A Voz Suprema do Blues

George C. Wolfe – EUA, 2020

A Voz Suprema do Blues é um filme de atores e, como tal, foca nas performances de um elenco capitaneado por Viola Davis e Chadwick Boseman em duas atuações realmente inesquecíveis. Há enorme peso nos conflitos estabelecidos nos ambientes confinados que ecoam a opressão dos afro-americanos tanto naquela época quanto hoje em dia, transformando o longa em uma obra particularmente poderosa para o momento atual. A estrutura teatral dentro da obra cinematográfica encontra o ponto exato de fusão e resulta em uma mistura homogênea e destruidora, daquelas que prendem o espectador do primeiro minuto até quando os créditos começam a subir. Aplausos!

LUIZ SANTIAGO

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O ano de 2020 foi incomum para todos nós, em inúmeros sentidos. Pensando sobre essa lista dos “melhores do ano“, percebo o quanto a experiência cinematográfica foi diferente e o quanto a sala de cinema, hoje, parece um sonho distante para mim. O último filme que eu vi nos cinemas este ano foi Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica, e isso me soa como um sonho distante… Pois bem. Cá estamos, no finalzinho do ano, pensando em tudo aquilo que experimentamos de melhor na Sétima Arte (segundo as regras já estabelecidas na introdução dessa postagem) ao longo deste ano incomum. Aqui vai a minha lista.
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10º – Estou Pensando em Acabar com Tudo

Charlie Kaufman – EUA, 2020

Na obra, esses ingredientes formam uma massa de pensamento confuso, atemporal — a organização dele é o toque metalinguístico da fita, já que o filme chama a atenção para si mesmo como agrupador e reprodutor de memórias e fantasias, fazendo também a sua própria autocrítica no caminho — e que serve como fim da linha para diferentes gerações, majoritariamente iluminadas por cores frias, muita preocupação com os afazeres cotidianos, extrema solidão na velhice e vontade de que “tudo isso” acabe o quanto antes. Assim como o pai, a expressão do desejo de não querer lembrar-se de mais nada. A riqueza, a dor e a felicidade que cabe em um último suspiro. Uma elegia, afinal

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9º – Apenas Mortais

Liu Ze – China, 2020

A fragilidade, a dor e o amor estão de mãos dadas aqui em Apenas Mortais, e o filme não nos poupa de alguns choques ou mesmo da sensação triste da despedida, de “fim de jornada” que se apresenta já no início da fita. É uma obra que nos faz refletir sobre a beleza da vida e também sobre a beleza da morte, que a despeito da dor que traz, acaba dando real sentido à nossa existência. Os caminhos que o diretor toma são sutis, não completamente lineares e com piscadelas para as escolhas que fazemos hoje, podendo marcar fortemente o nosso futuro. Um lembrete para aquilo que somos (apenas mortais), e para o fato de que mesmo inconscientemente, a gente quer mesmo é voltar para casa. Para o local da nossa primeira felicidade.
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8º – Magnatas do Crime

Guy Ritchie – EUA, 2020

Reclamações puristas a respeito da autoindulgência de Guy Ritchie (voltar ao início do primeiro parágrafo) entram naquele tipo de lista que entendemos trabalhar com fatos, mas que por trazerem à tona uma prática cinematográfica encontrada em todo cineasta com uma assinatura reconhecível e recorrente, acaba tornando o argumento contraditório ou hipócrita. O olhar do diretor para a sua própria obra serve ao argumento de Magnatas do Crime como elemento central do jogo, expondo peças de diversão que tornam a comédia de máfia distinta do que vemos frequentemente no mercado, e algumas escolhas que mostram o diretor procurando renovar sua maneira de contar (e especialmente de revelar) um grande mistério.
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7º – A Saída dos Trens

Adrian Cioflâncã, Radu Jude – Romênia, 2020

A Saída dos Trens é um filme que beira o insuportável. E não porque é um filme ruim, muito longe disso. É porque a escalada, repetição e duração das misérias expostas pelos diretores Radu Jude (Eu Não me Importo se Entrarmos para a História como Bárbaros) e Adrian Cioflâncã (que também é historiador e, na época da produção deste filme, diretor do Centro Wilhelm Filderman para Estudo da História Judaica na Romênia) esgotam o psicológico e emocional de qualquer espectador.
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6º – Nariz Sangrando, Bolsos Vazios

Bill Ross IV, Turner Ross – EUA, 2020

Alguns empurrões ideológicos e o momento da quase-briga parecem reticentes e deslocados em relação ao todo, mas ao mesmo tempo mantêm coisas que esperamos em um bar com muitas pessoas bebendo e conversando por muitas horas (e vale ainda citar a ótima escolha para a trilha sonora e que os takes da TV são maravilhosos, com trechos que vão desde programas locais até cenas de O Encouraçado PotemkinQuando Voam as CegonhasOs DesajustadosSomente Deus por Testemunha e por aí vai). A vitalidade de Nariz Sangrando, Bolsos Vazios vem da forma honesta como cada personagem é erguido, de como esses atores se entregam ao papel, e de como os diretores plasmam essa “reunião de adeus” e de memória de tempos vividos, olhando ao mesmo tempo com dúvida e com uma pitada de esperança para o futuro. Esse baú de incertezas à nossa frente.
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5º – Sertânia

Geraldo Sarno – Brasil, 2020

O fim violento da vida de Antão traz uma constatação de domínio da morte sobre essa Sertânia chamada Brasil. E não me refiro à morte como “destino de todos“, mas à morte como “projeto de poucos“. A morte pelo fogo de uma ideologia que o Estado condena. A morte de uma utopia local com cara messiânica e salvadora. A morte por fome e sede. A morte daqueles taxados como desordeiros, problemáticos. A constatação de que a morte comanda o Brasil. A Morte Comanda o Canganço. A morte comanda Sertânia. E talvez isso tudo seja apenas um loop febril e indignado dos últimos momentos da vida de alguém que lutou por muitas causas e nunca se encontrou. Mas sentiu. Acreditou. Procurou respostas (“Mãe, o pai morreu?“). Clamou por misericórdia (“Não atire, Capitão! O Povo não tem culpa de passar fome!“). E no fim das contas, só queria se encontrar. Voltar para casa. Desgraça!
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4º – Another Round (Druk)

Thomas Vinterberg – Dinamarca, Suécia, Países Baixos, 2020

É muito importante que os personagens dessa história sejam 4 homens adultos, com bom emprego, bom nível de estabilidade e inteligência para escolherem e compreenderem o caminho que estão seguindo. Isso porque estamos falando de um vício, e o foco em personagens mais jovens (que, aliás, também aparecem bebendo aqui, mas o filme não atenta para eles nesse aspecto — o foco neles é o da pressão familiar e social para o desempenho na escola) poderia levar a trama para veredas bem diferentes, inclusive no apontamento de responsabilidades e consequências.
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3º – O Farol

Robert Eggers – EUA, Brasil, 2019

Se no final do filme temos problemas no uso de uma elipse que é uma armadilha (seria melhor que a cena seguinte não existisse, mas existindo, então que o momento diante da luz fluísse de modo que pudéssemos acompanhar a ida de Ephraim Winslow até a praia, onde cumpre uma espécie de punição à la Prometeu, “por ter roubado o fogo dos deuses“), ainda conserva-se o aspecto geral de horror e derrocada de alguém que ousou zombar e interferir no funcionamento de algo maior que ele mesmo. Por isso que a ideia geral de proteção e guia que simbolicamente atribuímos a um farol se corrompe nesse Universo. Ou melhor, é mostrada em uma outra camada de intenções, afinal, alguém iluminado, mesmo que não queira, pode atrair os mais variados horrores para o seu meio. E não é de hoje que sabemos que o mal também pode morar na luz.
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2º – Hamilton

Thomas Kail – EUA, 2020

A pesquisa temática de Lin-Manuel Miranda fez com que ele agrupasse e explorasse de modo divertido, cativante e progressivamente emocionante a saga de um povo com problemas políticos e sociais que, mesmo nos dias de hoje, ainda seguem ativos. E com feridas que parecem mais feias hoje do que eram na época da fundação do país. Conforme a obra avança, somos convidados a enxergar um conflito um tanto angustiante entre a voracidade e o prazer de viver (tudo isso entregue cheio de símbolos ainda no começo da peça, com o famoso “brinde à liberdade!“) e a inevitabilidade da morte, acrescida de uma preocupação maior: o que nós, como indivíduos, vamos deixar de realizações para serem observadas, aproveitadas e discutidas pelos que ficarem? O que restará de nós nesse mundo para que outras pessoas possam, seja lá de que forma, contar a história de quem fomos e do que fizemos? Quem contará a nossa história?

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1º – Retrato de Uma Jovem em Chamas

Céline Sciamma – França, 2019

Tudo converge para a tela e nela se imortaliza, como proposto, seja pelas soberbas atuações ou pelas belas composições que vemos. Duas cenas nesse processo merecem destaque pelo seu imenso rigor plástico e pelo que transmite para o espectador: a cena em que as três mulheres da casa estão na mesa, uma bordando, uma cozinhando e outra bebendo vinho; e a cena do aborto, que quase me fez chorar por ter aquele bebê ali do lado da jovem, pegando em seu dado… O retrato final da película pode ser o literal que vemos no filme, ou a própria película, que fala sobre uma artista e sua modelo, ardentes de desejo. Um filme sobre mulheres, sobre corpo, sobre memória, imagem, gozo e felicidade. Um recorte erótico e sentimental da vida que mostra não só uma jovem, mas também um público em chamas.

MICHEL GUTWILEN

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Se alguém disser que 2020 foi um ano fraco para o cinema devido a pandemia, pode ter 99% certeza que essa pessoa só acompanha cinema blockbuster. Em um ano totalmente atípico para o mundo, uma oportunidade única surgiu que seria impossível em tempos normais: festivais de cinema online. Quem consegue viajar à Tiradentes, São Paulo, Gramado, Curitiba Brasília e até para a Argentina em um ano para cobrir festivais de cinema? Quase ninguém, mas em 2020, de certa forma, isso foi possível. Foram filmes incríveis que eu nunca teria tido a oportunidade de ver em tempos normais e será um ano marcado na minha cinefilia por esse motivo. E mesmo assim, ainda que minha lista seja majoritariamente composta por filmes de festivais, o primeiro lugar, ironicamente, é de um lançamento da Netflix (pelo menos aqui no Brasil, pois Joias Brutas é da A24, com Netflix comprou seus direitos para distribuição internacional), que tanto reclamo. De fato, que ano atípico.
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10º – Atarrabi & Mikelats

Eugène Green — Espanha, 2020

No fim, essa fábula vai criando vida do jeito mais greeniano possível, com alguns preferindo afirmar que há um ar satírico no cinema desse diretor, mas eu penso ser mais adequado usar o termo pureza. Quando a câmera aponta para uma coruja ou uma pedra e escutamos uma voz sem aparente emissor, nosso cérebro acostumado aos CGIs que fazem bocas de seres irracionais se mexerem pode até achar graça, mas Green está realizando um exercício de levar o espectador ao seu estado mais infantil da crença cega. Similarmente, evidente que há um sentido humorístico quando três moças aparecem se banhando em um rio, a câmera corta para o protagonista olhando para elas e, quando volta, o que se vê são três anões. Mas o que está em jogo é mais do que uma piada de gênero: é um autor de Cinema acreditando que a própria montagem pode fazer mágica, uma aventura fantasiosa que não é construída só pela história em si, mas pela própria mise-en-scène.
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9º – A Mulher que Fugiu

Hong Sang-soo — Coreia do Sul, 2020

De modo oposto às mise-en-scènes dos encontros femininos, que se passam em locações interiores, Song retrata os três homens que aparecem em cena em ambientes exteriores. Eles estão sempre organizados da mesma forma: de costas para a câmera, enquanto a mulher está de frente para ele (e a câmera). Da horizontalidade do diálogo feminino para a verticalidade do confronto. Os homens surgem não como pessoas individualizadas (pouco vemos de seus rostos), mas um mal sem face que atormenta a vida daquelas mulheres e que precisam ser encarados frontalmente por elas. Eles são insistentes diante da negativa e as mulheres perseveram em suas afirmações. Agora, importa que o espectador as veja justamente porque é o momento de afirmação delas. Elas estão expulsando os problemas de suas vidas e, ainda que não possam fugir, podem ter pequenas vitórias nas batalhas cotidianas.
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8º – Não Haverá Mais Noite (Il n’y Aura Plus de Nuit)

Éléonore Weber — França, 2020

Filme ensaio cuja câmera cinematográfica se equipara tanto a figura de uma arma, mas, ao mesmo tempo, do Estado-Deus também. Pois ela vê tudo e todos, de maneira onipresente, e não é vista pelas pessoas. Que tem o poder da decisão em acabar com a vida apenas num piscar de olhos ou simplesmente deixar a pessoa viver. Não há noite para a câmera, tudo é visto e quase nada escapa aos seus olhos.
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7º – Prefeitura (City Hall)

Frederick Wiseman — EUA, 2020

O que o cineasta faz é diferente da maioria dos documentários contemporâneos, mas ele o faz tão bem que seus filmes são consistentemente envolventes e informativos. Ele constrói drama com experiências ordinárias, sem a necessidade de narração, clímax ou conclusão. Para uma cápsula do tempo sobre o que as pessoas faziam em seus empregos e como ficava o ambiente enquanto o faziam, a filmografia de Wiseman é eterna. E Prefeitura é mais uma excelente adição ao seu currículo invejável.
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6º – Red Screening (Al Morir La Matinée)

Maximiliano Contenti — Argentina, Uruguai, 2020

Sendo Cinema criatividade, as mortes proporcionadas pelo horror podem ser o maior expoente disso e Contenti explora ao máximo essa potencialidade. Não há momento que comprove melhor o pleno entendimento de um diretor em relação ao que é o Cinema de Horror do que a sequência em que, ao mesmo tempo, o menino urina na calça, o homem têm um orgasmo e o casal morre empalado. No fim, essa é a maior declaração a ser feita: contra a sofisticação do horror, mas a aceitação de sua vulgaridade. Viva o mijo, o gozo e o sangue explodindo em tela.
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5º – Sertânia

Geraldo Sarno — Brasil, 2020

Está para o Cinema Novo e Glauber Rocha assim como Signo do Caos está para o Cinema Marginal e Orson Welles. Ressurgimento. Looping, ciclo. Consciência do fazer fílmico e a homenagem como forma de resistência. Quem viu curtas do Sarno como “Vitalino/Lampião” e “Jornal do Sertão” sabe que o cinema do veterano diretor sempre teve em sua base o próprio ato de fazer um filme como forma de preservação da cultura e do mito. Uma forma de passar adiante.
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4º – Retrato de Uma Jovem Em Chamas

Céline Sciamma — França, 2019

Tudo converge para a tela e nela se imortaliza, como proposto, seja pelas soberbas atuações ou pelas belas composições que vemos. Duas cenas nesse processo merecem destaque pelo seu imenso rigor plástico e pelo que transmite para o espectador: a cena em que as três mulheres da casa estão na mesa, uma bordando, uma cozinhando e outra bebendo vinho; e a cena do aborto, que quase me fez chorar por ter aquele bebê ali do lado da jovem, pegando em seu dado… O retrato final da película pode ser o literal que vemos no filme, ou a própria película, que fala sobre uma artista e sua modelo, ardentes de desejo. Um filme sobre mulheres, sobre corpo, sobre memória, imagem, gozo e felicidade. Um recorte erótico e sentimental da vida que mostra não só uma jovem, mas também um público em chamas.
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3º – A Metamorfose dos Pássaros

Catarina Vasconcellos — Portugal, 2020

Posteriormente, irá ser revelado o caráter personalíssimo daquela história e como alguns dados foram modificados, conscientemente, por serem mais aprazíveis à narrativa (como o verdadeiro nome de Jacinto ser Henrique, porém aquele soa melhor). No fim, é um filme sobre perda (da vida) e criação (cinematográfica). Não é sobre o que as imagens são (o mar não é o mar), mas sobre o que elas representam. Cada plano é construído através de uma plasticidade e beleza que evidenciam a intenção da diretora em fazer da narrativa de sua própria história um objeto Belo por si só, eternizado no tempo. Não há homenagem mais bonita para seus entes falecidos.
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2º – O Mistério de Silver Lake

David Robert Mitchell — EUA, 2018

Há uma frase de autoria desconhecida a mim, mas que me marca profundamente. Ela diz que todo grande (leia-se: espetacular) filme feito na história do Cinema pós-1958 é uma releitura de Um Corpo que Cai. Este é o caso aqui, que também é uma releitura de tantos outros mitos do Cinema, da cinefilia em si e de um zeitgeist de uma geração em geral.
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1º – Joias Brutas

Benny e Josh Safdie — EUA, 2019

Por fim, em Joias Brutas, os Safdies fogem do submundo dos junkies, das drogas e dos rejeitados de seus filmes anteriores, mas, no fundo, eles apenas estão mostrando o outro lado da mesma moeda. Agora, eles vão para uma Nova York dos leilões, dos empresários, rappers e apostas para abordar o mesmo tema: o vício. E, pobre ou rico, o vício é a ruína do homem. Algo que os diretores parecem entender melhor do que ninguém no cinema norte-americano moderno.

RODRIGO PEREIRA

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Se 2020 teve sua parcela anual de atrocidades potencializada a enésima potência por conta pandemia, o cinema, ainda que sua indústria tenha sido extremamente afetada, entregou verdadeiras preciosidades ao longo do ano, o que ajudou a passarmos pelas variadas adversidades a que fomos apresentados. Com as idas ao cinema impossibilitadas, a maioria dos meus selecionados foram vistos nas versões online de festivais que ocorreram em 2020, trazendo, mesmo que minimamente, um pouco da sensação de ir até o cinema assistir a um filme. Esses esforços, infelizmente, não chegam perto da felicidade de adentrar uma sala de cinema para ver uma obra pela primeira vez e que torço imensamente para podermos voltar a realizar esse programa com tranquilidade em 2021. Até lá, seguirei longe das salas, mas nunca do cinema.
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10º – Glauber, Claro

César Meneghetti — Brasil, 2020

Meneghetti usa o olhar arquitetônico de Glauber para criar uma narrativa de contrapontos e paralelismos geográficos entre o tempo do diretor e o da produção do documentário, assim como procura fazer o seu próprio experimento ao expor essa viagem setentista na tela. É um filme que se assume como tal e, justamente por isso, serve como um perfeito canal para expor um pouco da experiência que Glauber Rocha nos propõe em Claro. Mas talvez o mais importante nessa jornada seja o seu caráter verdadeiramente humano, que pega o engajamento político, a troça, o papo sério, o impulso de um momento histórico e o joga-os para o futuro, com atores, atrizes, críticos e técnicos muitas décadas mais velhos; reunidos e falando sobre aquela experiência.
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9º – Suor

Marcus von Horn — Polônia, Suécia, 2020

Suor expõe o potencial tóxico das redes sociais digitais com maestria, explorando o cotidiano de uma pessoa que teve sua humanidade raptada e transformada em produto. De nada importa suas vontades, individualidades e sentimentos, como fica claro na entrevista do programa de televisão ao final da obra, satisfaça-se com a função que adquiriu dentro de nossa moderna sociedade mercadológica e a repita exaustivamente. Nem mais, nem menos.
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8º – Destacamento Blood

Spike Lee — EUA, 2020

Destacamento Blood é um filme sobre as lutas que acontecem em diferentes camadas de uma mesma comunidade, de uma mesma classe social, tentando apontar uma justificativa para o por quê de ser tão difícil unir sofredores em momentos fora do desespero completo. Um filme sobre como homens feridos podem reagir quando confrontados com o motivo de seu sofrimento.
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7º – O Farol

Robert Eggers – EUA, Brasil, 2019

Robert e Max Eggers não pouparam esforços para tornar o filme exagerado, sujo, aterrador, barulhento, chamando o máximo de atenção para a trajetória desses dois homens isolados em um espaço que pouco a pouco os enlouquece e, de maneira interessante, manipula também a visão do espectador sobre o que está acontecendo. Diferente de A Bruxa, que jogava com a quietude e fazia a trajetória da desgraça até a ascensão de uma mulher, aqui em O Farol temos a tempestade (literal e metaforicamente) como destaque e a trajetória da suja normalidade para a suja decadência física e mental de dois homens ou… de um estágio ou tipo de masculinidade.
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6º – A Morte Branca do Feiticeiro Negro

Rodrigo Ribeiro — Brasil, 2020

A carta de Timóteo fala de uma dor de deslocamento, a marca da diáspora negra que alimentou séculos de escravidão no Brasil. As imagens do filme assombram. São como terrenos medonhos, amaldiçoados por algo que nada tem a ver com o terreno em si, mas com aquilo que ele não é (a terra de origem do sequestrado) e aquilo que ele é (um lugar de dor, estafa, sofrimento e morte).
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5º – Sertânia

Geraldo Sarno — Brasil, 2019

Antão é uma das muitas facetas do brasileiro que Geraldo Sarno tão bem registrou, nas mais variadas formas, desde os primeiros anos de sua carreira, com Viramundo, Viva Cariri e Vitalino/Lampião. O brasileiro que perde desde a infância. Que é forçado a deslocar-se. Que não pertence, mas é forçado a pertencer. Que é manipulado para repetir um pensamento e em alguns casos, a usar a força contra os inimigos da ocasião, os inimigos do Estado, o próprio povo.
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4º – Mulher Oceano

Djin Sganzerla — Brasil, Japão, 2020

A própria diretora, em algumas sequências, narra essa questão, deixando explícito sua visão de como o oceano influencia das mais diversas maneiras as personagens. Inclusive, é o que mais me agrada na obra de Sganzerla, como ela utiliza o mesmo mar para refletir o que Hannah e Ana, tão diferentes mas tão iguais, estão passando. Ao longo de toda projeção somos apresentados a cenas em que as águas parecem prontas para sair da tela e nos engolir em meio às suas poderosas ondas, com planos médios e fechados que ajudam a causar essa sensação de impotência e pequeneza diante de algo tão imenso. Em outras, no entanto, a cineasta utiliza planos abertos para abarcar toda a calmaria e a beleza do mesmo mar, criando tão belas imagens que são capazes de nos emocionar somente por contemplá-las. Essas diferenças refletem sentimentos e pensamentos das personagens, criando uma aproximação que sugere esses três elementos (Hannah, Ana e oceano) como se fossem um só.
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3º – Babenco — Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou

Bárbara Paz — Brasil, 2020

A construção da narrativa executada por Paz, que nos apresenta tão bem essa junção dos dois seres do protagonista, é magnífica não somente nesse momento. Ao mostrar a implosão de vários prédios, a diretora pontua como a descoberta da doença em uma idade que se julgava imbatível foi como se o mundo desmoronasse para Babenco. Assim como na sequência que o cineasta falava sobre não se sentir pertencente a lugar nenhum. Judeu, dizia que os brasileiros o consideravam argentino e os argentinos, brasileiro. Enquanto narra a dificuldade de lidar com o sentimento e o quanto isso o afetava, a câmera caminha por um parque completamente vazio, aparentemente sem nenhum tipo de atividade, marcando essa solidão presente em sua vida através tanto da nacionalidade quanto da religião.
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2º – Hamilton

Thomas Kail – EUA, 2020

Conforme a obra avança, somos convidados a enxergar um conflito um tanto angustiante entre a voracidade e o prazer de viver (tudo isso entregue cheio de símbolos ainda no começo da peça, com o famoso “brinde à liberdade!“) e a inevitabilidade da morte, acrescida de uma preocupação maior: o que nós, como indivíduos, vamos deixar de realizações para serem observadas, aproveitadas e discutidas pelos que ficarem? O que restará de nós nesse mundo para que outras pessoas possam, seja lá de que forma, contar a história de quem fomos e do que fizemos? Quem contará a nossa história?
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1º – Retrato de Uma Jovem em Chamas

Céline Sciamma – França, 2019

Tudo converge para a tela e nela se imortaliza, como proposto, seja pelas soberbas atuações ou pelas belas composições que vemos. Duas cenas nesse processo merecem destaque pelo seu imenso rigor plástico e pelo que transmite para o espectador: a cena em que as três mulheres da casa estão na mesa, uma bordando, uma cozinhando e outra bebendo vinho; e a cena do aborto, que quase me fez chorar por ter aquele bebê ali do lado da jovem, pegando em seu dedo… O retrato final da película pode ser o literal que vemos no filme, ou a própria película, que fala sobre uma artista e sua modelo, ardentes de desejo. Um filme sobre mulheres, sobre corpo, sobre memória, imagem, gozo e felicidade. Um recorte erótico e sentimental da vida que mostra não só uma jovem, mas também um público em chamas.

KEVIN RICK

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Neste ano tão conturbado de 2020, com adiamentos de obras tão esperadas e o fechamento dos nossos amados cantinhos escuros da Sétima Arte, fomos roubados de muitos filmes maravilhosos. Felizmente, os serviços de Streaming foram capazes de preencher um pouquinho nosso buraco cinéfilo, rendendo uma boa quantidade de películas inesquecíveis. A lista não foi tão complicada de ser feita como em anos passados, mas contém muitas obras cinematográficas fenomenais. Vamos lá!
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10º – Os 7 de Chicago

Aaron Sorkin – EUA, 2020

Com atuações impressionantes dos veteranos Frank Langella e Mark Rylance, mas também contando com um afiadíssimo elenco restante, Aaron Sorkin dramatiza o julgamento dos Sete de Chicago em um “filme de tribunal” exemplar que finca raízes na estrutura tradicional do sub-gênero, mas que as usa não para relaxar ou burocratizar o storytelling, mas sim para fazer brotar uma obra que tem como objetivo educar, cutucar, incomodar e trazer à luz discussões relevantes ao nosso tão conturbado presente. O mundo inteiro viu esse julgamento, mas a lição não foi absorvida até hoje.
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9º – O Som do Silêncio

Darius Marder – EUA, Bélgica, 2020

O Som do Silêncio é uma injeção de circunstâncias viscerais e tensas com notável sensibilidade, uma devastadora experiência cinemática de aceitação das trágicas adversidades que acometem a vida humana. Não é um filme com sua típica história de superação, afinal, Ruben termina o filme falido, surdo e sozinho. No entanto, ele finalmente decide sentar, em silêncio, não apenas físico, mas completo silêncio, para, finalmente, aceitar e contemplar a vida em toda sua beleza e tristeza.
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8º – JoJo Rabbit

Taika Waititi – EUA, República Tcheca, Nova Zelândia, 2019

Waititi pode não ter ainda uma carreira tão longa ou ser um cineasta tão bom quanto Chaplin e Brooks, mas sua ousada sátira de época ao nazismo contribui, de sua própria maneira, para que o assunto não seja esquecido, especialmente hoje em dia em que as pessoas tendem a tratar os assuntos – simples ou complexos, inconsequentes ou graves – sem qualquer tipo de cuidado ou serenidade. Ao trazer um humor humano e inteligente para essa delicada equação, os horrores históricos são enfatizados e não diminuídos, abrindo espaço para conversas sadias ou para reflexões sobre o tema.
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7º – O Farol

Robert Eggers – EUA, Brasil, 2019

Se no final do filme temos problemas no uso de uma elipse que é uma armadilha (seria melhor que a cena seguinte não existisse, mas existindo, então que o momento diante da luz fluísse de modo que pudéssemos acompanhar a ida de Ephraim Winslow até a praia, onde cumpre uma espécie de punição à la Prometeu, “por ter roubado o fogo dos deuses“), ainda conserva-se o aspecto geral de horror e derrocada de alguém que ousou zombar e interferir no funcionamento de algo maior que ele mesmo. Por isso que a ideia geral de proteção e guia que simbolicamente atribuímos a um farol se corrompe nesse Universo. Ou melhor, é mostrada em uma outra camada de intenções, afinal, alguém iluminado, mesmo que não queira, pode atrair os mais variados horrores para o seu meio. E não é de hoje que sabemos que o mal também pode morar na luz.
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6º – Wolfwalkers

Tomm Moore, Ross Stewart – Irlanda, Luxemburgo, França, EUA, Reino Unido, 2020

Wolfwalkers é a nova obra-prima de Tomm Moore, desta vez ao lado de Ross Stewart na cadeira diretorial. Uma animação hipnotizante e apaixonante que merece ser vista e revista, além de ter cada frame enquadrado como um obra de arte por seu próprio mérito. Não tenho dúvida de que estamos diante de um novo clássico da animação ocidental.
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5º – A Voz Suprema do Blues

George C. Wolfe – EUA, 2020

A Voz Suprema do Blues é um filme de atores e, como tal, foca nas performances de um elenco capitaneado por Viola Davis e Chadwick Boseman em duas atuações realmente inesquecíveis. Há enorme peso nos conflitos estabelecidos nos ambientes confinados que ecoam a opressão dos afro-americanos tanto naquela época quanto hoje em dia, transformando o longa em uma obra particularmente poderosa para o momento atual. A estrutura teatral dentro da obra cinematográfica encontra o ponto exato de fusão e resulta em uma mistura homogênea e destruidora, daquelas que prendem o espectador do primeiro minuto até quando os créditos começam a subir. Aplausos!
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4º – Magnatas do Crime

Guy Ritchie – EUA, 2020

Reclamações puristas a respeito da autoindulgência de Guy Ritchie (voltar ao início do primeiro parágrafo) entram naquele tipo de lista que entendemos trabalhar com fatos, mas que por trazerem à tona uma prática cinematográfica encontrada em todo cineasta com uma assinatura reconhecível e recorrente, acaba tornando o argumento contraditório ou hipócrita. O olhar do diretor para a sua própria obra serve ao argumento de Magnatas do Crime como elemento central do jogo, expondo peças de diversão que tornam a comédia de máfia distinta do que vemos frequentemente no mercado, e algumas escolhas que mostram o diretor procurando renovar sua maneira de contar (e especialmente de revelar) um grande mistério.
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3º – Soul

Pete Docter, Kemp Powers – EUA, 2020

A mensagem é clara, o que importa são as pequenas coisas: experiências gastronômicas, uma folha que cai da árvore, a água do mar batendo no pé, os momentos vividos com os pais. Quando consegue se desvincular de seu individualismo, dando o “passe à Terra” para a número 22, Joe está pronto para, enfim, viver a vida. E não deixa de ser significativo que, nos momentos finais, haja um paralelismo entre a cidade de Nova York, vista em sua amplitude de luzes artificiais, e o universo, com suas estrelas brilhantes: nossos sonhos (que se transformam em obsessão), que regem e ditam nossas vidas, além de nossa certeza que somos o centro do universo, não são nada perto da grandeza do mundo lá fora. O tal do ditado “um grão de areia no meio do nada”. Adquirir este conhecimento é se libertar e, justamente por reconhecer a própria insignificância diante do todo, aproveitar as pequenas coisas.
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2º – Retrato de Uma Jovem em Chamas

Céline Sciamma – França, 2019

Tudo converge para a tela e nela se imortaliza, como proposto, seja pelas soberbas atuações ou pelas belas composições que vemos. Duas cenas nesse processo merecem destaque pelo seu imenso rigor plástico e pelo que transmite para o espectador: a cena em que as três mulheres da casa estão na mesa, uma bordando, uma cozinhando e outra bebendo vinho; e a cena do aborto, que quase me fez chorar por ter aquele bebê ali do lado da jovem, pegando em seu dado… O retrato final da película pode ser o literal que vemos no filme, ou a própria película, que fala sobre uma artista e sua modelo, ardentes de desejo. Um filme sobre mulheres, sobre corpo, sobre memória, imagem, gozo e felicidade. Um recorte erótico e sentimental da vida que mostra não só uma jovem, mas também um público em chamas.
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1º – Hamilton

Thomas Kail – EUA, 2020

A pesquisa temática de Lin-Manuel Miranda fez com que ele agrupasse e explorasse de modo divertido, cativante e progressivamente emocionante a saga de um povo com problemas políticos e sociais que, mesmo nos dias de hoje, ainda seguem ativos. E com feridas que parecem mais feias hoje do que eram na época da fundação do país. Conforme a obra avança, somos convidados a enxergar um conflito um tanto angustiante entre a voracidade e o prazer de viver (tudo isso entregue cheio de símbolos ainda no começo da peça, com o famoso “brinde à liberdade!“) e a inevitabilidade da morte, acrescida de uma preocupação maior: o que nós, como indivíduos, vamos deixar de realizações para serem observadas, aproveitadas e discutidas pelos que ficarem? O que restará de nós nesse mundo para que outras pessoas possam, seja lá de que forma, contar a história de quem fomos e do que fizemos? Quem contará a nossa história?

IANN JELIEL 

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2020 foi um ano atípico em todos os sentidos, incluindo para os meus padrões de assistidos do ano para as tradicionais listas de fim de ano. Apesar de ter visto o total de 74 filmes classificáveis para essa lista, a maioria foi vista no intuito de escrita, raras as exceções dos vistos por fora disso. Nesse sentido, deixei passar muitos grandes lançamentos, que provavelmente teriam chance de entrar na lista final. Ainda assim, acredito que os 10 que seleciono conseguem representar bem o ano, que apesar das limitações, foi cheio de ótimas surpresas, onde vários filmes que não dava nada, acabaram me conquistando profundamente.
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10º – A Babá – Rainha da Morte

McG – EUA, 2020

O filme ri da repetição que cria quando se espelha no que aconteceu no anterior, ri da intenção de se fazer a piada com essa repetição, ri da forma como o público (e os personagens) reage ao perceber a intenção de se fazer piada com a repetição, e às vezes mistura tudo em bolo só para rir de todas ao mesmo tempo, e se duvidar, depois ainda faz uma hipermetalinguística piada sobre o fato de como essa mistura ficou confusa. Essas várias sobreposições do humor em sintonia com a crescente de exagero absurdista no gore vão moldando convenções no universo partindo do efeito nos personagens das conveniências inseridas na trama.
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9º – Tempo de Caça

Sung-hyun Yoon – Coreia do Sul, 2020

Os personagens sentem o peso do amadorismo, e apesar de seguirem devidamente a simplicidade do plano, o “tremer na base” comumente estabelece um vínculo de proximidade que engole a carência de um maior desenvolvimento anterior à ação principal, além de fornecer um grau de imprevisibilidade, tudo parece estar suscetível a erros que podem custar caro. O medo vunerabiliza o quarteto e aos poucos toma forma em temática, complementar àquela distopia e à própria jornada individual.
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8º – Ninguém Sabe Que Estou Aqui

Gaspar Antillo – Chile, 2020

Diante de sua esfera específica de enorme sensibilidade, Ninguém Sabe Que Estou Aqui não tem medo de vomitar e colocar para fora as injustiças universais de talentos que nunca tiveram a chance de se provar talentosos por convenções sociais. É um exercício aconchegante de empatia que finaliza fantasiando um mundo onde um desses casos teve a chance de alcançar, nem que por um momento, nem que para si mesmo, o palco a que deveria pertencer.
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7º – A Escolhida (Antebellum)

Gerard Bush, Christopher Renz – EUA, 2020

Reflexo da escola de Jordan Peele, Antebellum leva o terror social ao pé da letra, articulando o horror na emulação direta do desconforto de estar na pele de um negro em um ambiente de hostilidade. Nesse caso, são dois, duas linhas temporais distintas guiadas pela mesma atriz, Janelle Monáe, uma na época da escravatura e a outra na contemporaneidade. Dado a premissa e o fato de ser a mesma atriz para ambas as personagens do presente e o futuro, a dupla estreante Gerard Bush & Christopher Renz começaram a brincar com o senso de percepção temporal do espectador em sua atmosfera de tensão, maturando cuidadosamente diferentes espelhamentos visuais entre os tempos que não só fornecem o material temático discursivo, como encaminham as conexões que levaram a eles, enfim, colidirem em uma interseção.
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6º – Destacamento Blood

Spike Lee – EUA, 2020

Spike Lee mostra que voltou mesmo a boa forma, de novo, trazendo o exercício de memória como ponte para discursões atuais e valorização da cultura negra em acontecimentos históricos. A morte de Chadwick Boseman só torna esse filme ainda mais simbólico nesse exercício de completar uma missão incompleta. Diferente de outros filmes de guerra, o fantasma dela aqui traz ensinamentos pertinentes de desvinculação do fácil egoísmo por anos de injustiça racial, para uma união de irmandade e solidariedade necessárias para que o negro possa ter sua história ouvida.
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5º – Joias Brutas

Josh Safdie, Benny Safdie – EUA, 2019

A urbanização néon atmosférica dos irmãos Safdie carrega uma energia alucinógena extremamente estimulante. É uma espécie de modernização da antiga vibe Scorsese, apresentando uma série de possibilidades sedutoras e hipnóticas do universo ilícito colocado, mas sendo absolutamente visceral nas consequências trazidas por elas, das mais simples conversas atropeladas por insultos aglomerando estresse, até as ações que na prática só estendem o sentimento de prisão a um mundo de vícios. Definitivamente, Adam Sandler e os irmãos Safdie merecem respeito depois dessa.
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4º – O Homem Invisível

Leigh Whannell – EUA, 2020

Alguns contos parecem ter nascido para a modernidade, “O Homem Invisível” em especial, só precisava deixar a limitação do ponto de vista masculino de lado para atingir todo seu potencial temático, que vai além do dilema do homem e passeia pelas consequências que as vítimas sofrem cruzando seu caminho. Se a mulher, em situações normais, já não é levada a sério quando se faz uma denúncia, quem dirá aquela atormentada por algo invisível ao olho nu. A metáfora não poderia ser mais clara, não mostrar o momento do abuso, mas sim a da reação de terceiros sobre ponto de vista de Cecilia, faz um combo evidenciador de como nós mesmos distorcemos a figura da mulher vítima diariamente.  Basicamente é para as mulheres o que “Corra!” simbolizou para os negros, um terror social representativo, falsamente ambíguo e primorosamente executado.
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3º – O Mistério de Silver Lake

David Robert Mitchell – EUA, 2018

O filme acredita no mistério como um artifício meramente reconfortante, que mesmo com um propósito se perde ao ser descoberto, como um local antes inóspito e agora habitado, e faz questão até de reforçar isso em algumas linhas de diálogo. Portanto, a premissa é apenas uma porta de entrada para um mundo sem saída, ou ao menos sem saída lógica, mas recheada de estímulos momentâneos. Assim, a cíclica dos acontecimentos segue justamente a ilógica jovial que o próprio roteiro posiciona em seu protagonista, inconsequente e imediatista, procurando no entretenimento uma muleta existencialista, para justificar sua mente passivamente consumista a todos os artefatos disponíveis em sua geração, sem interesse na digestão intelectual por trás delas e mais preocupado nas motivações que o convém, porque quando não, simplesmente teoriza por cima de maneira que fique confortável.
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2º – Para Sama

Waad Al-Kateab, Edward Watts – Reino Unido – Síria, 2019

Pior que qualquer filme de terror, a câmera “found footage” capta extraordinárias e viscerais imagens de sofrimento em meio à luta diária por esperança e salvação do hostil cenário de guerra na Síria. A cineasta é crua, realista e imperdoável, mas não esconde sua voz política necessária para uma mulher naquele contexto, apelando seu discurso narrativo por Sama, mas no fim, é por algo muito maior.
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1º – Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica

Dan Scanlon – EUA, 2020

Não é exatamente novo dentro do histórico da empresa, mas humildemente digo que isso não interessa. Como demostra Anton Ego no final de Ratatouille, o prato especial é moldado por memórias do nosso passado, e Dois Irmãos foi exatamente esse prato para mim, mais do que isso, foi um presente para preencher um vazio que nem lembrava mais que existia em meu íntimo, se reverberando em lagrimas melancólicas, alegres e sinceras. E desculpe-me os tecnomaníacos de plantão, entre a razão e a emoção, é na segunda que o cinema demostra sua total beleza.

GABRIEL ZUPIROLI

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Em um ano de diversos riscos – literais e figurados – ao cinema, é complicado fazer uma lista de melhores filmes. Isso não apenas porque poucas produções boas foram de fatos lançadas no Brasil, mas também pois assistir a filmes se torna uma ação atravessada por diversos estímulos diferentes. Como se consome algo que está sendo consumido pelo momento? De qualquer maneira, ficam aqui algumas recomendações de filmes não necessariamente maravilhosos, mas que escaparam em meu modesto olhar sobre as poucas obras vistas desse ano.
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10º – Sportin’ Life

Abel Ferrara – Itália, 2020

Juntando as duas frases acima, chega-se a conclusão do que seria Sportin’ Life: uma tentativa de ter controle sobre o incontrolável. Do autor tentando criar uma narrativa a partir da própria mutabilidade de sua matéria fílmica documental. Ferrara ressignifica as imagens-capturadas por ele, que, em dialética com a imagem de arquivo da COVID, geram um filme-rítmico de sensações antagônicas (calor humano vs. solidão das ruas). Não só isso, mas tal contraposição evidencia também uma tensão inerente ao fazer cinema, que é a luta entre o egocentrismo de um diretor (é um filme sobre Abel) e uma tendência que preza pelo apagamento do mesmo em prol da temática (é um filme sobre pandemia). Diante deste choque, nasce uma obra que tenta sair da zona de conforto, como o próprio diretor afirma que filmes devem fazer.
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9º – Ficção Privada

Andrés Di Tella – Argentina, 2019

Um documentário que se propõe a investigar os limites entre a produção de uma ficção e a intimidade. Até que ponto diários, fotos, anotações e relatos estão interligados com a possibilidade de se criar uma ficção? Explorando as fronteiras entre o real e o ficcional, o privado e o dito para o mundo, inclusive na forma, Andrés Di Tella rememora seu próprio passado.
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8º – Candango: Memórias do Festival

Lino Meireles – Brasil, 2020

Mas isso não é o suficiente para desmoralizar todo o trabalho do filme em vias daquilo que propõe. Cimentando-se em testemunhos sólidos, trata-se de um ótimo exercício da utilização da memória, pela voz dos que experienciaram um momento, na busca de adentrar o efeito mágico que compõe um dos mais importantes eventos cinematográficos do Brasil. Em um paradoxo estimulante de glamour e rebeldia, Candango: Memórias do Festival faz tudo o que o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro precisa para se eternizar na história. Desde rastrear sua origem selvagem até projetar para um futuro incerto sua gloriosa composição.
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7º – Todos Os Mortos

Caetano Gotardo, Marco Dutra – Brasil, 2020

Um filme que compreende como toda a história brasileira possui impressa em si as marcas da segregação racial. Uma investigação acerca da decadência de uma família de classe alta e suas relações com os povos marginalizados pelo sistema colonial. Aqui está tudo perfeitamente claro como estrutura: nas famílias, na arquitetura, nas danças e na fala.
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6º – O Preço da Verdade

Todd Haynes – EUA, 2019

Retomando sua temática ambientalista de Mal do Século, há uma principal diferença entre este e O Preço da Verdade. Se Juliane Moore fugia para um acampamento para viver isolada e esquecer da doença da cidade, essa não pode ser mais a solução em 2020. A ideia aqui não é a fuga, mas o enfrentamento, uma mea culpa de que todos nós talvez tenhamos vendidos nossos valores em algum momento. São dois filmes que falam sobre uma contaminação (sendo uma psicológica e a outra literal) e que identificam a causa na mentalidade gananciosa do sistema, mas agora Todd Haynes acredita que o homem ainda pode ser salvo caso enfrente as instituições que ele fazia parte.
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5º – Você Não Estava Aqui

Ken Loach – Reino Unido, França, Bélgica, 2019

O trabalho sempre foi um aspecto bastante discutido das economias, pois é a partir dele que temos a geração de riqueza (bom… para a maior parte da população do planeta, pelo menos) e a circulação da moeda via mercado consumidor. Com o avanço da tecnologia, o aumento da população, o enxugamento de leis trabalhistas e o amplo incentivo de iniciativas independentes de trabalho, seja de maneira mais livre, contratual, ou através de iniciativas temporariamente mais ousadas, com CNPJ e tudo (a exemplo do Brasil, em final de 2019, início de 2020) um novo tipo de classe trabalhadora tem aparecido. Um novo ajuste de tempo, de deslocamento, de valor de salário que não cobre custo de vida + inflação progressiva e deterioramento da saúde por questões ligadas à estafa tem feito parte das novas discussões. Para nós, aqui no Brasil, a realidade consegue ainda ser mais suja, cruel e até sanguinária que a que vemos em Você Não Estava Aqui, mas o poder dessa obra abre as portas para que a gente sinta, pense e repense o novo mercado de trabalho que está se formando à nossa volta.
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4º – 1917

Sam Mendes – EUA, Reino Unido, 2019

Não me cabe estudar aqui a psique humana, até porque não tenho propriedade no assunto, mas me soa muito curioso como nós, espectadores, ficamos fascinados cada vez mais em experiências realistas que nos façam sentir, ainda que momentaneamente, a adrenalina de um evento passado. Por outro lado, os homens que verdadeiramente vivenciaram aquele terror fariam de tudo para fugir dele. Nesse sentido, 1917 me parece um filme que perfeitamente atende tal demanda atual de mercado. Um tremendo deleite para os olhos e catártico para aqueles que estão satisfeitos em experimentar um terror controlado, mas que constantemente te relembra que nada daquilo é real — justamente por ser um real calculado demais.
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3º – Sibéria

Abel Ferrara – Itália, Alemanha, Grécia, México, 2020

Cada bloco traz uma configuração cênica marcante (neve, rocha, areia, floresta, todas muitíssimo bem fotografadas) e em cada viagem, o protagonista parece projetar um possível salvador para seus problemas, algo que nem sempre dá certo, pois a relação com o pai o atormenta e o faz saltar de um lugar para outro após rejeitar ou dar como perdida a compreensão, o diálogo e a relação com o velho. É como se o personagem vivesse aqui encarnações distintas, colocando-se em cada uma para viver determinadas experiências e talvez expiar falhas, tentando evoluir. Através da imagem e de um ritmo que não trata o público como incapaz de acompanhar uma febril trajetória onírica, o diretor nos faz viver experiências que não obedecem ao tempo linear, terminando justamente no ponto onde só é possível supor o que a vida ainda reservava para o personagem: o frio e solitário presente.
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2º – Retrato de uma Jovem em Chamas

Céline Sciamma – França, 2019

Tudo converge para a tela e nela se imortaliza, como proposto, seja pelas soberbas atuações ou pelas belas composições que vemos. Duas cenas nesse processo merecem destaque pelo seu imenso rigor plástico e pelo que transmite para o espectador: a cena em que as três mulheres da casa estão na mesa, uma bordando, uma cozinhando e outra bebendo vinho; e a cena do aborto, que quase me fez chorar por ter aquele bebê ali do lado da jovem, pegando em seu dado… O retrato final da película pode ser o literal que vemos no filme, ou a própria película, que fala sobre uma artista e sua modelo, ardentes de desejo. Um filme sobre mulheres, sobre corpo, sobre memória, imagem, gozo e felicidade. Um recorte erótico e sentimental da vida que mostra não só uma jovem, mas também um público em chamas.
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1º – Joias Brutas

Josh Safdie, Benny Safdie – EUA, 2019

Por fim, em Joias Brutas, os Safdies fogem do submundo dos junkies, das drogas e dos rejeitados de seus filmes anteriores, mas, no fundo, eles apenas estão mostrando o outro lado da mesma moeda. Agora, eles vão para uma Nova York dos leilões, dos empresários, rappers e apostas para abordar o mesmo tema: o vício. E, pobre ou rico, o vício é a ruína do homem. Algo que os diretores parecem entender melhor do que ninguém no cinema norte-americano moderno.

HANDERSON ORNELAS

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Como eu sinto falta do cinema. A expectativa criada para o filme, as tardes indo ao cinema do Largo do Machado, a busca pela melhor poltrona, o encantamento (ou decepção) com o longa, pegar uma promoção de pizza logo em seguida (ou qualquer outro fast food) pra trazer um sorriso no rosto enquanto conversa com seus amigos sobre a obra que acabaram de ver (ou no caso de estar sozinho, reflete consigo mesmo). 2020 é um ano que o conceito de cinema passou a ser remodulado mais intensamente, mostrando que talvez o conforto da própria casa e a o impulso da indústria de eletrodomésticos por TVs cada vez maiores talvez faça essa visão de “cinema de streaming” ter seu próprio charme. Por enquanto, para minha pessoa, ainda não chega nem perto da mesma experiência, charme e antecipação que tenho para o cinema em sua forma tradicional, mas foi o suficiente pra me oferecer belíssimas pérolas esse ano.
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10º – Hamilton

Thomas Kail – EUA, 2020

A pesquisa temática de Lin-Manuel Miranda fez com que ele agrupasse e explorasse de modo divertido, cativante e progressivamente emocionante a saga de um povo com problemas políticos e sociais que, mesmo nos dias de hoje, ainda seguem ativos. E com feridas que parecem mais feias hoje do que eram na época da fundação do país. Conforme a obra avança, somos convidados a enxergar um conflito um tanto angustiante entre a voracidade e o prazer de viver (tudo isso entregue cheio de símbolos ainda no começo da peça, com o famoso “brinde à liberdade!“) e a inevitabilidade da morte, acrescida de uma preocupação maior: o que nós, como indivíduos, vamos deixar de realizações para serem observadas, aproveitadas e discutidas pelos que ficarem? O que restará de nós nesse mundo para que outras pessoas possam, seja lá de que forma, contar a história de quem fomos e do que fizemos? Quem contará a nossa história?
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9º – Mank

David Fincher – EUA, 2020

Com tanto o que falar positivamente, o problema sobre o conflito de créditos de Mank acaba não sendo muito mais do que um incômodo na reta de chegada. O longa brilhantemente resgata a história do autodestrutivo roteirista, tomando seu lado incondicionalmente, mas usando-o principalmente como veículo para caracterizar uma era e toda uma indústria, além de tensões políticas que ganham eco em nosso cotidiano quase 100 anos depois. David Fincher sai de seu longo jejum cinematográfico para adicionar mais uma grande obra à sua curtíssima filmografia, deixando-nos sedentos por intervalos menores entre seus filmes.
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8º – Jojo Rabbit

Taika Waititi – EUA, República Tcheca, Nova Zelância, 2019

Waititi pode não ter ainda uma carreira tão longa ou ser um cineasta tão bom quanto Chaplin e Brooks, mas sua ousada sátira de época ao nazismo contribui, de sua própria maneira, para que o assunto não seja esquecido, especialmente hoje em dia em que as pessoas tendem a tratar os assuntos – simples ou complexos, inconsequentes ou graves – sem qualquer tipo de cuidado ou serenidade. Ao trazer um humor humano e inteligente para essa delicada equação, os horrores históricos são enfatizados e não diminuídos, abrindo espaço para conversas sadias ou para reflexões sobre o tema.
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7º – Another Round (Druk)

Thomas Vinterberg – Dinamarca, Suécia, Países Baixos, 2020

Thomas Vinterberg mostra em Another Round (Druk) homens que intelectualmente se entregam a um vício e sofrem as consequências disso. Não há moralismo aqui, mas um trato humano para a aposta em um jogo muito perigoso. Com homens sensíveis, que choram, que conversam com os amigos sobre seus problemas e dores, o diretor também nos mostra esse outro lado da ansiedade, da depressão da busca por agradar e sempre fazer certo. É um filme sobre um vício muito comum, mas com camadas o suficiente para não deixar a abordagem datada ou rasa.
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6º – Os 7 de Chicago

Aaron Sorkin – EUA, 2020

Com atuações impressionantes dos veteranos Frank Langella e Mark Rylance, mas também contando com um afiadíssimo elenco restante, Aaron Sorkin dramatiza o julgamento dos Sete de Chicago em um “filme de tribunal” exemplar que finca raízes na estrutura tradicional do sub-gênero, mas que as usa não para relaxar ou burocratizar o storytelling, mas sim para fazer brotar uma obra que tem como objetivo educar, cutucar, incomodar e trazer à luz discussões relevantes ao nosso tão conturbado presente. O mundo inteiro viu esse julgamento, mas a lição não foi absorvida até hoje.
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5º – Wolfwalkers

Tomm Moore – Irlanda, Luxemburgo, França, EUA, Reino Unido, 2020

Wolfwalkers é a nova obra-prima de Tomm Moore, desta vez ao lado de Ross Stewart na cadeira diretorial. Uma animação hipnotizante e apaixonante que merece ser vista e revista, além de ter cada frame enquadrado como um obra de arte por seu próprio mérito. Não tenho dúvida de que estamos diante de um novo clássico da animação ocidental.
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4º – O Homem Invisível

Leigh Whannell – EUA, 2020

Ademais, a recepção sadia do filme entre o público e a crítica permite que já se discuta um resgate de outros monstros clássicos do cinema, todos em diálogos com o contexto histórico atual, tomado por crises já comuns à existência humana desde sempre. Dor, trauma, tristeza, violência, opressão, machismo, etc. São temas que fazem parte das nossas vidas há eras, alguns tratados em O Homem Invisível trazido para 2020 e tópicos que provavelmente emergirão das próximas narrativas sobre criaturas aberrantes do cinema.
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3º – Destacamento Blood

Spike Lee, EUA, 2020

Destacamento Blood é um filme sobre as lutas que acontecem em diferentes camadas de uma mesma comunidade, de uma mesma classe social, tentando apontar uma justificativa para o por quê de ser tão difícil unir sofredores em momentos fora do desespero completo. Um filme sobre como homens feridos podem reagir quando confrontados com o motivo de seu sofrimento. Não é uma obra fácil, nem delicada e não segura críticas, seja para os engajados na luta do black lives matter, seja para os que, décadas antes, eram vistos de duas formas: ou como assassinos de inocentes ou como vítimas estigmatizadas de uma pátria assassina. Coisas que a guerra, mesmo distante do front, é capaz de fazer. E coisas que nenhum ser humano consegue suportar sem ser irremediavelmente abalado.
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2º – O Som do Silêncio

Darius Marder – EUA, Bélgica, 2020

O Som do Silêncio é uma injeção de circunstâncias viscerais e tensas com notável sensibilidade, uma devastadora experiência cinemática de aceitação das trágicas adversidades que acometem a vida humana. Não é um filme com sua típica história de superação, afinal, Ruben termina o filme falido, surdo e sozinho. No entanto, ele finalmente decide sentar, em silêncio, não apenas físico, mas completo silêncio, para, finalmente, aceitar e contemplar a vida em toda sua beleza e tristeza.
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1º – Soul

Pete Docter – EUA, 2020

A mensagem é clara, o que importa são as pequenas coisas: experiências gastronômicas, uma folha que cai da árvore, a água do mar batendo no pé, os momentos vividos com os pais. Quando consegue se desvincular de seu individualismo, dando o “passe à Terra” para a número 22, Joe está pronto para, enfim, viver a vida. E não deixa de ser significativo que, nos momentos finais, haja um paralelismo entre a cidade de Nova York, vista em sua amplitude de luzes artificiais, e o universo, com suas estrelas brilhantes: nossos sonhos (que se transformam em obsessão), que regem e ditam nossas vidas, além de nossa certeza que somos o centro do universo, não são nada perto da grandeza do mundo lá fora. O tal do ditado “um grão de areia no meio do nada”. Adquirir este conhecimento é se libertar e, justamente por reconhecer a própria insignificância diante do todo, aproveitar as pequenas coisas.

FERNANDO JG

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Sempre tenho dificuldade em estabelecer qualquer tipo de lista porque acabo fazendo injustiça com algo, ou esquecendo de alguma obra. Além do mais, minhas listas estão sempre mudando, dificilmente algum filme permanece fixo, assim acabo colocando todos os meus favoritos em um grande saco, fazendo justiça com todos. Esse ano assisti a poucos lançamentos, mas dos que acabei vendo, achei alguns promissores, como o da Eliza Hittman, que tem um cinema de autoria e temática feminina muito interessante. Deixo marcado aqui os melhores de 2020, cujo critério de avaliação é apenas pessoal.
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10º – Nunca, Raramente, Às vezes, Sempre

Eliza Hittman – Reunido Unido-EUA, 2020

Parece que finalmente o cinema de formação de Eliza Hittman ganha o seu primeiro grande destaque. A diretora propõe um olhar íntimo sobre as questões femininas, especialmente o aborto na adolescência, e ganha pelo modo delicado como trata a dificuldade de uma fase tão conturbada na vida de uma mulher em crescimento.
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9º – Transtorno Explosivo

Nora Fingscheidt – Alemanha, 2020

Uma versão feminina de Mommy, Transtorno Explosivo é uma grata surpresa no circuito de 2020, ao discutir os problemas nervosos pela perspectiva infantil e feminina, criticando instituições e humanizando o seu personagem, o longa acerta em cheio e choca pela agressividade.
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8º – Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa

Cathy Yan – EUA, 2020

O plano de trazer uma estética esquizofrênica para a ambientação do cenário é muito bem feito, refletindo nas cores e nas imagens que se relaciona com o modo de ver desse diabo arlequinal. Ao discutir a emancipação feminina, Aves de Rapina pode não ser um clássico hoje, mas no futuro fará toda a diferença na história do processo de engajamento social que, querendo ou não, as produções adaptadas de HQ’s estão atravessando.
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7º – Ema

Pablo Larrain – Chile, 2020

Para mim, esse filme é um grande enigma e uma grande bagunça organizada. Lindo esteticamente e ganha o meu posto de 7º lugar pela trama sobre a instabilidade do amor e pela fotografia sublime.
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6º – O Que Ficou Para Trás

Remi Weekes, Reino Unido-EUA, 2020

O longa de Remi Weekes traz o terror para o íntimo de uma família de refugiados, fazendo com que o horror recaia sobre as memórias dos personagens, que são perseguidos pelos traumas da guerra de seu país de origem e pelo processo de fuga, chegando em uma Europa xenofóbica e racista.
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5º – Rede de Ódio

Jan Komasa – Polônia, 2020

Rede de Ódio filma os processos de geração de Fake News e difamação na Internet. Por dentro do que no Brasil chamamos de “Gabinete do Ódio”, a direção tem o seu ponto alto quando foca na figura sociopata e fria de seu personagem.
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4º – O Homem Invisível  

Leigh Whannell – EUA, 2020

O Homem Invisível me surpreendeu por trazer esse clássico para a contemporaneidade, discutindo o relacionamento abusivo de uma perspectiva super moderna. O que parecia ser uma bobeira, surpreende pela forma como constrói o Homem Invisível no enredo.
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3º – Destacamento Blood

Spike Lee – EUA, 2020

E finalmente o Spike Lee dirige um filme sobre a guerra do Vietnã e conta uma versão diferente, com foco na violência racial durante a Guerra. Excelente e com atuação memorável do Delroy Lindo, que conduz o único monólogo da trama em um personagem raivoso, potente e cheio de traumas da guerra.
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2º – Mortal Kombat Legends: A Vingança de Scorpion

Ethan Spaulding – EUA, 2020

A nova animação conta um pouco da história do Scorpion e os motivos que levaram ele a ser assim. Com uma violência desmedida, e visualmente chocante, não poupando nem as crianças, o filme foi uma grande surpresa positiva.
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1º – Strasbourg 1518 

Jonathan Glazer – Reino Unido, 2020

Para mim, o filme do ano fica por conta de Strasbourg 1518, que é basicamente um surto ensaiado pelos melhores dançarinos do mundo, como num desespero causado pelo confinamento. É uma ode à loucura mixada pelo Jonathan Glazer, que já tinha feito o pré-pandêmico The Fall.

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